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28/10/2004 - 09h07
Perfil: Yasser Arafat
da BBC, em Londres
Seja no campo de batalha, seja na mesa de negociações, Yasser Arafat é, há mais de 40 anos, o indiscutível líder dos palestinos na luta pela criação de seu Estado independente.
Personagem enigmático, em que os feitos de coragem pessoal muitas vezes se confundem com uma notável tendência à mitificação, Arafat simboliza a luta de todo um povo pela sua sempre adiada autonomia.
Por ser uma luta tão longa, ele tem carregado em seu corpo o peso dessa batalha. Sua recusa em delegar poder nos últimos anos tem contribuído para a piora em seu estado de saúde e em sua popularidade ao redor do mundo.
Seus mais recentes problemas de saúde começaram no dia 20 de outubro, com dores no estômago, e levaram um de seus assessores nesta semana a dizer que ele está "muito, muito doente".
A doença levantou sérias questões sobre a sua sucessão, já que seu poder é tão personalizado. Com o fracasso do processo de paz iniciado em Oslo, mais e mais palestinos ficaram impacientes com seu estilo autocrático.
Mesmo assim, sua popularidade entre alguns palestinos nacionalistas melhorou, justamente por todas as tentativas israelenses de colocá-lo de escanteio.
Desde dezembro de 2001, Israel tem confinado o líder palestino ao seu quartel-general em Ramallah, na Cisjordânia.
Princípios
Arafat diz ser natural de Jerusalém, mas há registros de seu nascimento no Cairo, em 1929.
Depois de fazer fortuna no Kuwait como comerciante, participou em 1959 da formação do Fatah, grupo que se tornaria o principal elemento da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), e pouco tempo depois se tornou o líder incontestado da causa palestina.
No começo da luta palestina, Arafat liderou a OLP na busca de seus objetivos a qualquer custo, mesmo que valendo-se de meios violentos.
Sua autoridade permaneceu intacta durante os anos 60 e 70, mesmo que muitas vezes tenha sido alvo de críticas na comunidade internacional por comandar ações como o seqüestro de aviões e ataques a bomba.
Arafat deu freqüentes provas de coragem pessoal, envolvendo-se diretamente em situações críticas.
Erro fatal
Além do militarismo, Arafat valeu-se de estratégias muitas vezes discutíveis para consolidar sua liderança no movimento palestino.
Em nome de sua causa, com freqüência fez uso de ameaças e intimidações para garantir que o poder permanecesse em suas mãos.
Analistas consideram que hoje, como líder da Autoridade Palestina, uma entidade reconhecida e com responsabilidades legais, suas táticas mudaram pouco.
Seu primeiro grande erro em política externa teria sido cometido no começo dos anos 90, quando apoiou Saddam Hussein na Guerra do Golfo.
Essa decisão privou a OLP de grande parte de suas fontes de renda, já que a entidade era financiada por governos de países árabes que se opuseram ao expansionismo de Saddam.
Com a derrota do Iraque, a OLP ficou sem aliados e sem dinheiro, e Arafat acabou sendo forçado a fechar acordos com Israel sob termos nem sempre considerados aceitáveis por seus comandados.
Ramo de oliveira
Tanto ele quanto o premiê israelense Yitzhak Rabin receberam o Prêmio Nobel da Paz por suas contribuições ao processo de paz, mas ao apertar a mão de Rabin na frente do então presidente americano, Bill Clinton, em 1993, Arafat despertou críticas de ambos os lados.
Ele retornou à Faixa de Gaza no ano seguinte, mas negociações para temas fundamentais como o direito de retorno dos refugiados palestinos não progrediram e o processo de paz foi prejudicado.
Rabin foi assassinado pela direita israelense em 1995 e, como presidente da Autoridade Palestina, Arafat teve dificuldades para definir seu papel e manter tanto israelenses quanto palestinos comprometidos com o que ele chamou da "paz dos bravos".
Paz tem sido algo raro para ele, desde então. No ano 2000, qualquer reconciliação parecia improvável e uma nova intifada, dessa vez armada e com Arafat como propulsor, foi lançada na Cisjordânia.
Em abril daquele ano, seu velho inimigo Ariel Sharon o acusou de instigar o terrorismo nas ruas de Israel e suas tropas atacaram o quartel-general de Arafat.
Ameaça recente
A maior ameaça recente ao seu controle total sobre os palestinos ocorreu em maio de 2003, com a pressão americana para a reforma na Autoridade Palestina e a indicação de Mahmoud Abbas, colega dos tempos de exílio da OLP, para o cargo de primeiro-ministro.
Abbas era apoiado pelos americanos, que se recusavam a dialogar com Arafat.
Yasser Arafat não aceitava a elevação de Abbas a primeiro-ministro e entrou em confronto com ele sobre a entrega do controle dos serviços de segurança.
Abbas estaria querendo aumentar a repressão a grupos militantes como o Hamas e o Jihad Islâmico.
No final das contas, Arafat venceu, e Abbas renunciou, sendo substituído por Ahmed Korei.
Com isso, a idéia americana de um sucessor para Arafat ainda em vida perdeu força.
Mesmo assim, seus críticos entre os palestinos o acusam de dirigir uma administração corrupta, fazendo muitas concessões e mantendo uma confiança equivocada nos Estados Unidos.
Vale lembrar as palavras na Assembléia Geral das Nações Unidas em 1974, quando fez sua estréia no cenário internacional.
Arafat disse aos delegados que ele tinha vindo "carregando um ramo de oliveira e um revólver de guerrilheiro".
Ele pediu para que os delegados não deixassem que o ramo de oliveira caísse de sua mão.

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