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08/11/2005 - 11h06
Distúrbios mostram morte do modelo social francês

da BBC, em Londres

O modelo social francês de integração morreu.

A prova são os violentos confrontos que estão varrendo a França desde 27 de outubro.

As imagens de bombeiros tentando apagar o fogo de milhares de carros e ônibus incendiados, prédios e supermercados vandalizados, e dos confrontos entre a polícia de choque e jovens encapuzados viraram rotina.

São cenas de insurreições de Terceiro Mundo – e agora em toda a França.

Duas Franças

Na verdade, existem duas Franças. A vida em Paris, por exemplo, é o oposto daquela nos subúrbios.

Veja o caso de Clichy-sous-Bois, ao nordeste de Paris.

Lá começaram os distúrbios, no último dia 27 de outubro, quando dois adolescentes muçulmanos morreram eletrocutados numa estação de transmissão elétrica.

Uma investigação tenta apurar se, de fato, eles estavam fugindo da polícia.

Clichy-sous-Bois é um subúrbio com prédios hediondos, erguidos às pressas – e pelo menor preço possível –, a partir dos anos 50.

Naquela época, os habitantes das colônias francesas no norte da África foram encorajados a vir trabalhar aqui. Fizeram parte do crescimento econômico.

Netos

Hoje, após décadas de desemprego crônico, metade dos habitantes de Clichy-sous-Bois têm menos de 20 anos de idade.

O nível de desemprego é de 40% - na França como um todo é de 10%.

Traficantes de drogas e pequenos criminosos perambulam pelas ruas.

Muitos desses jovens envolvidos nos confrontos são netos dos que vieram do norte da África.

Nasceram na França, mas são tratados como cidadãos de segunda categoria.

Eles têm, por exemplo, maior dificuldade para encontrar empregos por conta de seus nomes árabes.

Dos 60 milhões de franceses, 5 milhões são muçulmanos. Porém não há sequer um deputado muçulmano na Assembléia Nacional.

Polícia

Por sua vez, a polícia tem sido atacada pela maneira como trata os muçulmanos.

Em abril, a Anistia Internacional julgou que ela goza de ‘’impunidade generalizada’’ quando lida com imigrantes.

Zyed Benna, 17, e Bouna Traore, 15, os dois adolescentes eletrocutados, teriam, segundo amigos, fugido da polícia para evitar mais um interrogatório.

Como todos jovens, estavam habituados a produzir documentos – e sabiam que um interrogatório pode terminar na delegacia, e durar mais de quatro horas.

Pouco após o anúncio da morte de Benna e Traore, começaram os distúrbios.

Nicolas Sarkozy, o ministro do Interior, chamou os jovens responsáveis pelos primeiros incêndios de "escória". A ira dos jovens só aumentou.

Frustração

Considerável parte dos jovens revoltados são pessoas frustradas com suas vidas.

Alguns fazem parte de gangues, mas seria incorreto dizer que são a maioria.

De qualquer forma, eles não conseguem exprimir sua ira através de reivindicações claras.

E não é a primeira vez que enfrentam a polícia. No entanto, esta é a primeira vez que a violência se esparrama por toda a França.

E ao que tudo indica, o quadro tende a piorar.


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