O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, insistiu durante uma entrevista à
BBC Mundo que o Congresso Nacional, e não a Suprema Corte, deve decidir sobre seu eventual retorno ao poder.
Zelaya, que afirmou que o diálogo entre seus representantes e os do governo interino se encontra "In articulo mortis" (a ponto de morrer), acredita que o órgão legislativo deve se pronunciar sobre seu futuro político já que foram os congressistas que o destituíram do poder mediante um decreto publicado após sua expulsão do país, em 28 de junho.
O líder deposto deu prazo até segunda-feira para que o governo interino de Roberto Micheletti estude e aceite a última proposta apresentada por sua delegação de negociadores em Tegucigalpa.
Zelaya, que permanece refugiado na embaixada brasileira dede 21 de setembro, quando voltou de surpresa a Honduras, ainda afirmou que caso um acordo não seja alcançado entre as duas partes, as eleições marcadas para o dia 29 de novembro não serão reconhecidas.
Em que ponto estão as negociações depois que o prazo foi ampliado até a segunda-feira? Os prazos terminaram na sexta-feira como se havia anunciado publicamente. O que acontece é que na última hora a vice-chanceler do governo golpista disse que as negociações haviam se esgotado sem considerar a opinião da comissão negociadora.
A declaração provocou um tumulto muito grande no momento em que estávamos apresentando uma nova proposta. Depois, o regime de fato pediu que não levássemos as declarações da vice-chanceler em consideração e disse que precisava de mais tempo - sábado e domingo - para analisar a proposta que havíamos apresentado e agora esperamos que se pronunciem.
Disseram que, na segunda-feira, vão se manifestar sobre o que havíamos reivindicado à comissão - que o diálogo seja decidido no Congresso Nacional e não na Corte Suprema.
Os seus representantes pretendem se reunir com os de Micheletti antes de segunda-feira? Não. Nós estaríamos dispostos a participar de uma nova conversa se eles disserem que têm algo pelo qual vale a pena retornar à mesa. O diálogo está estagnado, suspenso, In articulo mortis, que é o que acontece quando se está numa situação como esta.
O que pode acontecer se a segunda-feira chegar e os representantes de Micheletti não aceitarem as condições apresentadas pelos seus negociadores? Insisto que o país continua numa crise profunda porque o povo não aceitou o golpe de Estado. A comunidade internacional desconheceu o processo eleitoral. As forças políticas opostas ao regime já disseram publicamente que não reconhecem o processo porque não traz nenhuma garantia de que as eleições serão transparentes.
Quer dizer que vão desconhecer o pleito de 29 de novembro? Isso já é um fato. Todas as nações do mundo já se posicionaram. Em Honduras não queremos eleições como no Irã e no Ageganistão, sob fogo e armas.
Se a situação tiver um resultado positivo nos próximos dias, você estaria disposto a reconhecer os resultados das eleições? Eu apoio o processo eleitoral. Sou um democrata e acredito que as eleições só podem ser realizadas quando todos podem participar em igualdade de condições.
Mas quando existe perseguição política contra opositores e fecham os meios de comunicação da oposição, como pode se realizar eleições livres?Eu não sou o problema, sou a solução do problema. Legalizo as eleições, garanto a transparência do processo eleitoral e a paz retorna ao país.
Qual é o seu estado de ânimo a quase um mês de sua chegada à embaixada (brasileira)? Estou padecendo de alguma tensão porque agora começaram novas táticas psicológicas para nos desestabilizar. Somos acordados à noite, eles colocam luzes fortíssimas que rondam a embaixada para que pareça dia.
A partir das dez, onze da noite começam a fazer barulho, gritar e nos meter medo dizendo que vão entrar .
O enclausuramento está pesando sobre a sua saúde? Não é o fato de estar preso aqui, mas a hostilidade permanente. Mas nosso espírito é forte. Venho do campo e estou acostumado à luta. Ao retornar a Honduras, vim demonstrar minha inocência e arriscar minha vida porque é a única coisa que posso dar ao povo hondurenho. Estou firme e não tenho medo do que está acontecendo.