O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, rejeitou na noite da segunda-feira uma proposta do governo interino sobre sua eventual volta ao poder.
O fracasso das negociações é um baque para o diálogo entre as partes conflitantes iniciado no último dia 7 de outubro sob os auspícios da Organização dos Estados Americanos (OEA).
O chefe da comissão negociadora do presidente deposto, Victor Meza, qualificou de "um insulto" a proposta apresentada pelo governo encabeçado por Roberto Micheletti.
Personagens da crise: os protagonistas
Manuel Zelaya foi eleito presidente de Honduras pelo Partido Liberal (centro-direita) em 2005 e assumiu no ano seguinte, com mandato até 2010. Durante seu governo, aproximou-se dos governos de esquerda da região e Honduras passou a fazer parte da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), bloco liderado por Venezuela e Cuba. Em junho deste ano, tentou promover um referendo para mudar a Constituição e permitir a reeleição presidencial, iniciativa que foi considerada ilegal pelo Parlamento e pelo poder Judiciário. No dia 28 de junho, quando iria levar adiante a votação, Zelaya, ainda de pijamas, foi expulso do país por militares e deposto do cargo de presidente. Voltou ao país de modo secreto em 21 de setembro, e desde então está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa
Roberto Micheletti, também do Partido Liberal, era presidente do Parlamento hondurenho quando Zelaya foi deposto. Assumiu a Presidência e defende que a manobra foi legítima, com o objetivo de proteger o país de um suposto golpe de Zelaya contra a democracia. Durante seu governo interino, que não foi reconhecido por nenhum outro governo, o país foi expulso da OEA e teve parte do financiamento externo congelado
"O senhor Roberto Micheletti não demonstrou vontade política e se empenha em participar do diálogo como um simples mecanismo de distração", declarou.
Ele acrescentou que não se reunirá com os delegados do governo sem uma proposta "séria, construtiva e respaldada por uma verdadeira vontade política".
"Não pretendemos declarar terminado o diálogo, nem rompê-lo. Mas ele se encontra em um estado de obstrução e relativo estancamento."
Proposta Segundo a proposta, a decisão final sobre o eventual retorno de Zelaya ao poder caberia à própria comissão negociadora - nem à Corte Suprema de Justiça, como queria o governo interino, nem à Assembleia Nacional, como pretendia o presidente deposto.
Os membros da comissão teriam, no entanto, que consultar e avaliar o parecer dos dois poderes do Estado antes de chegar a uma decisão final. A proposta não incluía prazo para concluir o processo.
"Isso porque, se algo nos fez avançar neste diálogo, foi a abertura das partes", disse a negociadora pelo governo interino, Vilma Morales.
"Há fatos novos, novas resoluções judiciais que é preciso considerar antes de tomar uma decisão." Para Meza, a proposta é uma estratégia adotada pelo governo para ganhar tempo, e acatá-la equivaleria a aceitar que não houve um golpe de Estado em Honduras.
No sábado, Zelaya havia suspendido o diálogo que vinha mantendo com o governo interino para tentar pôr fim à crise política no país.
Em uma declaração feita a partir da embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde está refugiado há mais de três semanas, Zelaya disse ser "desrespeitoso" que a decisão sobre sua volta ao poder seja tomada pela Suprema Corte, como havia sugerido Micheletti.
Na sexta-feira, após mais uma rodada de negociações fracassadas, Zelaya deu mais dois dias para que Micheletti aceitasse a proposta de seus mediadores para que a discussão em torno de seu futuro político fosse tomada pelo Congresso. O prazo, portanto, venceria nesta segunda-feira.
'Normalidade' Ainda nesta segunda-feira, o decreto que ordenava a suspensão do estado de sítio no país foi finalmente publicado no diário oficial, La Gaceta.
A medida foi imposta no dia 26 de setembro, cinco dias após a volta do presidente deposto, Manuel Zelaya, a Honduras. Na época o país vivia uma onda crescente de protestos organizados pela oposição. No dia 5 de outubro, Micheletti anunciou a suspensão do estado de sítio, mas a decisão ainda não havia entrado em vigor porque dependia da publicação em diário oficial.
A medida justificou o fechamento de duas emissoras de rádio e TV- a Rádio Globo e o canal 36 de televisão. No dia 29 de setembro, forças militares hondurenhas invadiram as instalações das emissoras e obrigaram as duas empresas a encerrar suas transmissões. Tanto a Rádio Globo quanto o Canal 36 são identificados como favoráveis a Zelaya, que está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Com a publicação do decreto, a Rádio Globo voltou ao ar, mas o Canal 36 permanece fora de atividade.
Entenda o cerco à embaixada brasileira em Tegucigalpa
* Com informações de Arturo Wallace, enviado especial da BBC Mundo a Honduras