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20/01/2011 - 11h03

Fotos feitas por soldados revelam lado pouco conhecido de Guerra do Vietnã

Camilla Costa
Em São Paulo

Álbuns de fotos criados por veteranos da guerra do Vietnã na internet revelam detalhes do cotidiano dos soldados americanos e sua convivência com a população local, e traz novos subsídios para relembrar e compreender um dos mais sangrentos conflitos militares dos últimos 50 anos.


O arquivo foi criado espontaneamente nos últimos anos em um dos sites mais populares de publicação de fotografias, o Flickr. Os autores e distribuidores das imagens são veteranos da guerra, em sua maioria aposentados, que usam o tempo livre para contar a história do que viveram em imagens.

Daniel Love é um dos veteranos cujas fotos são mais populares nos grupos dedicados inteiramente às imagens da guerra, que ocorreu entre 1955 e 1975.

Love, que esteve no Vietnã entre 1969 e 1970, diz que foi convencido a publicar as fotos por um colega de trabalho 15 anos mais novo e se surpreendeu com o interesse que elas despertaram na internet.

"Eu publiquei uma foto que tirei de um helicóptero e ela teve mais de 1800 visualizações. Aí comecei a colocar outras. Quem poderia imaginar que haveria tanto interesse no dia-a-dia de um soldado no Vietnã?", diz.

Para o veterano, as memórias evocadas pelas fotos são "muito poderosas".

"Me lembro do stress e, ao mesmo tempo, da atitude alegre e despreocupada daquelas pessoas, que podiam morrer a qualquer momento."

O historiador americano Andrew Wiest, que publicou seis livros sobre a Guerra do Vietnã, diz que a necessidade de compartilhar suas histórias de guerra à medida em que envelhecem é comum a todas as gerações de soldados veteranos.

No entanto, os que lutaram no Vietnã tiveram à sua disposição a primeira geração de câmeras fotográficas realmente fáceis de usar. Por isso, o cotidiano desta guerra é um dos mais bem documentados da história.

"A fotografia foi um grande hobby entre os soldados da época. Muitos deles perceberam que estavam participando do que seria o maior evento de suas vidas, e podiam registrar isso em filme de maneira fácil e barata", diz Wiest.

Documento

O historiador Ronald Frankum, ex-diretor de um dos maiores arquivos de fotografias e relatos do Vietnã, na Universidade do Texas, diz que a importância da publicação das imagens em sites abertos está em permitir que mais pessoas discutam e conheçam os bastidores da guerra.

"Os veteranos do Vietnã sempre publicaram livros aos montes. Mas agora, eles tem a oportunidade de compartilhar essas imagens com outros e comentá-las em um formato acessível a milhões", diz.

"Nossa compreensão da guerra agora, de todas as perspectivas, será muito mais rica do que a que temos de outros conflitos."

Andrew Wiest acredita que as fotos amadoras na internet são um documento mais preciso do que os livros mais famosos sobre o Vietnã, cujo foco está nos grandes eventos da guerra.

"Os livros de fotos tem espaço limitado, então se atém às grandes batalhas em detrimento das coisas menores. Mas para a maioria dos soldados, o período da guerra foi marcado por tédio, marchas, burocracia - a vida militar."

"O que esses álbuns de internet fazem é usar mais tempo para documentar o que a maioria dos soldados realmente viveu no Vietnã, incluindo os momentos bons e engraçados", diz o historiador.

Lance Nix, que serviu entre 1968 e 1969, esperou muito anos pelo momento de publicar as fotos. "Sabia que elas tinham valor histórico, mas nunca tive tempo. Quando me aposentei, descobri a internet", diz.

O veterano diz que o processo de escanear as antigas fotos para a publicação digital fez com que ele lembrasse em detalhes mais vívidos as experiências que viveu no país asiático. Mas a principal surpresa foi as respostas que recebeu das pessoas que viram as imagens no site.

"Tive uma resposta muito grande de outros soldados, incluindo alguns que estavam baseados perto de onde eu estava e filhos de soldados com quem eu servi. Vietnamitas que viviam na cidade de My Tho, onde eu estava, comentavam que reconheciam seus antigos vizinhos nas fotos."

Nix chegou a receber até mesmo e-mails de atuais habitantes de My Tho, no sul do país, com imagens dos mesmos lugares que ele fotografou como estão hoje.

Quando soldado, ele trabalhava em uma operação confidencial de inteligência, fora das bases militares da região. Por isso, suas fotos mostram mais o cotidiano dos moradores da cidade.

"O trabalho que eu fazia no Vietnã era interessante porque me permitiu viajar pelo Vietnã e ver muitos aspectos diferentes da guerra. Tive sorte", diz Nix.

Cotidiano

O professor aposentado Louis Galanos, que serviu no Vietnã entre 1966 e 1967 e passou um ano e meio no hospital militar tratando ferimentos de guerra, é um dos poucos a mostrar também imagens de vietcongues mortos ou capturados pelo Exército americano.

"Algumas pessoas não gostam, mas outras entendem que isso é parte da história. Eu mostrava estas fotos para meus estudantes e eles recebiam muito bem."

O veterano acredita que falar sobre a guerra e mostrar as fotos o ajudou a superar os traumas da experiência.

Em suas fotografias, é possível ver desde prostitutas vietnamitas nas ruas até shows apresentados para os soldados durante a guerra. Nas legendas, ele explica detalhadamente como eram as relações dos soldados com as mulheres locais e como funcionava o mercado negro no Vietnã.

"Alguns soldados trocavam cigarros americanos pela maconha local. Eles levavam pacotes de cigarro para a cidade, trocavam o tabaco por cigarros de maconha e fechavam os pacotes para revendê-los a outros soldados, que poderiam enviá-los para amigos nos Estados Unidos.

Segundo Galanos, era comum que os soldados torturassem os vietcongues capturados para conseguir informações. "Eles batiam, ameaçavam cortar partes do corpo, queimavam seus corpos com cigarros, os afogavam em água, etc. Mas a maioria dos vietcongues eram jovens recrutados à força para lutar contra nós."

As jovens nativas que trabalhavam como empregadas domésticas nas bases também aparecem nas imagens de muitos dos fotógrafos amadores.

"A maioria delas eram garotas católicas, que jamais saíram com os soldados. Suas famílias as deixavam trabalhar porque, em um mês, elas ganhavam mais do que um capitão do Exército vietnamita", conta Galanos.

Para Ronald Frankum, as fotografias de muitos soldados mostram interesse e compaixão pelos vietnamitas, além de serem um documento sobre o impacto da presença americana no Vietnã.

"As fotos das mulheres que trabalhavam como prostitutas ou como domésticas dos soldados para sustentar suas famílias mostram como a presença americana foi significante para aquelas pessoas. As crianças também costumavam perambular pelas bases procurando coisas jogadas fora para vender. Uma indústria foi criada com base no lixo americano", diz Frankum.

Rejeição

Segundo os especialistas, a rejeição sofrida quando retornaram do Vietnã é um dos motivos pelos quais mostrar as imagens para o maior número de pessoas possível se tornou importante para os veteranos.

"Estes soldados não foram bem recebidos pelo país, especialmente porque não havia vitória para celebrar", diz Andrew Wiest. "Houve, na verdade, um esforço nacional para esquecer os veteranos do Vietnã até os anos 1980."

Por causa disso, os ex-combatentes de uma das guerras mais polêmicas da história dos Estados Unidos querem garantir que suas versões da história sejam contadas.

"Eles provavelmente começaram a sentir, ao se aposentarem, que a oportunidade de contar o que viveram estava sendo desperdiçada", analisa Ronald Frankum.

Para ele, tirar as fotos antigas dos armários e publicá-las ofereceu aos soldados uma oportunidade de relembrar os bons momentos.

"As imagens mostram que os homens que estavam tirando as fotos eram na verdade meninos. Muitos deles estavam fora do seu país pela primeira vez."

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