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09/07/2007 - 19h11
Buenos Aires tem neve pela primeira vez em 80 anos

Pela primeira vez em quase 80 anos, nevou em Buenos Aires nesta segunda-feira. As temperaturas na capital argentina caíram abaixo de zero grau pela manhã e não passaram de 2º C durante quase todo o dia. A cidade havia visto neve pela última vez em 1928, e a mais intensa havia sido registrada dez anos antes, em 1918.

O fenônemo desta segunda-feira levou os argentinos às ruas da capital do país e na província de Buenos Aires para comemorar a neve. Em lugares como Bahia Blanca, os termômetros marcaram nove graus negativos. O frio e a neve foram mais intensos em províncias como São Luiz, Córdoba, Mendoza e na região da Patagônia, onde as temperaturas chegaram a 18 graus abaixo de zero, e telhados, automóveis e campos ficaram completamente brancos.

A neve e as baixas temperaturas ocorrem num momento em que a Argentina vive uma situação energética crítica, como admitem diferentes analistas do setor. O consumo de cerca de 18 mil megawatts diários supera a oferta, que está em torno dos 16 mil megawatts, segundo o ex-secretário de Energia, Daniel Montamat. Além disso, o aumento da importação diária de energia elétrica do Brasil - entre 700 e 1 mil megawatts - é considerado insuficiente, e falta água nas hidrelétricas, como na de Piedra de Aguila, com potência de 1,4 mil megawatts, e na de El Chocón, com potência de 1,2 mil megawatts. De acordo com o engenheiro Elías Sapag, representante da província de Neuquén no organismo chamado Autoridade Interjurisdiccional de Cuencas (Organismo Federal de Bacias, em tradução livre), duas das principais hidrelétricas vão parar de fornecer entre 600 e 800 megawatts, a partir do dia 12. Em entrevista à revista Fortuna, Sapag disse que essa redução obrigará ao aumento do racionamento de energia nas indústrias. "E os cortes podem chegar às casas", afirmou.

Até agora, por determinação do presidente Nestor Kirchner, as residências têm sido poupadas do racionamento energético, que na semana passada paralisou 300 fábricas e já afetava cerca de 4,9 mil outras indústrias, obrigadas a reduzir a produção ou a mudar horários de atividades para limitar o consumo de energia.

Nesta segunda-feira, o chefe de gabinete da Casa Rosada (Presidência da República), Alberto Fernández, fez um apelo aos consumidores. "Todos devemos ser cuidadosos com o consumo de energia", disse. Segundo Fernández, nas últimas horas aumentou em cerca de 30% o consumo de gás (que, assim como a eletricidade, alimenta os aquecedores), mas o governo manterá a decisão de não impôr racionamento às residências.

A expectativa é de que o consumo de energia volte a registrar taxas recordes a partir desta terça-feira, já que esta segunda-feira é feriado nacional pelo Dia da Independência e diferentes setores empresariais, bancos e indústrias não estão funcionando. A emissora de televisão TN (Todo Notícias) já se refere ao atual momento como "A Prova de Gelo", ao dizer que o sistema energético está à beira de um "colapso". A crise energética vem provocando debate entre analistas, que já especulam em quanto poderia ser afetado o crescimento econômico argentino - que vem registrando taxas recordes, de cerca de 9% ao ano, há cinco anos. Economistas como Abel Viglione, da consultoria FIEL, e Ricardo Delgado, da Ecolatina, recordam que a crise energética no Brasil, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, afetou a expansão econômica em 1% do PIB (Produto Interno Bruto). E não descartam que o mesmo possa ocorrer na Argentina. E por ser este um ano eleitoral, diz Montamat, a crise energética passou a ser um assunto ainda mais importante para o governo do presidente Kirchner, que pretende fazer da primeira-dama, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, sua sucessora a partir das eleições de 28 de outubro.

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