Um brasileiro que mora em Israel e é reservista do Exército do país disse à BBC Brasil que o clima entre os que estão servindo nas Forças Armadas de Israel na faixa de Gaza - inclusive entre brasileiros - é de profunda tristeza.
11 DIAS DE CONFLITO
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Carlos (nome fictício), de 25 anos, recebeu esta semana um aviso de que poderá ser convocado nos próximos dias para o conflito.
Natural de São Paulo, ele obteve cidadania israelense há quatro anos e hoje mora em Ashkelon, município com cerca de 100 mil habitantes. A cidade fica a menos de dez quilômetros da faixa de Gaza e é uma das que mais tem sofrido com foguetes disparados pelo Hamas.
Ele tem mantido contato com israelenses e outros três brasileiros que servem nas Forças Armadas do país.
"Eu falo com os meus amigos, com os meus comandantes, com os meus oficiais o tempo todo - o pessoal que está acima de mim no meu serviço - e, para ser bem sincero, o sentimento comum a todos no momento, fora o temor pelos entes queridos, é de profunda tristeza."
Com o anúncio feito esta semana pelo ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, de que o país vai convocar "milhares" de reservistas para atuar na faixa de Gaza, muitos estrangeiros que possuem cidadania israelense se preparam para entrar no conflito com o grupo palestino Hamas.
Violência brasileiraApesar de se dizer preocupado com a possibilidade de participar do conflito, Carlos conta que em Israel esse tipo de situação é algo quase cotidiano na vida dos israelenses, mesmo dos estrangeiros que obtiveram cidadania.
"É uma questão cultural importante. Aqui não é como no Brasil, que o pessoal acaba o colegial e vai para faculdade. Aqui o pessoal acaba o colegial, vai para o Exército e depois vai para a faculdade. É um estágio a mais."
Carlos trabalha em um escritório de uma empresa e diz ter uma vida normal "como qualquer pessoa". O que distingue a sua vida da maioria, no entanto, é o grau de violência ao qual é exposto no seu cotidiano.
Ele conta que convive diariamente com os foguetes disparados pelo Hamas e chegou a construir um bunker em um dos cômodos da sua casa. "Aconteceu muitas vezes, na última semana principalmente, de eu estar parado no farol vermelho dentro do carro e de começar a tocar a sirene e eu não ter onde me esconder."
Ele compara a situação com a qual convive diariamente em uma das cidades na fronteira de Israel e Gaza com a violência urbana em São Paulo, sua cidade natal.
"No Brasil, se vive uma guerra civil. É uma guerra não-declarada. Se nós formos comparar com números e proporções, hoje em dia morre muito mais gente em assaltos e com a violência urbana em São Paulo, por exemplo, que é de onde eu vim, do que aqui [em Israel], com todas as guerras e todos os conflitos militares entre um país e outro", diz.
"Obviamente a minha família morre de medo, todo mundo está apavorado e para dizer a verdade, nós aqui também. É uma situação muito complicada e imprevisível. A qualquer momento pode começar a tocar uma sirene avisando que tem um foguete vindo em nossa direção e nós temos 30 segundos para entrar em um bunker."
Carlos defende a ação de Israel contra o Hamas na faixa de Gaza. Na sua opinião, Israel tentou a todo custo evitar a operação na faixa de Gaza, mas a situação se tornou insustentável. Para ele, a culpa do conflito é do Hamas, que não cumpriu um cessar-fogo e continua atacando civis israelenses.
"Eu sou um soldado terrestre dentro da minha unidade. Ao entrar em Gaza, o intuito de Israel não é destruir o máximo possível. Pelo contrário, é destruir o mínimo possível. É tentar combater o problema com a maior precisão possível. A intenção não é matar, é prender quem está cometendo um crime contra a humanidade. É o grupo Hamas, não são os civis", diz.
"É profundamente triste termos que chegar a esse extremo de atentar de alguma forma contra a vida humana, seja ela de quem for, mesmo que seja de um terrorista que, se nós não o matarmos, ele vai nos matar."