Coluna da Anne Applebaum
O novo casal real tem o privilégio de saber qual será o seu destino
Anne Applebaum
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AP
Ao lado do príncipe Charles, William e Kate voltam ao palácio de Buckingham para a festa (29/4/2011)
Há um mês, eu disse a uma amiga britânica que poderia visitar Londres em 29 de abril. “Você não pode vir aqui no dia 29”, ela me disse. “É o dia do casamento.” Eu lhe disse que não fui convidada para um casamento.
Então eu me lembrei. Ah, sim, aquele casamento.
Não que minha amiga estivesse interessada no casamento de Catherine Middleton e do príncipe William de Gales, é claro: ela estava apenas preocupada com o trânsito. Mas começamos a falar sobre o casamento assim mesmo –e, como se revelou, nós duas tínhamos opiniões. Nós concordamos que Kate sempre consegue parecer feliz na televisão, o que não é fácil. Nós também concordamos que ele tem um cabelo excelente. Nós sentíamos que o príncipe William parece um jovem sério e que era uma pena que teria que esperar tanto para ter um emprego de verdade. Nós imaginamos que o vestido da noiva seria modesto, ao menos em comparação ao modelo escolhido há tanto tempo pela mulher que teria sido sua sogra. Minha amiga não acompanha a realeza e nem é leitora de tabloides. Nem eu. Todavia, sem nem mesmo tentar, nós duas tínhamos absorvido um bocado de informação sobre essas duas pessoas, sem nunca ter encontrado nenhuma das duas. Nós estávamos familiarizadas com a irmã de Kate, Pippa. Nós vimos fotos do vestido transparente que Kate usou certa vez em um desfile de moda estudantil. Nós sabíamos que William tem um diploma de geografia.
Mas também estávamos falando sobre eles em um tom diferente daquele que usaríamos se estivéssemos falando sobre, digamos, Madonna ou Tony Blair. Nem Kate e nem William concorreram a algum cargo público e nem irão. Eles nunca prometeram nada a ninguém –nem reduzir impostos, nem melhorar o atendimento de saúde– de modo que não há motivo para considerá-los decepcionantes. Eles nunca compuseram uma canção pop e nem apareceram em um filme, de modo que não há sentido em reclamar que são superestimados, estão em decadência ou desafinados.
Os únicos tipos de celebridades que poderiam lembrar são os astros de reality shows. Como as garotas que vão se sentar em ilhas desertas, Kate optou conscientemente em participar de uma novela há muito em exibição e bastante pública.
Mas a semelhança é superficial. Os participantes de “No Limite” ou “Big Brother” podem acabar caindo na obscuridade se quiserem, mas Kate se comprometeu a esta narrativa televisiva particular pelo restante de sua vida.
O dia seguinte do casal real
Veja Álbum de fotosNa verdade, não foi talento, ambição, inteligência ou mesmo riqueza que tornaram William famoso, mas sim o destino –um acidente de nascimento. Kate agora compartilhará esse destino, e isso, eu reconheço, é exatamente o que torna o casamento dela tão interessante de se ler a respeito, de se escrever a respeito e discutir. Diferente da sorte, que vem e vai, o destino é permanente. Diferente da fortuna, que pode ser boa ou ruim, o destino não é nenhum dos dois: ele apenas é. Você pode lamentar pelo príncipe William, por ter que viver sua vida em público. Ou pode invejá-lo, porque será o rei da Inglaterra. Faça sua escolha –mas seja qual for, os detalhes são atraentes.
O destino também é arcaico. Nós lemos a respeito dele na mitologia grega, ou em Shakespeare. No mundo moderno, meritocrático, nós estamos acostumados às pessoas conquistarem seu poder ou sua celebridade, de um jeito ou de outro. Mas o príncipe William é uma daquelas poucas pessoas na Terra que nasceram com verdadeira autoridade política. Mesmo que nunca faça nada a respeito, ele algum dia se tornará o chefe de um Estado relativamente importante. E mesmo que queira viver uma vida completamente diferente, ele não poderá. Caso abdicasse, como fez seu tio-bisavô, esse fato o definiria e o assombraria pelo restante de sua vida. Neste sentido, ele realmente é diferente da maioria de nós. Nenhum de nós sabe exatamente que rumo nossa vida tomará, mas William tem uma melhor ideia do que a maioria –e agora Kate também.
De fato, uma das coisas que ambos sabem com certeza é que milhões de pessoas que nunca viram agora estão falando sobre o cardápio do jantar de casamento deles, sobre a lista de convidados de sua cerimônia, e sobre o hotel no qual passarão sua lua-de-mel. E aqui está o que gosto a respeito deles: parece que eles decidiram curtir juntos assim mesmo. Por esse motivo apenas, eu ergo uma taça para brindar a felicidade do casal.
(Anne Applebaum é colunista do “Washington Post” e da revista “Slate”. Seu mais recente livro é “Gulag”.) Tradutor: George El Khouri Andolfato
Anne Applebaum
Jornalista escreve sobre política norte-americana e assuntos internacionais.
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