Jorge Ramos

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Com ajuda das redes sociais, deslizes de políticos não caem mais no esquecimento

Em Guadalajara, México

E quem pode esquecer como Rick Perry, aspirante à candidatura presidencial do Partido Republicano nos EUA, em um debate em novembro tentou enumerar as três agências governamentais que eliminaria, mas só conseguiu lembrar, com problemas, de duas delas?

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É impossível escapar ou esconder. É notícia que o candidato presidencial do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Enrique Peña Nieto, não conseguiu dizer quais eram os três livros que mais marcaram sua vida.

De fato, não pôde citar corretamente outro livro além da Bíblia. Isso fala sobre seus interesses e seu preparo. Como repórteres, não devemos proteger nem promover um candidato. E menos ainda se está ganhando.

Era obrigatório que na Feira Internacional do Livro em Guadalajara perguntassem a Peña Nieto sobre livros, e ele não estava preparado. Ponto. Estive lá na extraordinária e era o que todo mundo comentava.

Durante três minutos e 16 segundos intermináveis, o ex-governador do Estado do México confundiu o romancista Carlos Fuentes com o historiador Enrique Krauze, e depois se enredou ainda mais: "Não lembro do título exato... é que quero recordar o título do livro... há um que saiu que eram as mentiras sobre o livro deste livro... como se chamava o outro livro?... alguém me lembre quem é o autor... quando leio os livros acontece que não registro todo o título". (A entrevista pode ser vista no YouTube.)

Durante muitos dias esse incidente foi um dos temas mais populares no Twitter, em parte por causa de um "retweet" feito por sua filha Paulina. Em uma tentativa de defender seu pai, ela repetiu uma mensagem de seu namorado que qualificava de "pentelhos" e "proletários" os críticos do esquecimento de Peña Nieto.

O próprio Peña Nieto se desculpou em sua conta - "definitivamente foi um excesso" - e depois ela explicou o que havia acontecido: "Foi um impulso de minha parte ao ler alguns tweets que ofendiam meu pai e a memória de minha mãe".

Isto nos leva ao segundo esquecimento de Peña Nieto. Em março de 2009, quando lhe perguntei em uma entrevista para a Univision de que havia morrido sua esposa, Mônica Pretelini, aos 44 anos de idade, não pôde me responder corretamente: "Ela estava há dois anos com uma doença parecida com... esqueci o nome da, da... o nome da doença... não é epilepsia propriamente, mas algo parecido com epilepsia". Dezenas de milhares viram esse vídeo no YouTube.

Voltamos a nos encontrar em fevereiro de 2011 e comentei a Peña Nieto a surpresa de muitos quando ele não soube me dizer de que sua mulher tinha morrido. "É absurdo pensar, Jorge, que eu não saiba de que morreu minha esposa", ele me disse. "Foi um lapso não poder lhe dizer que minha esposa sofria nessa época de ataques de epilepsia, que tinham derivado em uma insuficiência cardíaca e que isso a havia levado a perder a vida. Como não saber claramente disto? Simplesmente foi um lapso." (Esse tema eu trato no livro "Os Presidenciáveis".)

Peña Nieto ainda não tinha lançado sua conta no Twitter quando o entrevistei pela segunda vez, mas ele elogiou as virtudes das redes sociais que, disse, facilitam os eleitores conhecer a personalidade dos políticos. "As redes sociais facilitam o maior conhecimento de um ator da política. Afinal de contas, em uma corrida pela presidência, o que [os eleitores] buscam é conhecer mais a pessoa, o que pensa, o que faria em certos cenários, o que propõe, qual é seu pensamento, quais são suas convicções, como é pessoalmente"."

Exatamente. Para isso são as campanhas; para conhecer os candidatos. E agora o grande desafio de Peña Nieto é tentar evitar que esses esquecimentos pessoais o definam e o derrubem. As pesquisas indicam que ele é o favorito. Mas todos os outros candidatos estão esperando um escorregão do primeiro colocado.

Depois de tudo, tais erros geram dúvidas entre os eleitores mexicanos: se Peña Nieto não estava preparado para falar sobre livros em uma feira do livro, e se não estava preparado para explicar adequadamente as circunstâncias da morte de sua mulher, é capaz de ser presidente? Tem os recursos para combater a intensa violência que sacode o México, para criar milhões de empregos e reformar uma sociedade na qual, segundo dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os 10% mais ricos da população ganham 26 vezes mais que os 10% mais pobres?

Para ser justos, todos os candidatos esquecem coisas. Em uma entrevista recente no rádio, Ernesto Cordero, um candidato presidencial do Partido da Ação Nacional, criticou a confusão de Peña Nieto sobre livros e procedeu a enumerar suas próprias grandes influências literárias, que incluíram "A Ilha da Paixão", de Laura Restreppo. Exceto que Cordero a chamou de Isabel. Duas vezes.

E quem pode esquecer como Rick Perry, aspirante à candidatura presidencial do Partido Republicano nos EUA, em um debate em novembro tentou enumerar as três agências governamentais que eliminaria, mas só conseguiu lembrar, com problemas, de duas delas?

Esses esquecimentos, sem a menor dúvida, ocorreram em muitas outras campanhas presidenciais. Mas a grande diferença é que agora - com as redes sociais e com os celulares atuando como vigilantes constantes de tudo, absolutamente tudo, o que digam ou deixem de dizer os políticos - nada mais é segredo e nada é esquecido. Tudo fica registrado. Nada pode ser apagado. E menos ainda se você é o primeiro colocado.

Há esquecimentos que nunca são esquecidos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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