Coluna do Jorge Ramos
México pode aprender com Cingapura, país organizado e pouco corrupto
Jorge Ramos
Em Cingapura
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Arte UOL
Tudo surpreende em Cingapura: a limpeza, a ordem, a segurança e a arquitetura. Para aqueles de nós que vêm de regiões menos organizadas do mundo, este país também se destaca como um dos menos corruptos e mais desenvolvidos do planeta.
Uma pausa. Cingapura não é exatamente um exemplo de democracia e de respeito à liberdade de expressão, mas falaremos disso um pouco mais adiante.
Da maior roda-gigante do mundo, a Singapore Flyer, pude apreciar o espetacular centro cultural Victoria Concert Hall, ao lado de uma baía invadida por bolas brancas que se tornam multicoloridas à noite, e os edifícios mais ambiciosos que já vi em qualquer lugar. Estamos falando de uma sociedade multicultural (com três quartos de origem chinesa e o restante malaio e indiano), onde as tensões raciais, religiosas e étnicas estão muito vigiadas e sob controle. Aqui vivem e convivem budistas, muçulmanos, hindus, taoístas e cristãos.
Para começar, como mexicano nesta cidade-estado de 5 milhões de habitantes, a pergunta é se o México poderia aprender algo com os cingapurianos para controlar a violência e a corrupção e para crescer rápida e ordenadamente.
Escrevo isto pouco depois de saber que quase 12 mil mexicanos foram assassinados no ano passado como resultado da violência do narcotráfico, que causou mais de 50 mil vítimas mortais desde que o presidente Felipe Calderón subiu ao poder em 2006 e empreendeu uma guerra falida, encabeçada pelo exército, contra os líderes do narcotráfico. Também li que, mais uma vez, o governo mexicano não cumpriu sua promessa de criar um milhão de empregos por ano.
Durante minha visita a Cingapura, estive pensando em que lições esta sociedade poderia ensinar à do México. O México poderia pôr fim à violência rampante das drogas e controlar sua corrupção generalizada se seguisse o exemplo de Cingapura? O México poderia crescer economicamente de forma rápida e ordenada como fez Cingapura?
Compreendo, é claro, as vastas diferenças entre essas duas nações. Cingapura é uma ilha diminuta, enquanto o México conta com 113 milhões de habitantes e compartilha uma fronteira de 3.200 quilômetros com os EUA, o maior mercado mundial para as drogas ilegais. No entanto, Cingapura parece prosperar com sua estrita devoção à ordem e à limpeza - jogar um chiclete na rua é penalizado neste país - e desenvolveu uma cultura nacional veementemente contrária a qualquer forma de corrupção. Poucos cidadãos de Cingapura estão dispostos a violar uma regra, já que fazê-lo seria não só ilegal como também muito mal visto. (Meus acompanhantes e eu nem sequer pudermos encontrar um motorista de táxi disposto a levar cinco pessoas, porque a lei dita que só são permitidas quatro passageiros por carro.)
Esta cultura rendeu frutos de diversas formas. A Transparência Internacional, organização que monitora a corrupção em todo o mundo, classificou Cingapura como o país menos corrupto do planeta em 2010, empatado com Nova Zelândia e Dinamarca. Em 2011 Cingapura ocupou o quinto lugar na lista, enquanto o México ficou no pouco honroso 100º lugar entre 178 países.
E apesar do declínio econômico global Cingapura continua sendo uma joia financeira. Desde que obteve sua independência em 1965 - antes era uma colônia britânica e depois se separou da Malásia - não parou de se desenvolver. A economia de Cingapura cresceu em um ritmo incrível de 14,5% em 2010. O Banco Mundial também o classifica como o país em que é mais fácil fazer negócios, e ele tem proporcionalmente mais milionários que qualquer outro.
Em nível de segurança, depois do sequestro de um avião da Singapore Airlines em 1991 e a execução em uma operação de resgate dos quatro sequestradores paquistaneses, foram aumentadas as medidas antiterroristas. A eficácia das forças armadas, um estrito sistema judiciário que usa (e às vezes abusa) da pena de morte e de castigos desproporcionais, segundo a Anistia Internacional, e uma sociedade que se acostumou a não confrontar a autoridade reduziram o crime a sua expressão mínima. Em Cingapura as autoridades são especialmente duras contra os suspeitos de narcotráfico, embora o governo não dê cifras oficiais de execuções.
Cingapura é, no nome, uma democracia parlamentar. Só no nome. Um único partido, o da Ação Popular, controla o governo há meio século e as vozes da oposição são muito poucas e com mínima representação oficial no Parlamento unicameral. Os meios de comunicação estão subordinados ao governo e por isso a Repórteres Sem Fronteiras considera Cingapura um dos países com menos liberdade de imprensa e de expressão no mundo. Em poucas palavras, é um Estado autoritário com um só partido no controle do poder. O extraordinário êxito de Cingapura teve um custo específico nas liberdades individuais.
A mão dura dos governos cingapurianos deu lugar a uma sociedade que funciona, mas onde há pouco espaço para as vozes dissidentes. É esse o único caminho? É claro que não. Mas não há qualquer indício de que o "experimento Cingapura" vá mudar de rumo.
O que, então, pode o México aprender com Cingapura? O México pode começar desenvolvendo uma sociedade que tenha tolerância zero para a corrupção. Isso, mais a criação de empregos com um salário razoável, maiores recursos para a educação e o desenvolvimento de uma economia forte, orientada para as exportações, sem dúvida exigiriam décadas de esforços. Depois de tudo, Cingapura precisou de mais de 35 anos para alcançar seus êxitos atuais. Mas uma economia melhor e níveis mais altos de educação também significam menos criminalidade - e essa foi a fórmula de Cingapura para vencer.
Se uma pequena ilha praticamente sem recursos naturais pode triunfar, não há razão para que o México, um país milhares de vezes maior e com abundantes recursos naturais, não possa fazer o mesmo.
Um exemplo a seguir - embora sem destruir nossas liberdades individuais - pode ser encontrado nesta ilha.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes GonçalvesJorge Ramos
O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.
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