Jorge Ramos
O general e suas guerras: como conciliar crenças religiosas e ordens para matar
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Chris Usher/AP
O ex-secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, em foto de 2011
O general Colin Powell queria falar de seu livro, mas eu queria falar da guerra. Ele acabava de escrever um novo livro --"It Worked For Me" ("Funcionou para mim")--, que está cheio das lições que aprendeu na vida e em sua carreira como soldado, general quatro-estrelas, secretário de Estado e assessor de diversos presidentes.
No entanto, era preciso perguntar sobre o poder e a morte para alguém que participou de várias guerras: Vietnã, golfo Pérsico, Iraque e Afeganistão.
Powell é um homem profundamente religioso. Mas a Bíblia diz "não matarás". Como justifica suas crenças religiosas se, como soldado, mata ou dá ordem para matar?
"Fui treinado como soldado e essa é minha profissão", respondeu Powell. "Infelizmente, ao longo de nossa história, nos encontramos em situações em que, apesar da Bíblia ou do Corão ou qualquer outro documento religioso, é necessária a força para proteger a si mesmo, para proteger seus valores ou para derrotar o mal." E acrescentou: "Ao longo da história, e inclusive dentro da própria Bíblia, você encontrará o uso do poder duro, do poder militar, para alcançar propósitos nobres e vencer o mal."
Em seu livro, Powell também relata detalhes de suas experiências em combate durante a Guerra do Vietnã. Escreve sobre a primeira vez em que esteve sob fogo, em 1963, quando experimentou a percepção pavorosa de que poderia morrer. Perguntei se ele havia matado em combate. "Tenho certeza de que fui responsável pela morte de pessoas em combate. Defendi-me. E quando tive uma patente militar mais alta ordenei missões de bombardeio. Fiz o que foi necessário para proteger nossas tropas e alcançar nossos objetivos", refletiu. "Sempre tenho em mente que a guerra traz morte para os dois lados e que há pais e mães que choram por seus filhos dos dois lados da batalha."
O general aposentado de 75 anos escreve que seu conceito da doutrina Powell --uma lista de princípios de segurança nacional-- começa com a premissa de que a guerra deve ser evitada. No entanto, durante seu tristemente célebre discurso na ONU, em 5 de fevereiro de 2003, justificou a guerra contra o Iraque afirmando (equivocadamente) ao mundo que o líder Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.
Nesse momento os EUA não permitiram mais que inspetores da ONU no Iraque terminassem seu trabalho. Os primeiros bombardeios começaram pouco depois.
"Mas os dados estavam errados, general", eu lhe disse. "O senhor sabe que os dados estavam errados." "Sim, sei que os dados estavam errados", reconheceu. "E não pode culpar analistas ou políticos por lhe dar informação errada. Saddam Hussein não tinham armas de destruição em massa", insisti. "Isso eu não sabia", ele respondeu. "Também não o sabiam nossos serviços de inteligência... Você se engana ao dizer que ignoramos os dados. Os dados que tínhamos de nossos serviços de inteligência diziam que [Saddam Hussein] tinha armas de destruição em massa."
Mas não as tinha. Mais de 4.400 soldados americanos morreram nessa guerra e mais de 100 mil civis iraquianos perderam a vida, segundo vários cálculos.
Antes de se aposentar, Powell foi tão popular que muitos pensaram que seria o primeiro presidente afro-americano da história dos EUA. Mas isso não lhe interessava. "Eu não queria isso. Não tomei essa decisão. Decidi ficar com minha vida privada e buscar outras maneiras de ajudar meu país."
Apesar de ser um republicano moderado, Powell apoiou publicamente a campanha presidencial de Barack Obama em 2008. Mas, desta vez, ainda não decidiu o que fazer. "Tenho a obrigação de também escutar [Mitt] Romney", me explicou.
Ao contrário de muitos líderes republicanos, Powell é a favor do Dream Act --"apoio muito esse programa"--, que legalizaria estudantes sem documentos, e apoiou com o ex-presidente George W. Bush uma reforma migratória (que não passou por falta de votos no Congresso). Esse filho de imigrantes da Jamaica que fez quase tudo na política e na guerra não tem assuntos pendentes. Essa é a sua filosofia. "Quando você decidir, vá em frente. Não fique vindo para trás. Sempre vá em frente."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes GonçalvesJorge Ramos
O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.






