A visita do futuro presidente da China aos Estados Unidos

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

De Boston
  • Martin H. Simon/EFE

    Barack Obama recebe Xi Jinping na Casa Branca; perfil do vice-presidente chinês pode ser bastante aceitável para os dirigentes ocidentais

    Barack Obama recebe Xi Jinping na Casa Branca; perfil do vice-presidente chinês pode ser bastante aceitável para os dirigentes ocidentais

Xi Jinping, vice-presidente da China, iniciou nesta semana em Washington uma viagem oficial aos Estados Unidos. Conforme as normas não escritas da sucessão presidencial na ditadura chinesa, Xi Jinping substituirá em outubro ou novembro deste ano Hu Jintao como Secretário Geral do Partido Comunista e, em 2013, será o presidente da China.

Já pressionado por Mitt Romney, que o acusa de ser muito conciliante com a China, o presidente Obama deve ter reiterado no encontro privado na Casa Branca as demandas que os americanos expressam quando encontram as autoridades de Pequim: a valorização do yuan com relação ao dólar e a retirada das barreiras que entravam os investimentos e as exportações americanas na China.

Segundo o Washington Post, assuntos mais delicados, como a repressão chinesa aos dissidentes e a opressão no Tibet, também foram evocados. Mas as declarações depois do encontro ficaram no registro retórico. Obama saudou “a ascensão pacífica” da China e Xi Jinping respondeu que espera relacionar-se “com um largo segmento da sociedade americana nesta visita para aprofundar a compreensão mútua... entre os povos americano e chinês”. Na realidade, a viagem de cinco dias de Xi Jinping é relativamente longa e se estenderá pelos Estados de Iowa e da Califórnia, onde ele encontrará empresários e investidores em Los Angeles.

Ao contrário de Hu Jintao, cujo perfil é bastante provinciano e que tem a reputação de ser afinado com os russos, Xi Jinping, que tem 58 anos, conhece os Estados Unidos desde 1985, quando estagiou duas semanas numa fazenda do Iowa - que visitará novamente - e viajou a vários países, inclusive o Brasil, onde esteve em fevereiro de 2009. Ele é casado com Peng Liyuan, uma cantora de músicas folclóricas muito popular na China, e a filha dos dois, Xi Mingze, é estudante na Universidade de Harvard.

Relatórios secretos da embaixada americana em Pequim vazados pelo WikiLeaks e publicados pelo jornal madrilenho El País em 2010, diziam que um amigo muito próximo de Xi Jinping o considerava "extremamente ambicioso" e um "autêntico elitista" sem “motivações ideológicas". Se forem verdadeiros, tais traços de caráter farão de Xi Jinping um parceiro bastante aceitável para os dirigentes americanos e ocidentais.

A maioria dos especialistas pensa que Xi Jinping não irá anunciar nenhuma mudança substantiva nos próximos meses, por duas razões. Em primeiro lugar, o atual presidente Hu Jintao continuará mandando até 2013 e será ainda um mandachuva – um “overlord”, como escreve o New York Times – durante o primeiro mandato de cinco anos de Jinping. Em segundo lugar, a situação de Jinping não está totalmente definida e dois outros dirigentes de peso deverão acompanhar sua ascensão à presidência, Li Keqiang, protegido de Hu Jintao e provável futuro primeiro-ministro, e Wang Qishan, parceiro do secretário do Tesouro americano Tim Geithner na gestão das relações econômicas entre a China e os Estados Unidos.

Resta que a preeminência de Xi Jinping marca a chegada ao poder da quinta geração de dirigentes chineses desde a Revolução de 1949. Como declarou à CNN Jon Huntsman, embaixador americano em Pequim entre 2009 e 2011, cerca de 70% dos 200 dirigentes mais importantes da China serão substituídos até 2013. Para ele, Xi Jinping estará dirigindo o país num período em que a liderança política chinesa conhecerá uma “mudança enorme”.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo. É membro da Academia Europaea.



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