Luiz Felipe de Alencastro
O "efeito Sarah Palin" e as novidades nas presidenciais americanas
Em Boston
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Divulgação/AP
A atriz Julianne Moore (à esquerda) interpreta a republicana Sarah Palin (à direita) no filme "Game Change"
Apresentado pelo canal a cabo HBO em plena pré-campanha eleitoral, o filme “Game Change”, de Jay Roach (que também realizou Austin Powers) tem suscitado debates e reflexões sobre o sistema partidário e a democracia americana. O filme é baseado no livro do mesmo nome publicado em 2010 e escrito por John Heilemann e Mark Halperin. Na obra, os dois jornalistas americanos analisam a eleição presidencial de 2008 e o momento crucial em que John McCain escolheu Sarah Palin como candidata à vice-presidência. O título retoma a frase de um dos assessores de McCain que o aconselhou a procurar uma mulher como parceira de chapa, sob argumento de que a presença de um negro como candidato democrata à presidência tinha gerado uma mudança no jogo (“a game change”) das representações na política americana. Para ele, só uma candidatura feminina poderia ter impacto semelhante ao de Obama na campanha presidencial.
O filme foi visto por 2,1 milhões de telespectadores em sua primeira emissão e foi geralmente bem recebido pela crítica que elogiou bastante o papel da atriz Julianne Moore, como Sarah Palin. Do lado republicano, os desmentidos sobre os fatos narrados no filme se multiplicam, tanto por parte de Palin e sua família como por parte de McCain. Para além desse debate anedótico, os comentários também sugerem análises mais complexas sobre as presidenciais americanas de 2012. Em 2008, o “efeito Sarah Palin” foi, de fato, imediato. A ex-governadora do Alaska mobilizou as atenções pela novidade política que representava, mas também pelas controvérsias que gerava, tanto pelo seu conservadorismo como por sua desinformação e disparates sobre a política internacional. No final das contas, sua candidatura teve uma consequência de mais longo prazo, mostrando a insatisfação dos ultraconservadores americanos com o mundo atual e a cultura americana. Insatisfação que se cristalizou no movimento Tea Party.
A partir daí, vários pré-candidatos republicanos procuraram explorar esse novo filão político. Entre os mais conhecidos estão o governador do Texas, Rick Perry, que já saiu do páreo das primárias, Newt Gingrich, que tem tido um fraco desempenho e talvez também retire sua pré-candidatura nas próximas semanas, e Rick Santorum, decidido a ir até o fim para enfrentar Mitt Romney na convenção republicana. Como já escrevi anteriormente, Santorum deslocou o eixo da campanha presidencial para a direita extrema, levando seu rival mais moderado, Mitt Romney, a entrar no terreno duvidoso do ultraconservantismo americano. Agora, começam aparecer reações cada vez mais numerosas de editorialistas e dirigentes republicanos que se preocupam com a radicalização nas primárias do partido. Muitos temem que a ideologização da campanha isole o candidato republicano da maioria dos eleitores americanos e entregue de bandeja a reeleição a Barack Obama. Neste fim de semana, o analista republicano Mark W. Davis, ex-assessor do presidente George Bush (pai), escreveu no semanário U.S. News & World Report's, um artigo significativamente intitulado “Porque o ‘establishment’ republicano não suporta Rick Santorum”.
Considerando-se justamente membro do establishment do partido, Davis lista as declarações radicais de Santorum a respeito da contracepção, do ensino público e do papel da religião na política. Em seguida, ele procura demonstrar que o sucesso dos candidatos republicanos, e principalmente das presidências de Ronald Reagan, pressupõe uma gestão mais equilibrada das divergências que separam o eleitorado americano e as próprias tendências internas do partido republicano. Sua conclusão pede claramente que Rick Santorum abandone a corrida das primárias republicanas: “Santorum já teve sucesso na vida. Ele já foi longe demais”.
Esta análise coloca uma questão de fundo, cuja resposta selará o destino do partido republicano nos próximos anos. Tal questão pode ser resumida de maneira seguinte: será que o “efeito Sarah Palin” já se dissipou nos Estados Unidos?
Luiz Felipe de Alencastro
Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne, na França, e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo.






