Luiz Felipe de Alencastro

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Hollande forma governo com equilíbrio de gêneros e diversidade cultural

De Paris

  • Thomas Samson/AFP

    A afro-francesa Christiane Taubira, nova ministra da Justiça, é boa conhecedora do Brasil

    A afro-francesa Christiane Taubira, nova ministra da Justiça, é boa conhecedora do Brasil

A primeira semana da presidência de François Hollande foi bastante movimentada. No plano nacional, a nomeação do ministério provisório dirigido por Jean-Marc Ayrault pautou-se pela campanha das eleições legislativas de junho, que dará lugar à formação do governo definitivo. Composto essencialmente por lideranças do Partido Socialista Francês (PS), o governo dirigido pelo primeiro-ministro Ayrault foi definido pela imprensa francesa como uma “equipe de combate”, montada com o fito de obter uma larga maioria de deputados de esquerda na Assembleia Nacional.

Não obstante, o ministério já mostra algumas diretivas gerais da presidência Hollande. Em primeiro lugar, foi observado um equilíbrio de gêneros: há 17 ministros homens e 17 mulheres. Depois do precedente histórico do governo espanhol do socialista José Luis Zapatero, em 2004, pela segunda vez no horizonte das democracias contemporâneas, um governo europeu apresenta uma estrita paridade de gêneros. Mais interessada em sublinhar o fato de que a nova primeira-dama, a jornalista Valérie Trierweiler, não é casada de papel passado com François Hollande, boa parte da imprensa internacional deixou de lado a igualdade da representação entre homens e mulheres afirmada no governo Ayrault.

A segunda característica importante do governo é o seu perfil multicultural. Seguindo o exemplo de Nicolas Sarkozy, que havia nomeado, entre outros descendentes de imigrantes, Rachida Dati, filha de modestos árabes norte-africanos, como ministra da Justiça, e Rama Yade, senegalesa muçulmana nascida em Dakar e naturalizada francesa, como vice-ministra do Exterior e dos Direitos Humanos, o governo Hollande-Ayrault deu destaque à diversidade cultural.

Assim, a nova ministra da Justiça é Christiane Taubira, afro-francesa (e boa conhecedora do Brasil) de Caiena, capital da Guiana Francesa, enquanto Najat Vallaud-Belkacem, nascida no Marrocos e naturalizada francesa é a nova ministra dos Direitos das Mulheres e porta-voz do governo. Note-se ainda a nomeação, pela primeira vez na história da França, de um ministro de origem asiática, a franco-coreana Fleur Pellerin, titular do ministério das Pequenas e Médias Empresas e da Economia Digital.  Seguindo-se às iniciativas de Sarkozy, a presidência Hollande demonstra que a multiculturalidade, compartilhada pelo governo de direita e pelo governo de esquerda, tornou-se um dado perene da identidade nacional francesa.

No plano europeu e internacional, Hollande também foi bastante ativo nos primeiros dias de sua presidência. Horas depois de sua posse, no dia 15 de maio, na rota para o encontro com Angela Merkel, seu avião foi atingido por um raio e teve que voltar para Paris antes de retomar o rumo de Berlim. Sua determinação em encontrar-se com Merkel no mesmo dia, apesar das más condições atmosféricas no espaço europeu, impressionou favoravelmente a opinião pública alemã e mostrou a solidez das relações franco-alemãs.

Isto posto, a discussão entre os dois líderes deixou claro as diferenças que separam a França, agora proponente de uma política de crescimento econômico, e a Alemanha, que pretende manter o rigor orçamentário no âmbito dos países da zona euro. Em seguida, Hollande esteve na Casa Branca, para um encontro relativamente longo com o presidente Obama, e em Camp David, para a reunião do G8. Ficou patente que Obama, favorável aos estímulos para o crescimento econômico na União Europeia, se entende melhor com Hollande do que se entendia com Sarkozy. Na circunstância, a chefe do governo alemão pareceu meio isolada em sua ortodoxia econômica. Horas depois, Hollande seguiu para Chicago onde participou da reunião de cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

No meio tempo a crise na zona euro se agravou, forçando o novo presidente francês a desdobrar seus esforços na esfera nacional e europeia. Nos próximos dias, a Grécia estará no centro de todas as atenções, dentro e fora da Europa. Nesta semana, um editoral do jornal Le Monde, pró-europeu e favorável ao governo Hollande, deu uma espécie de ultimato ao eleitorado grego, que definirá um novo governo nas eleições de 17 de junho. Lembrando que Irlanda e Portugal têm feito grandes esforços para sair da recessão, o jornal parisiense nota ainda que cada um dos onze milhões de gregos já recebeu desde janeiro de 2010, a título da ajuda da União Europeia, 31.000 euros. Concluindo, o editorial afirma: “ Não é admissível que um pequeno país, por causa de sua recusa em cumprir a as regras do jogo, continue a por em perigo o conjunto do continente [europeu]”.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne, na França, e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo.

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