Luiz Felipe de Alencastro

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Declarações sobre economia da Grécia subestimam degradação do quadro político do país

De Paris

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    Diretora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde extrapolou ao generalizar recado aos gregos

    Diretora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde extrapolou ao generalizar recado aos gregos

As declarações de Christine Lagarde, conclamando os gregos “a começar a se ajudar coletivamente... pagando seus impostos” suscitaram reações iradas na Grécia e muitas críticas na França. Na circunstância, a diretora do FMI retomou um bordão repetido por muitos outros europeus, principalmente no país mais rico e mais influente da União Europeia.

Assim, no dia seguinte às declarações de Lagarde, o ministro do Interior alemão, Hans-Peter Friedrich, referindo-se também à Grécia, disse: “O país que quiser nossa ajuda e solidariedade tem de aceitar que nós esperamos [dele] uma certa seriedade e razoabilidade”. A revista semanal alemã “Spiegel”, a mais influente do país, publicou essa declaração num parágrafo intitulado “A Alemanha está perdendo a paciência”.

Christine Lagarde extrapolou ao generalizar seu recado. Decerto, há sonegadores na Grécia, onde os grandes armadores, donos de uma das maiores frotas mercantes do mundo, e a poderosa Igreja Ortodoxa, segundo maior proprietário fundiário do país, pagam pouco ou nenhum imposto. Também é verdade que nas últimas semanas os gregos, escaldados pela crise e pelos boatos de saída da zona euro, têm atrasado seus pagamentos à Receita grega.

No entanto, Jacques Sapir, um conhecido economista francês próximo da Front de Gauche de Jean-Luc Mélenchon (que reúne a extrema-esquerda e os ex-comunistas franceses), publicou um estudo na revista semanal “Marianne”, demonstrando as inexatidões dos lugares comuns sobre a crise grega. Para ele, apesar de existirem distorções no sistema tributário, a maioria dos gregos paga regularmente seus impostos, cujo valor global gira em torno de 40% do PIB do país. Nesta análise, o essencial do déficit orçamentário da Grécia é causado, sobretudo em 2011, pelo aumento acelerado dos juros da dívida externa.

As declarações de Christine Lagarde e dos dirigentes alemães subestimam outro grave problema, a degradação do quadro político grego. Tradicionalmente comandados por duas oligarquias, a dos Karamanli, que dirigem o partido conservador Nova Democracia, e a dos Papandreou, do Movimento Socialista Pan-Helênico, o Pasok, social-democrata, os dois principais partidos políticos se alternavam no governo. Mas os estragos econômicos causados por brutal recessão esgarçaram o tecido social, facilitando a emergência no Parlamento de partidos de extrema-esquerda e de extrema-direita.

Famílias se separam, com muita gente emigrando para outros países europeus e a América do Norte. Outras famílias tomam, literalmente, o caminho da roça, mudando-se para as zonas rurais das ilhas gregas onde passam a viver da agricultura de subsistência e da pesca. Todos os setores econômicos são atingidos pela recessão e, em 2011, 60% das pequenas e médias empresas registraram prejuízos.

Neste contexto, as críticas dos dirigentes estrangeiros sobre a falta de espírito cívico dos gregos suscitam reações nacionalistas que complicam mais ainda a política do país. Nos últimos dias, as sondagens indicam que o Pasok e a Nova Democracia, ambos favoráveis à permanência na zona euro e ao entendimento com a União Europeia, podem obter uma maioria parlamentar nas eleições legislativas do próximo dia 17 de junho. A notícia fez baixar a tensão da crise grega e as bolsas subiram na Europa. Porém, logo em seguida, começaram a surgir informações, difundidas pelo canal de TV americano “CNBC” e retomadas no Twitter do influente economista americano Nouriel Roubini, de que a Grécia deixaria a zona euro no dia 18 junho.

O fato é que as próximas semanas serão decisivas para a Grécia e para o euro. Retomada pelo jornal “Le Monde”, uma notícia da imprensa grega afirma que um estudo do ex-primeiro ministro Lucas Papademos mostra que, a partir de meados de junho, a receita pública grega não conseguirá mais cobrir as despesas do Estado e o funcionamento do sistema financeiro. Ou seja, o país deverá, mais uma vez, recorrer ao Banco Central Europeu.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne, na França, e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo.

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