Luiz Felipe de Alencastro

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Abstenção eleitoral é preocupação para o segundo turno das legislativas na França

De Paris

  • Guillaume Horcajuelo/EFE

    Hollande no momento do voto nas eleições legislativas, no último domingo; primeiro turno tranquilizou o presidente sobre as perspectivas da política interna

    Hollande no momento do voto nas eleições legislativas, no último domingo; primeiro turno tranquilizou o presidente sobre as perspectivas da política interna

Com os resultados do primeiro turno bastante favoráveis, o partido socialista francês (PS) e seus aliados no governo do presidente François Hollande engajam-se na campanha do segundo turno das legislativas que terá lugar no próximo domingo. Caso a mobilização do eleitorado socialista se acentue, o PS poderá obter a maioria absoluta na Assembleia, sem precisar do aporte dos votos dos deputados do Partido Verde na condução da política governamental pelos próximos cinco anos.

A direita gaullista e seus aliados que formavam a base do governo Sarkozy não se saiu mal no primeiro turno e pode  organizar uma oposição importante no Parlamento. Em certos distritos eleitorais, as alianças implícitas ou explícitas dos ‘sarkozystas’ com os candidatos do Front National, dirigido por Marine Le Pen, devem levar ao Parlamento alguns deputados de extrema-direita pela primeira vez desde 1997. De todo modo, a maioria dos analistas franceses pensa que o presidente Hollande terá uma maioria parlamentar na nova Assembleia.

Tranquilizado sobre as perspectivas da política interna francesa, François Hollande recomeçou a agir no campo da política europeia, recebendo no palácio presidencial parisiense Sigmar Gabriel, Frank-Walter Steinmeier e Peer Steinbrück, os três líderes do partido social democrata alemão (SPD). Os líderes alemães declararam que o encontro com Hollande visava discutir “os meios que podemos utilizar para obter mais crescimento e mais empregos na Europa”. Manifestando sua afinidade com a política do SPD, que tem boas chances de formar o novo governo alemão após as eleições do próximo ano, Hollande dá o troco à oposição que Angela Merkel explicita às suas ideias sobre a União Europeia.

Porém, para muitos observadores, o dado dominante do primeiro turno foi a alta taxa de abstenção eleitoral, que atingiu 43%. Trata-se de um recorde na 5ª República Francesa (iniciada em 1958). Mesmo considerando a não obrigatoriedade do voto e os efeitos da mudança do calendário eleitoral, que agora situa o pleito legislativo logo após o presidencial, diminuindo a importância da eleição dos deputados, o alto número de abstencionistas causou preocupação, na medida em que confirma uma tendência observada desde 1993. Nesse contexto, a questão do voto obrigatório voltou a ser discutida.

No ano passado, após a realização de eleições regionais também marcadas por uma alta abstenção eleitoral, Laurent Fabius, um dos líderes mais importantes do PS, ex-primeiro-ministro na presidência Mitterrand e atual ministro do exterior do governo Hollande, manifestou-se a favor da instauração do voto obrigatório na França.

Agora, Jean Michel de Waele, professor de Ciências Políticas na Universidade Livre de Bruxelas, capital de um país onde o voto é obrigatório, abordou o assunto num artigo publicado no semanário parisiense “Le Nouvel Observateur”. Para ele, o voto obrigatório é a única maneira de lutar contra o abstencionismo eleitoral. De Waele completa seu raciocínio afirmando que o voto obrigatório é socialmente mais justo. De seu ponto de vista, o forte abstencionismo eleitoral registrado nos subúrbios desfavorecidos e multiétnicos das grandes cidades faz com que os políticos franceses se interessem pouco pelos problemas desses setores da população. Com o voto obrigatório, os candidatos teriam de escutar e conquistar o voto de todos os franceses e o corpo social estaria melhor representado no Parlamento. 

Embora o tema não esteja na pauta parlamentar, é certo que uma confirmação da alta taxa de abstenção no próximo domingo  relançará o debate sobre o voto obrigatório na França.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne, na França, e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo.

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