Luiz Felipe de Alencastro

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Debate sobre fortuna de Romney é teste decisivo para a candidatura do republicano

De Paris

  • Jonathan Ernst/Reuters

    Reportagem da revista 'Vanity Fair' precipitou debate sobre a fortuna de Mitt Romney, que está avaliada em US$ 250 milhões

    Reportagem da revista 'Vanity Fair' precipitou debate sobre a fortuna de Mitt Romney, que está avaliada em US$ 250 milhões

Duas sondagens importantes publicadas nos últimos dias nos Estados Unidos apresentam um quadro político e social mais favorável à reeleição do presidente Obama. Em primeiro lugar, uma sondagem encomendada pela “CNN” mostrou que uma maioria de americanos pensa que a economia do país vai melhorar no próximo ano, ao contrário do ano passado, quando o pessimismo predominava. As últimas informações, mostrando que a taxa de desemprego retornou para os níveis mais baixos registrados no último mês de maio, reforçam o relativo otimismo que parece predominar na opinião pública americana.

A segunda sondagem, mais abrangente, realizada pela Gallup e analisada pelo “Los Angeles Times”, mostra que Obama continua liderando a corrida presidencial com uma margem significativa: 48% contra 44% de intenções de voto para Romney. Os especialistas indicam que a Gallup, por razões técnicas, tende a subestimar as opiniões dos eleitores pertencentes às minorias étnicas, majoritariamente favoráveis a Obama. Por isso, como observa o “Los Angeles Times”, a diferença em favor de Obama talvez seja maior e esteja em torno de seis pontos. Regularmente batido por Romney entre os eleitores brancos e mais afluentes, Obama tenta consolidar sua vantagem entre as minorias e a generalidade dos trabalhadores que formam a base tradicional dos Democratas.

A relativa melhora da situação econômica e a aprovação pela Suprema Corte da nova lei de reforma da saúde, levou os marqueteiros democratas a acentuar os ataques a Mitt Romney, apresentado como um ricaço insensível aos pobres. Assim, propaganda de Obama bate duro nas atividades financeiras que o candidato republicano exerceu ou ainda exerce. Num anúncio difundido desde maio pela campanha de Obama, Romney é responsabilizado pelo fechamento de fábricas e tratado de “destruidor de empregos” e de “vampiro” por metalúrgicos desempregados.

Paralelamente, a revista “Vanity Fair” publicou uma longa reportagem sobre a fortuna de Mitt Romney, desde que ele criou, em 1984, o fundo de investimentos Bain Capital, denunciado pelos metalúrgicos no vídeo citado acima. Calculada em US$ 250 milhões, a fortuna de Romney transita por circuitos financeiros opacos e chega até suas contas bancárias nas ilhas Cayman e na Suíça. Como muitos grandes empresários e banqueiros, Romney procurou paraísos fiscais para depositar seu dinheiro. Embora os fatos já fossem conhecidos e não exista nada de ilegal nesses investimentos, a reportagem da “Vanity Fair”, retomada pela blogosfera e pela mídia americana, colocou Romney na defensiva.

Segundo o site de notícias “Mediaite”, os estrategistas democratas esperavam lançar os questionamentos sobre a fortuna de Romney mais perto das presidenciais de novembro, quando o debate seria mais complicado para os republicanos. Agora, eles temem que a repercussão da reportagem da Vanity Fair seja abafada pela convenção de Tampa, na Flórida, em agosto. Romney será então indicado oficialmente candidato republicano e seu prestígio aumentará, como sempre tem ocorrido após as convenções desta natureza nas presidenciais americanas.

De todo modo, a precipitação do debate sobre a fortuna de Romney vai ser o teste decisivo para sua candidatura. Até agora, Romney tem mantido uma vantagem significativa sobre Obama num segmento importante do corpo eleitoral: os  independentes, sem simpatias partidárias, que decidem seu sufrágio tardiamente e podem desempatar a eleição. Se estes eleitores se impressionarem com as contas bancárias de Romney e mudarem de opinião, Obama estará mais seguro de poder celebrar o próximo Natal na Casa Branca.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne, na França, e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo.

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