Putin e as Olimpíadas de Inverno na Rússia

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

Leia todos os artigos
  • Dmitry Lovetsky/AP

     Policiais passam por cães de rua próximo ao Centro de Imprensa do parque olímpico de Sochi

    Policiais passam por cães de rua próximo ao Centro de Imprensa do parque olímpico de Sochi

Numa demonstração do que ocorrerá em junho na Copa do Mundo no Brasil, a mídia europeia e americana tem debatido bastante sobre a situação da Rússia no começo dos jogos olímpicos de Sochi. As reportagens sobre os direitos humanos são agora completadas pelos tweets e informações mais imediatas dos jornalistas estrangeiros que chegam em Sochi. O Washington Post registra o despreparo do parque hoteleiro da cidade, onde somente seis dos nove hotéis reservados para a mídia internacional estão prontos. No entanto, os gastos para a construção da cidade olímpica bateram todos os recordes, alcançando 32 bilhões euros. Soma que, segundo jornalistas franceses, representa o total das despesas das últimas seis olímpiadas de inverno organizadas em várias partes do mundo.

Mas os comentários vão bem além do estado das pistas de esqui. Peso pesado das relações internacionais, a Rússia tem outro traço político importante: o neo-czarismo de Vladimir Putin. O termo neo-czarismo, cunhado por um especialista francês, se refere ao fato que Putin detém a realidade do poder na Rússia desde 1999, quando foi nomeado primeiro-ministro pela primeira vez pelo então presidente Boris Yeltsin, enfraquecido pelo alcoolismo e pelos escândalos de corrupção. Ex-dirigente da temida polícia secreta russa (KGB e depois FSB), Putin assumiu o poder num momento crítico. Na realidade, depois do fim da URSS (1991), a própria Rússia esteve ameaçada de desaparecer no meio de desordens e de tensões regionais que engolfaram a presidência Yeltsin (1991-1999).

A ascensão de Putin marcou uma reviravolta e reinseriu a Rússia entre as grandes potências mundiais. Este é o ponto essencial para explicar o eventual prestígio do atual presidente russo em seu país e fora dele, entre alguns dirigentes europeus e asiáticos que julgam necessário um governo estável no enorme território russo. Mesmo que este governo seja autoritário e antidemocrático, como é o caso da presidência de Putin.

Na União Europeia, a Alemanha é e sempre foi o interlocutor privilegiado da Rússia. Perfeitamente fluente em alemão, graças à sua estadia de cinco anos como espião soviético em Dresden, Putin se entende bem com Angela Merkel e mantém laços de amizade com Gerhard Schroeder, o ex-chefe do governo alemão. Primeiro-ministro em 1999 e depois de 2008 a 2012, Putin e seus aliados mudaram o mandato presidencial de quatro para seis anos renováveis. Assim, depois ter sido presidente duas vezes seguidas entre 2000 e 2008, Putin, eleito presidente em 2012, poderá se candidatar à reeleição em 2018. Se tudo correr como ele planejou, ficará na presidência até 2024, completando 25 anos ininterruptos de exercício do poder. Como se vê, o neo-czarismo veio para ficar.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne e professor convidado na FGV-Escola de Economia de São Paulo. É membro da Academia Europaea.



Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos