Devore o futuro
Paul Krugman
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Luke Sharrett/The New York Times - 10.fev.2010
Obama em reunião entre democratas e republicanos
Na sexta-feira, os republicanos da Câmara apresentaram sua proposta para cortes imediatos nos gastos federais. De modo não característico, eles fracassaram em adicionar um slogan chamativo à divulgação. Então eu gostaria de propor um: Devore o futuro.
Eu explicarei em um minuto. Primeiro, vamos falar sobre o dilema enfrentado pelo Partido Republicano.
Os líderes republicanos gostam de alegar que as eleições de novembro lhes deram um mandato para promover grandes cortes nos gastos do governo. Alguns acreditam que as eleições não trataram tanto dos gastos, mas sim da persistência do desemprego elevado, mas não importa. O importante é compreender que apesar de muitos eleitores dizerem que querem menores gastos, basta pressionar um pouco para dizerem que na verdade realmente querem que sejam cortados os gastos beneficiam os outros.
Essa é a lição extraída de uma nova pesquisa do Centro Pew, na qual foi perguntado aos americanos se são favoráveis a gastos maiores ou menores em uma série de áreas. O resultado foi que desejam mais gastos, e não menos, em muitas coisas, incluindo educação e Medicare (o seguro-saúde público para idosos e inválidos). E estão igualmente divididos em gastos para ajuda aos desempregados e –surpresa– em defesa.
A única coisa que claramente desejam é cortar gastos em ajuda externa, o que a maioria dos americanos acredita, equivocadamente, representar a maior parcela de gastos do orçamento federal.
O Pew também perguntou às pessoas como gostariam que os Estados fechassem seus déficits orçamentários. Elas preferem cortes na educação e saúde, as maiores despesas enfrentadas pelos Estados? Não. Elas são favoráveis a aumentos de impostos? Não. A única medida para redução de déficit com apoio significativo foi a de cortes na aposentadoria dos funcionários públicos –e mesmo aí o público estava igualmente dividido.
A moral da história é clara. Os republicanos não têm um mandato para cortar gastos; eles têm um mandato para derrubar as leis da aritmética.
Como os eleitores podem ser tão mal-informados? Em defesa deles, tenha em mente que eles têm empregos, crianças para criar, pais para cuidar. Eles não têm tempo e nem incentivo para estudar o orçamento federal, muito menos os orçamentos estaduais (que são em grande parte incompreensíveis). Então elas dependem do que ouvem de figuras com aparente autoridade.
E o que elas ouvem desde Ronald Reagan é que seus dólares arduamente ganhos serão desperdiçados, pagando por vastos exércitos de burocratas inúteis (a folha de pagamento equivale a apenas 5% dos gastos federais) e divas do bem-estar social dirigindo Cadillacs. Como é possível esperar que os eleitores tenham alguma noção da realidade fiscal quando os políticos consistentemente deturpam essa realidade?
O que me traz de volta ao dilema republicano. A nova maioria da Câmara prometeu promover US$ 100 bilhões em cortes de gastos –e seus membros têm diante de si a perspectiva de enfrentar candidatos concorrentes do Tea Party (Festa do Chá, movimento republicano que faz referência à Festa do Chá de Boston, um protesto antitaxação no século 18) caso não cumpram a promessa de grandes cortes. Mas o público é contrário a cortes nos programas que gosta –e ele gosta de quase tudo. O que um político deve fazer?
A resposta, assim que você pensa a respeito, é óbvia: sacrificar o futuro. Concentre os cortes nos programas cujos benefícios não são imediatos; basicamente, devore as sementes de milho da América. No futuro, o preço a pagar será enorme –mas por ora, você manterá a base satisfeita.
Se essa lógica parece incompreensível, então você não entenderá muitos itens na proposta dos republicanos da Câmara. Por que cortar um bilhão de dólares de um programa altamente bem-sucedido que fornece nutrição complementar para mães grávidas, bebês e crianças pequenas? Por que cortar US$ 648 milhões de atividades de não-proliferação nuclear? (Uma única arma nuclear terrorista, montada a partir de material físsil ex-soviético perdido, pode estragar seu dia.) Por que cortar US$ 578 milhões do orçamento de fiscalização da Receita Federal? (Permitir que fraudadores de impostos atuem impunemente não exatamente contribui para a redução do déficit.)
Mas assim que você entende os imperativos enfrentados pelos republicanos, tudo faz sentido. Ao cortar os programas voltados para o futuro, eles podem fornecer os cortes de gastos instantâneos exigidos pelos membros do movimento Tea Party, sem impor dor imediata demais aos eleitores. E quando o preço futuro a pagar –uma população debilitada pela desnutrição infantil, uma maior chance de ataques terroristas, um sistema de receita minado por grande evasão fiscal– bem, amanhã é outro dia.
Em um mundo melhor, os políticos conversariam com os eleitores como se eles fossem adultos. Eles explicariam que despesas discricionárias têm pouco a ver com o desequilíbrio a longo prazo entre gastos e receitas. Eles então explicariam que a solução do problema a longo prazo exige duas coisas principais: conter os custos da saúde e, realisticamente, aumentar impostos para pagar pelos programas que os americanos realmente querem.
Mas os líderes republicanos não podem fazer isso, é claro: eles se recusam a admitir que há momentos em que impostos precisam aumentar e passaram grande parte dos últimos dois anos gritando “painéis da morte!” em resposta a esforços sensíveis, em grande parte modestos, para assegurar que os dólares do Medicare sejam bem gastos.
E então eles tiveram que produzir algo como a proposta de sexta-feira, um plano que economizaria pouquíssimo dinheiro, mas cujos danos que causariam seriam enormes.
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