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Reduzir empregos públicos não alavanca economia norte-americana

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Colunas NYT - Paul Krugman

  • Brendan McDermid/Reuters

O ser humano gosta de ter esperanças, mesmo quando as circunstâncias não dão motivo para isso. Durante algumas horas eu estive disposto a aplaudir Mitt Romney por este ter falado honestamente a respeito do real significado da sua defesa de um governo menor.

Mas logo o candidato retornou ao seu estado normal, negando ter dito o que disse e apresentando um punhado de desculpas contraditórias. Mas falemos sobre o episódio de franqueza acidental do candidato, e sobre o que isso revela.

Nas declarações que Romney mais tarde tentou negar, ele criticou o presidente Barak Obama: "Ele diz que nós precisamos de mais bombeiros, policiais e professores. Mas é hora de reduzirmos o tamanho do governo e ajudarmos o povo norte-americano".

Eis porque eu estive disposto a elogiar Romney pela honestidade demonstrada. Ele de fato admitiu aquilo que ele e os seus aliados têm em mente quando falam em reduzir o tamanho do governo. Os conservadores adoram fingir que existem vastos exércitos de burocratas do governo fazendo todo tipo de coisa. Mas na verdade a maioria dos funcionários públicos trabalha fornecendo educação (professores) ou segurança pública (policiais e bombeiros).

Sendo assim, reduzir o número de professores, policiais e bombeiros ajudaria o povo norte-americano? Bem, alguns republicanos prefeririam que os norte-americanos tivessem menos escolaridade. Quem se lembra de Rick Santorum descrevendo as universidades como "fábricas de doutrinação"? Mesmo assim, o Partido Republicano não tem a menor intenção de fazer campanhas políticas propondo a redução da qualidade da educação e da segurança pública.

Mas a questão mais relevante no momento é determinar se as reduções de empregos públicos defendidas por Romney seriam boas ou ruins para a economia. E atualmente nós dispomos de bastante fatos relativos a essa questão.

Primeiramente, há a nossa própria experiência. Os conservadores gostariam que nós acreditássemos que o nosso desapontador desempenho econômico foi provocado de alguma forma por gastos governamentais excessivos, que teriam prejudicado a criação de empregos na iniciativa privada. Mas a realidade é que o crescimento de empregos no setor privado foi mais ou menos semelhante ao registrado durante as recuperações das últimas duas recessões.

A grande diferença desta vez é uma queda sem precedentes dos empregos públicos. Atualmente existem cerca de 1,4 milhão de empregos a menos no setor público do que teríamos se houvesse um crescimento neste setor conforme aquele que foi registrado durante o governo do presidente George W. Bush.

E, se nós dispuséssemos desses empregos extras, o índice de desemprego seria bem menor do que é neste momento – algo como 7,3% ao invés dos atuais 8,2%. A impressão que se tem é que a redução do tamanho do governo quando a economia se encontra profundamente deprimida prejudica, em vez de ajudar, o povo norte-americano.

No entanto, a prova realmente decisiva de que os cortes do setor público não ajudam vem da Europa. Vejamos o caso da Irlanda, que demitiu 28 mil trabalhadores do setor público desde 2008 – o equivalente, como percentagem da população, à demissão de 1,9 milhão de trabalhadores nos Estados Unidos. Essas demissões foram festejadas pelos conservadores, que previram resultados excelentes: "A economia irlandesa está exibindo sinais encorajadores de recuperação", declarou Alan Reynolds, do Instituto Cato, em junho de 2010.

Mas tal recuperação jamais ocorreu; o índice de desemprego irlandês é de mais de 14%. A experiência da Irlanda demonstra que recorrer à austeridade diante de uma economia deprimida se constitui em um erro terrível que, se possível, deve ser evitado.

E o fato é que nos Estados Unidos é possível evitar isso. Alguém poderia alegar que países como a Irlanda dispunham e dispõem de opções limitadas no que se refere a políticas econômicas.  Mas os Estados Unidos – que, ao contrário da Europa, tem um governo federal – conta com uma forma fácil de reverter os cortes de emprego que estão acabando com a recuperação econômica: basta fazer com que as autoridades federais, que podem tomar dinheiro emprestado a juros baixos como nunca, forneçam assistência para ajudar os governos estaduais e municipais a sobreviverem nesses tempos difíceis. É isso, essencialmente, o que o presidente está propondo e Romney está criticando.

Assim, o ex-governador de Massachusetts estava inicialmente dizendo a verdade: ao se opor à prestação de ajuda financeira aos governos estaduais e municipais que se encontram em dificuldades, ele está, de fato, defendendo mais demissões de professores, policiais e bombeiros.

Na verdade, isso é meio irônico. Embora os republicanos adorem criticar a Europa, são eles na verdade que desejam que nós apliquemos nos Estados Unidos a austeridade econômica de estilo europeu e que experimentemos uma depressão como aquela enfrentada pela Europa.

E isto não é uma simples inferência. Na semana passada, R. Gleen Hubbard, da Universidade Columbia, um dos principais assessores de Romney, publicou um artigo em um jornal alemão pedindo que os alemães ignorassem os conselhos de Obama e continuassem implementando políticas econômicas duras. Ao fazer isso, Hubbard estava deliberadamente se intrometendo na política externa de um presidente em exercício. O mais importante, porém, é que ele estava apoiando uma política que está desmoronando enquanto o leitor lê esta coluna.

Na verdade, quase todo mundo que está acompanhando a situação percebe agora que a obsessão da Alemanha pela austeridade econômica colocou a Europa à beira de uma catástrofe. Todo mundo, exceto os próprios alemães e, conforme constatamos, a equipe econômica de Mitt Romney.

É desnecessário dizer que isso não é uma boa notícia caso Romney vença a eleição em novembro. Isso porque tudo indica que ele acredita que a política econômica mais inteligente seria dobrar a intensidade dos cortes que sabotaram a recuperação dos Estados Unidos e fizeram com que a Europa entrasse em parafuso econômico e político.

Tradutor: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008

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