Paul Krugman
Obamacare foi grande vitória para Obama, mas os verdadeiros vencedores foram os norte-americanos
Colunas NYT - Paul Krugman
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Mark Wilson/Getty Images/AFP
Manifestação a favor da lei de saúde do governo Obama em frente à Suprema Corte
Então o Supremo Tribunal dos Estados Unidos – contradizendo várias expectativas – aprovou a Lei de Proteção ao Paciente e Serviços de Saúde Acessíveis, mais conhecida como Obamacare. Sem dúvida haverá muitas manchetes na imprensa declarando que esta foi uma grande vitória para o presidente Barack Obama. E de fato foi. Mas os verdadeiros vencedores foram os norte-americanos comuns – pessoas como você.
E de quantas pessoas nós estamos falando? Você poderia responder 30 milhões, o número de indivíduos adicionais que o Departamento de Orçamento do Congresso afirma que contarão com seguro saúde graças ao Obamacare. Mas isso subestima enormemente o número verdadeiro de vencedores, porque outros milhões de norte-americanos – incluindo muitos que se opõem à lei – teriam corrido o risco de se tornarem um desses 30 milhões.
Portanto, nós devemos acrescentar a esse grupo todos os norte-americanos que atualmente trabalham para uma companhia que oferece um bom plano de saúde, mas que correm o risco de perder o emprego (e quem não corre tal risco neste mundo atual de terceirizações e liquidações de equities privadas?); todos norte-americanos que acabariam não tendo como pagar mais seguro saúde, mas que agora receberão um auxílio financeiro crucial, todos os norte-americanos que já têm problemas de saúde e cuja cobertura seria sumariamente recusada em vários Estados.
Em suma, a menos que você pertença àquela minúscula classe de norte-americanos ricos que estão isolados e protegidos das realidades comuns vividas pela maioria das pessoas, os vencedores com esta decisão do Supremo Tribunal são os seus amigos, parentes, as pessoas com as quais você trabalha e, provavelmente, você próprio. Isso porque quase todos nós deveremos nos beneficiar com o fato de os Estados Unidos se tornarem uma sociedade mais compassiva e decente.
Mas, e quanto aos custos? Vejamos essa questão da seguinte forma: o departamento do orçamento estima que o custo das “provisões de cobertura” do Obamacare no decorrer da próxima década – basicamente, os subsídios necessários para fazer com que o seguro saúde seja acessível a todos – equivale a cerca de apenas um terço do custo das reduções de impostos, que favorecem preponderantemente os ricos, e que Mitt Romney está propondo para o mesmo período. É verdade que Romney afirma que compensaria esses custos, mas ele até agora não apresentou nenhuma explicação plausível sobre como faria isso. Já a Lei de Proteção ao Paciente e Serviços de Saúde Acessíveis é totalmente coberta por uma combinação explícita de aumentos de impostos e cortes de gastos em outros setores.
Portanto, a lei que o Supremo Tribunal aprovou é um ato de decência humana que é também fiscalmente responsável. Ela está longe de ser perfeita – afinal, esse é originalmente um plano republicano, elaborado muito tempo atrás como forma de sabotar a alternativa óbvia de estender a cobertura do Medicare para todos. Como resultado, essa é uma mistura esquisita de seguro saúde público e privado, e esta não é a maneira como uma pessoa elaboraria um sistema a partir da estaca zero. E haverá uma longa luta para aperfeiçoar essa lei, assim como aconteceu no caso do Social Security (reinstituam a opção pública!). Mas ainda assim este foi um grande passo rumo a uma sociedade melhor – e eu estou me referindo a uma sociedade moralmente melhor.
E isso nos faz pensar na natureza das pessoas que tentaram acabar com essa reforma do sistema de saúde. E sobre aqueles que, é claro, continuarão tentando fazer isso, apesar dessa inesperada derrota que acabaram de sofrer.
Sob um aspecto, o fato mais extraordinário da campanha movida contra a reforma foi a sua desonestidade. Quem não se lembra dos “comitês da morte”? Ou de como os oponentes da reforma também acusavam Obama de promover um governo grande e intervencionista e o acusavam de cortar verbas do Medicare? Políticos não são santos, mas, até mesmo nesta era de partidarismo radical, a natureza inescrupulosa da campanha contra a reforma foi excepcional. E, podem ter certeza, todas as velhas mentiras e provavelmente um conjunto de novas inverdades serão novamente propaladas após a decisão do Supremo Tribunal. Esperemos que os democratas estejam prontos para o ataque.
Mas o fato realmente chocante quanto aos indivíduos contrários a essa reforma foi e ainda é a crueldade deles. Seria diferente se, em algum momento, eles tivessem oferecido alguma proposta alternativa no sentido de ajudar os norte-americanos que já sofrem de problemas de saúde, os que simplesmente não tem como pagar por um seguro individual caro, e aqueles que, ao perderem o emprego, perdem também o seguro saúde. Mas há muito tempo ficou óbvio que o objetivo da oposição é simplesmente impedir a reforma, sem nenhuma preocupação quanto às consequências humanas disso. Todos nós deveríamos ser gratos pelo fato de, pelo menos por ora, os esforços deles terem fracassado.
E eu vou fazer um comentário final sobre o Supremo Tribunal.
Antes dos bate-bocas terem começado, o consenso absoluto entre os especialistas que não são conservadores radicais – e mesmo entre alguns que o são – era de que o Obamacare era claramente constitucional. E, no fim das contas, graças ao chefe de Justiça John Roberts Jr., o tribunal sustentou essa opinião. Mas quatro juízes discordaram, e fizeram isso de forma extremista, afirmando que não só o altamente controverso mandato individual, mas a lei inteira seria inconstitucional. Tendo em vista a opinião jurídica que prevaleceu, é difícil não enxergar nessa posição um mero exemplo de partidarismo tacanho.
O fato é que essa história ainda não acabou. Nem no que se refere ao sistema de saúde, nem ao formato mais amplo da sociedade norte-americana. A crueldade e a rudeza que fizeram com que esta decisão do tribunal adquirisse um caráter tão dramático não sairão de cena.
Mas, por ora, vamos comemorar. Esse foi um grande dia, e essa foi uma vitória da legalidade, da decência e do povo norte-americano.
Tradutor: UOLPaul Krugman
Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008






