Paul Krugman
Europa caminha para mais uma grande ilusão
Paul Krugman
Colunas NYT - Paul Krugman
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Jens Buettner/Efe
Nos últimos meses eu li diversas análises otimistas a respeito das perspectivas da Europa. Estranhamente, no entanto, nenhuma dessas análises argumenta que a fórmula europeia, ditada pela Alemanha, de redenção pelo sofrimento tem qualquer chance de dar certo. Ao contrário, o motivo de otimismo é a argumentação de que o fracasso – especialmente uma ruptura em relação ao euro – seria um desastre para todo mundo, incluindo os alemães, e que no fim das contas essa perspectiva induziria os líderes europeus a fazer tudo o que fosse necessário para impedir uma catástrofe.
Eu espero que esse argumento esteja correto. Mas toda vez que leio um artigo que segue esse raciocínio, eu me vejo pensando em Norman Angell.
Quem? Em 1910, Angell publicou um livro famoso intitulado "The Great Illusion" ("A Grande Ilusão"), argumentando que a guerra havia se tornado obsoleta. Ele observou que o comércio e a indústria, e não a exploração de indivíduos subjugados, seriam a chave para a riqueza nacional, de forma que não haveria nada a se ganhar com as enormes despesas com conquistas militares.
Além do mais, ele argumentou que a humanidade estava começando a apreciar essa realidade, que as "paixões do patriotismo" estavam diminuindo rapidamente. Ele não chegou a afirmar que não haveria mais grandes guerras, mas era esta a impressão que se tinha ao se ler o livro.
Nós todos sabemos quais foram os fatos históricos que vieram a seguir.
O fato é que a perspectiva do desastre, não importa o quão óbvia, não se constitui em uma garantia de que as nações farão tudo o que puderem para evitá-lo. E isso é especialmente verdadeiro quando o orgulho e o preconceito fazem com que os líderes não se disponham a fazer aquilo que deveria ser o óbvio.
E isso me faz retornar à ainda extremamente difícil situação econômica da Europa.
É um choque, mesmo para aqueles que têm acompanhado essa história desde o início, o fato de terem se passado mais de dois anos desde que os líderes europeus comprometeram-se a seguir a sua atual estratégia econômica – uma estratégia baseada na noção de que a austeridade fiscal e a "desvalorização interna" (basicamente, redução de salários) resolveria os problemas das nações endividadas. Nesse período inteiro essa estratégia não produziu nenhuma história de sucesso. O melhor que os defensores da ortodoxia podem fazer é apontar para algumas pequenas nações bálticas que registraram recuperações parciais após amargarem quedas dignas da Grande Depressão, mas que ainda encontram-se bem mais pobres do que estavam antes da crise.
Enquanto isso, a crise do euro espalhou-se como uma metástase, disseminando-se da Grécia para as economias bem maiores da Espanha e da Itália, e a Europa como um todo está claramente mergulhando de volta na recessão. Mas as prescrições políticas vindas de Berlim e de Frankfurt não mudaram nem um pouco.
Mas, a reunião de cúpula da semana passada não produziu certa movimentação? Sim. A Alemanha cedeu um pouco, concordando tanto em aliviar as condições de empréstimos para a Itália e a Espanha (mas não para compras de títulos por parte do Banco Central Europeu), quanto em dar carta branca para um plano de resgate financeiro para os bancos privados, que poderá de fato fazer sentido (embora seja difícil afirmar isso, tendo em vista a falta de detalhes). Mas essas concessões continuam sendo pequenas comparadas à magnitude dos problemas.
O que seria de fato necessário para salvar a moeda única europeia? É quase certo que isso envolveria aquisições substanciais de títulos governamentais por parte do banco central e uma disposição declarada do banco central de aceitar uma taxa de inflação um pouco mais elevada. Mesmo com tais políticas, grande parte da Europa iria se deparar com a perspectiva de enfrentar anos a fio de índice de desemprego muito alto. Mas pelo menos haveria uma rota visível para a recuperação.
Mas é muito difícil enxergar como tal mudança política poderia ocorrer.
Parte do problema reside no fato de os políticos alemães terem passado os últimos dois anos dizendo aos eleitores algo que não era verdade: que a crise é culpa integral de governos irresponsáveis do sul da Europa. Aqui na Espanha – que atualmente é o epicentro da crise –, o governo tinha na verdade uma dívida pequena e superávits orçamentários na véspera da crise. Se o país encontra-se agora em crise, isso se deve à enorme bolha imobiliária que os bancos de toda a Europa, incluindo os alemães, ajudaram a inflar. Mas agora essa falsa narrativa atrapalha qualquer solução funcional.
Mas os eleitores desinformados não são o único problema. Até mesmo a elite de opinião europeia ainda não entendeu a realidade. Quem lê os últimos relatórios de instituições europeias "especializadas", como aquele divulgado na semana passada pelo Banco para Acordos Internacionais, tem a impressão de ter ingressado em um universo paralelo, ao qual as lições da história e as leis da aritmética não se aplicam. Um universo no qual a austeridade ainda funcionaria se todo mundo tivesse fé, e no qual todo mundo pode cortar gastos ao mesmo tempo sem que seja gerada uma depressão econômica.
E então, a Europa salvará a si própria? Há muita coisa importante em jogo, e os líderes europeus, de forma geral, não são nem maliciosos nem imbecis. Mas o mesmo poderia ter sido dito, acreditem ou não, a respeito dos líderes da Europa em 1914. Tudo o que podemos fazer é esperar que desta vez as coisas tenham um desfecho diferente.
Tradutor: UOLPaul Krugman
Professor de Princeton e colunista do New York Times desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de economia em 2008






