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EUA e Europa são responsáveis demais na economia

24/01/2015 00h00

Os EUA e a Europa têm muito em comum. Ambos são multiculturais e democráticos; ambos são imensamente ricos; ambos possuem moedas de alcance global. Mas, infelizmente, experimentaram bolhas gigantes de habitação e de crédito entre 2000 e 2007 e sofreram crises dolorosas quando as bolhas estouraram.

Desde então, porém, as políticas nos dois lados do Atlântico divergiram. Em uma grande economia, as autoridades demonstraram um firme compromisso com a virtude monetária e fiscal, fazendo esforços extremos para equilibrar orçamentos enquanto permaneciam vigilantes contra a inflação. Na outra, nem tanto.

E a diferença de atitudes é o principal motivo pelo qual as duas economias estão hoje em caminhos tão diferentes. Os EUA, generosos e esbanjadores, experimentam uma sólida recuperação - uma realidade que se refletiu no animado discurso do presidente Obama sobre o Estado da União. Enquanto isso, a virtuosa Europa afunda cada vez mais nas areias movediças da deflação; todo mundo espera que as novas medidas monetárias anunciadas na quinta-feira rompam a espiral descendente, mas ninguém que eu conheça espera realmente que elas sejam suficientes.

Sobre a economia americana: não, não é o amanhecer na América, quanto menos o tipo de prosperidade que alcançamos na era Clinton. A recuperação poderia e deveria ter vindo muito mais depressa, e a renda das famílias continua bem abaixo de seu nível pré-crise. Apesar de não se notar no debate público, existe um acordo generalizado entre os economistas de que o estímulo de Obama de 2009-10 ajudou a limitar os danos da crise financeira, mas foi muito pequeno e se dissolveu rápido demais. Mas, quando se compara o desempenho da economia americana nos últimos dois anos com todas as previsões catastróficas republicanas, pode-se ver por que Obama está se exibindo um pouco.

A Europa, por outro lado - ou mais precisamente a zona do euro, os 18 países que têm uma moeda comum - fez quase tudo errado. No lado fiscal, a Europa nunca deu muito estímulo, e rapidamente voltou à austeridade - cortes de gastos e, em menor medida, aumentos de impostos -, apesar do alto desemprego. No lado monetário, as autoridades combateram a ameaça imaginária da inflação e levaram anos para reconhecer que a verdadeira ameaça é a deflação.

Por que elas entenderam tão errado?

Em certa medida, a opção pela austeridade refletiu uma fraqueza institucional: nos EUA, programas federais como a Seguridade Social, o Medicare e os cupons de alimentação ajudaram a suportar estados como a Flórida, com estouros especialmente graves na habitação, enquanto os países europeus em dificuldades semelhantes, como a Espanha, ficaram por conta própria. Mas a austeridade europeia também refletiu um mau diagnóstico deliberado da situação. Na Europa, assim como nos EUA, os excessos que levaram à crise envolveram majoritariamente a dívida privada, e não a pública, com a Grécia como exceção. Mas as autoridades de Berlim e Bruxelas decidiram ignorar a evidência em favor de uma narrativa que colocou toda a culpa nos déficits orçamentários, e simultaneamente rejeitaram as evidências que sugeriam - corretamente - que tentar cortar os déficits em uma economia deprimida aprofundaria a recessão.

Enquanto isso, os banqueiros centrais da Europa decidiram se preocupar com a inflação em 2011 e aumentar as taxas de juros. Mesmo na época estava óbvio que era uma besteira - sim, houvera um aumento na inflação total, mas as medições da tendência inflacionária estavam muito baixas, e não altas.

A política monetária melhorou muito depois que Mario Draghi se tornou presidente do Banco Central Europeu no final de 2011. Na verdade, os esforços heróicos de Draghi para oferecer liquidez aos países que enfrentavam ataques especulativos quase certamente salvaram o euro do colapso. Mas não está nada claro que ele tenha as ferramentas necessárias para combater as forças deflacionárias mais amplas acionadas por anos de políticas erradas. Além disso, ele tem de atuar com uma das mãos amarradas nas costas, porque a Alemanha continua totalmente contrária a qualquer coisa que possa facilitar a vida dos países endividados.

O terrível é que a economia da Europa foi naufragada em nome da responsabilidade. É verdade que houve momentos em que ser duro significava reduzir os déficits e resistir à tentação de emitir dinheiro. Em uma economia deprimida, no entanto, o fetiche por equilíbrio orçamentário e a obsessão por dinheiro duro são profundamente irresponsáveis. Não apenas prejudicam a economia em curto prazo, como podem - como fizeram na Europa - infligir danos em longo prazo, prejudicando o potencial econômico e levando a uma armadilha deflacionária da qual é muito difícil escapar.

Esse também não foi um erro inocente. O que mais me surpreende nos mestres da austeridade europeus, seus deões da deflação, é sua autoindulgência. Eles se sentiram à vontade, emocional e politicamente, para exigir sacrifícios (dos outros) em um momento em que o mundo precisava de mais gastos. Eles fizeram questão de ignorar as evidências de que estavam errados.

E a Europa pagará o preço de sua autoindulgência por muitos anos, talvez décadas.