América não precisa exercer papel de líder da paz, mas ao menos apoiar aliados

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Eu tenho um lema simples quando se trata do conflito entre israelenses e palestinos: eu amo tanto os israelenses quanto os palestinos, mas Deus me livre de alguns de seus amigos americanos –aqueles que querem amá-los até a morte, literalmente.

Esse pensamento me veio à mente na semana passada, quando Newt Gingrich arrastou a disputa republicana pelos votos judeus –demonstrando uma adoração por Israel– a um novo ponto baixo, ao sugerir que os palestinos são um povo "inventado", não uma nação real com direito a um Estado.

Isso supostamente visava mostrar que Newt ama Israel mais do que Mitt Romney, que apenas disse ao jornal israelense "Israel Hayom" que transferiria a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém porque "não busco agir de modo independente do que nossos aliados julgam melhor, e se os líderes de Israel achassem que uma mudança dessa natureza seria de ajuda aos seus esforços, então isso é algo que eu estaria inclinado a fazer. (...) Eu não acho que a América deve exercer o papel de líder do processo de paz. Em vez disso, nós devemos apoiar nosso aliado".

Isso mesmo. O papel dos Estados Unidos é apenas aplaudir seja lá o que Israel faça, servir como seu caixa eletrônico e calar a boca. Nós não temos nossos próprios interesses. E este sujeito está concorrendo à presidência?

Quanto a Newt, bem, vejamos: se 2,5 milhões de palestinos da Cisjordânia não são um povo real com direito ao seu próprio Estado, isso deve significar que Israel tem o direito de ocupar permanentemente a Cisjordânia e deve significar –para Newt– que as opções de Israel são: 1) privar permanentemente os palestinos da Cisjordânia da cidadania israelense e colocar Israel no caminho para um apartheid; 2) expulsar os palestinos da Cisjordânia por meio de uma limpeza étnica e colocar Israel no caminho do Tribunal Penal Internacional em Haia; ou 3) tratar os palestinos na Cisjordânia como cidadãos, assim como os árabes israelenses, e estabelecer a base para Israel se tornar um Estado binacional. E isso é chamado de ser “pró-Israel”?

Eu nunca alego falar em nome dos judeus americanos, mas estou certo que há muitos como eu, que acreditam fortemente no direito do povo judeu a ter um Estado, que entendem que Israel vive em um bairro perigoso, porém permanece uma democracia, mas que estão profundamente preocupados com o rumo que Israel está tomando atualmente. Meu palpite é de que somos minoria dentre os judeus seculares americanos. Nós ainda nos importamos. Muitos outros judeus estão se afastando.

Eu certamente espero que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, entenda que os aplausos em pé que recebeu no Congresso neste ano não foram por suas políticas. Aquela ovação foi comprada e paga pelo lobby pró-Israel. O verdadeiro teste é o que aconteceria se Bibi tentasse falar, digamos, na Universidade de Wisconsin. Meu palpite é que muitos estudantes o boicotariam e muitos estudantes judeus manteriam distância, não por serem hostis, mas por estarem confusos.

Os confunde ler que o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, que se encontrou com o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, na última quarta-feira (7), foi citado como tendo dito que as recentes eleições russas foram "absolutamente justas, livres e democráticas". Sim, aquelas eleições –as que levaram milhares de democratas russos às ruas em protesto contra as fraudes. O ministro israelense ficou do lado de Putin.

Os confunde ler que os colonos judeus de extrema direita atacaram uma base do exército israelense na Cisjordânia, apedrejando soldados israelenses em retaliação pelo exército ter removido os assentamentos "ilegais" que os extremistas judeus estabelecem onde bem entendem.

Os confunde ler, como o Fundo Novo Israel relata em seu site, que "há mais de 10 anos, a comunidade ultraortodoxa pediu à empresa de transporte público de Israel, Egged, que fornecesse ônibus segregados em seus bairros. No início de 2009, mais de 55 dessas linhas estavam operando em Israel. Normalmente, as mulheres são obrigadas a entrar pela porta traseira e a sentar no fundo do ônibus, assim como a se vestirem com modéstia".

Os confunde ler um artigo no "Financial Times" sobre Israel que dizia: "Nas últimas semanas, o país foi tomado por um debate aflito em torno de uma série de novas leis e propostas que muitos temem visar impedir a dissensão, enfraquecer os direitos das minorias, restringir a liberdade de expressão e emascular o poder Judiciário. Elas incluem uma lei que, na prática, permitiria às comunidades israelenses excluir famílias árabes; outra que impõe penas aos israelenses que defendem um boicote aos produtos feitos nos assentamentos judeus na Cisjordânia; e propostas que submeteriam a suprema corte a uma maior supervisão política".

E os confunde ler Gideon Levy, uma poderosa voz liberal, escrever nesta semana no "Haaretz", o jornal israelense, que "aqueles que dizem que se trata de apenas algumas leis sem maiores consequências estão apenas enganando outros. (...) O que estamos testemunhando é uma guerra. Uma guerra cultural estourou em Israel e está sendo travada em muito mais frentes do que aparenta. Não é apenas o governo, por mais importante que seja, que está em risco, mas também o próprio caráter do Estado".

Assim, enquanto Newt pergunta cinicamente quem são os palestinos, ele nem mesmo sabe que mais do que alguns poucos israelenses estão perguntando, "quem somos?"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.



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