Coluna do Thomas L. Friedman
Rússia: meio que, mas não realmente
Thomas L. Friedman
Como jornalista, a melhor parte de cobrir a recente onda de protestos e levantes contra os autocratas é ver coisas que você nunca imaginou que veria. Como em Moscou na semana passada, quando alguns oponentes dos planos do primeiro-ministro Vladimir Putin de se tornar presidente de novo, possivelmente por mais 12 anos, penduraram uma enorme faixa amarela em um telhado diante do Kremlin, com o rosto de Putin coberto por um grande X, ao lado das palavras “Vá Embora Putin” em russo.
A simples coragem desses protestos e a raiva contra Putin entre a classe média urbana daqui, por tratá-la como idiota ao simplesmente anunciar que ele e o presidente Dmitri Medvedev trocariam seus cargos, seria impensável há um ano. O fato de os jovens que colocaram a faixa aparentemente não terem sido presos também evidencia o quanto Putin sabe que está sobre gelo fino e que não pode criar “mártires”, algo que enfureceria os manifestantes antigoverno, que se reuniram de novo em Moscou no sábado.
Mas o que Putin fará agora? Será que ele realmente cumprirá sua promessa de permitir o surgimento de novos partidos ou simplesmente aguardará o esvaziamento de sua oposição, que está dividida e ainda carece de um verdadeiro líder nacional? A Rússia de Putin está em uma encruzilhada. Ela se tornou um país do tipo “uma espécie, mas não realmente”. A Rússia atualmente é uma espécie de democracia, mas não realmente. É uma espécie de livre mercado, mas não realmente. Ela tem uma espécie de estado de direito para proteger as empresas, mas não realmente. É uma espécie de país europeu, mas não realmente. Tem uma espécie de imprensa livre, mas não realmente. Sua Guerra Fria contra os Estados Unidos meio que acabou, mas não realmente. Ela meio que tenta se tornar algo mais do que um petro-Estado, mas não realmente.
O próprio Putin é em grande parte responsável tanto pelo yin quanto pelo yang. Quando se tornou presidente em 2000, a Rússia não estava meio que encrencada. Ela estava realmente em apuros –e mergulhando em parafuso. Com mão de ferro, Putin restaurou a ordem e solidificou o Estado, mas ele não foi cimentado por reformas políticas e econômicas reais, mas sim por um enorme aumento nos preços do petróleo e das receitas. Mesmo assim, muitos russos ficaram, e ainda estão, gratos.
Ao longo do caminho, Putin gerou um novo círculo corrupto rico ao seu redor, mas ele também assegurou para que lucro suficiente da riqueza do petróleo e dos minérios da Rússia chegasse às grandes cidades, criando uma pequena classe média urbana que agora está exigindo ter mais peso na decisão de seu futuro. Mas Putin agora está paralisado. Ele conseguiu tirar a Rússia da beira do precipício, mas foi incapaz de promover as mudanças políticas, econômicas e educacionais necessárias para tornar a Rússia um Estado europeu moderno.
A Rússia tem esse potencial. Ela está destinada a chegar a algum lugar. Mas Putin liderará? A chefe da sucursal do “Times” em Moscou, Ellen Barry, e eu conversamos na quinta-feira, na Casa Branca russa, com o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov. Eu saí de lá incerto.
Segundo Peskov, todos esses protestos urbanos são um sinal de que o crescimento econômico avançou mais rápido do que a reforma política, e isso pode ser consertado: “Há dez anos, nós não tínhamos uma classe média. Eles pensavam em como comprar um carro, comprar um apartamento, como abrir uma conta bancária, como pagar uma escola particular para seus filhos e assim por diante. Agora conseguiram, e a parte interessante da história é que querem se envolver mais na vida política”.
Ok, soa razoável. Mas e quanto à sugestão de Putin de que os protestos faziam parte de um plano americano para enfraquecê-lo e à Rússia? Peskov realmente acredita nisso?
“Eu não acredito nisso. Eu sei”, disse Peskov. O dinheiro para desestabilizar a Rússia vem “oficialmente e não oficialmente de Washington (...) para apoiar organizações diferentes (...) para incitar a situação. Nós não estamos dizendo apenas por dizer. Nós estamos dizendo porque sabemos. (...) Nós sabíamos com dois ou três anos de antecedência que no dia seguinte ao das eleições parlamentares (em dezembro passado) (...) que pessoas diriam que as eleições não eram legítimas”.
Isso é um delírio ou verdadeiro cinismo. E há a política externa. Putin foi de muita ajuda na ONU ao não bloquear a zona de exclusão aérea sobre a Líbia, mas ficou irritado com ela –por termos passado da proteção aos civis a ajudar a derrubar seu aliado e comprador de armas, Muammar Gaddafi. É verdade. Mas que aliado! Que coisa para se lamentar! E agora, quanto mais apoio Putin dá à ditadura assassina de Bashar Assad na Síria, mais ele se parece com uma pessoa comprando uma passagem de ida e volta no Titanic –depois dele já ter batido no iceberg. Assad é um morto ainda andando. Mesmo que sua única preocupação seja as vendas de armas, a Rússia não gostaria de se aliar às forças emergentes na Síria?
“Há uma forte dimensão doméstica à política russa em relação à Síria”, disse Vladimir Frolov, um especialista em política externa russa. “Se permitirmos que a ONU e os Estados Unidos pressionem um regime –que é parecido com o nosso– a ceder poder para a oposição, que tipo de precedente isso criaria?”
Esta abordagem em relação ao mundo não prenuncia nada de bom para as reformas em casa, acrescentou Frolov. “Putin foi formado para conversas unilaterais”, ele disse. Ele supervisionou “um sistema bastante personalizado, paternalista, baseado na arbitrariedade”.
Reformas reais exigirão um enorme reset por parte de Putin. Isso pode acontecer? Ele entende isso? De acordo com as evidências disponíveis no momento, eu diria: meio que, mas não realmente.
Tradutor: George El Khouri AndolfatoThomas L. Friedman
Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.
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