Política externa de Mitt Romney é versão em desenho animado da de Bush

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Frederic J. Brown/AFP

    O candidato republicano à presidência dos EUA,  Mitt Romney, visita área afetada pela passagem do furacão Isaac no Estado da Louisiana

    O candidato republicano à presidência dos EUA, Mitt Romney, visita área afetada pela passagem do furacão Isaac no Estado da Louisiana

Mitt Romney tem sido criticado por não discutir política externa. Parem de persegui-lo. Ele provavelmente sabe que já disse tudo o que precisava dizer durante as primárias: que ele porta um grande porrete, e que vai usá-lo no seu primeiro dia como presidente. Ou, segundo as próprias palavras de Romney: “Se eu for eleito presidente dos Estados Unidos... no primeiro dia do meu governo declararei que a China é uma manipuladora monetária, o que me permitirá impor tarifas sobre aqueles produtos cuja produção implica no roubo de empregos dos norte-americanos”.

Muito bom. Esmagar a China no primeiro dia. Eu só me pergunto o que ocorrerá no segundo dia, quando a China, o maior comprador estrangeiro de securities da dívida dos Estados Unidos, anunciar que não participará do próximo leilão do Tesouro norte-americano, fazendo com que as nossas taxas de juros disparem. E isso fará com que o terceiro dia seja muitíssimo interessante. Bem-vindos à política externa de Romney, que eu batizaria de “George W. Bush no Exterior – a versão em desenho animado”.

Eu sei que Romney não acredita em uma palavra sequer daquilo que ele vem dizendo sobre política externa, e que tudo isso tem como objetivo conquistar votos. Os ataques à China poderiam gerar alguns votos na região centro-oeste dos Estados Unidos, as críticas aos árabes podem render votos judeus, uma certa demonização da Rússia (o nosso “inimigo geopolítico número um”) pode atrair votos poloneses. Isso tudo com uma dose de testosterona para tirar os neoconservadores das costas do candidato republicano.

O estranho é que Romney poderia muito bem soar como uma pessoa inteligente no que se refere à política exterior, em vez de agir como um indivíduo belicista e impulsivo. Ele só necessitaria explicar aquilo que todo líder empresarial global aprendeu muito antes dos governos. Que, desde o fim da Guerra Fria, o mundo tornou-se não apenas mais interconectado, mas também mais interdependente, e que essa nova realidade estrutural exige um novo tipo de liderança norte-americana? E por quê?

Porque, neste mundo cada vez mais interdependente, os nossos “aliados” podem nos prejudicar tanto quanto os nossos “inimigos”. Afinal de contas, as maiores ameaças à reeleição do presidente Barack Obama são a possibilidade de a pequena Grécia sair da zona do euro e desencadear uma catástrofe econômica global e uma decisão israelense de atacar o Irã, algo que provocará o mesmo resultado catastrófico.

Neste mundo cada vez mais marcado pela interdependência, os nossos rivais podem nos ameaçar tanto ao entrarem em colapso quanto ao ascenderem no cenário internacional. Basta pensar no que aconteceria com os mercados e os empregos dos Estados Unidos caso o crescimento da China sofresse uma desaceleração drástica e o país passasse a experimentar instabilidade interna.

Nesse mundo cada vez mais interdependente, são poucos os nossos “inimigos” puros: o Irã, a Coreia do Norte, Cuba, a Al Qaeda e o Taleban. Mas nós temos muitos “frienemies” (trocadilho com os termos em inglês para “amigos” e “inimigos”), ou seja, metade amigos, metade inimigos. Enquanto o Pentágono se preocupa com uma guerra com a China, o Departamento do Comércio tenta fazer com que a China compre mais aviões da Boeing, e toda universidade norte-americana que se preze está abrindo um campus em Pequim. Enquanto isso, os chineses estão investindo a torto e direito em companhias norte-americanas. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é o maior espinho cravado no flanco dos Estados Unidos na América Latina, e uma fonte vital do petróleo que nós importamos. Os Estados Unidos e a Rússia estão em lados opostos quanto à questão da Síria, mas os Estados Unidos apoiaram o ingresso da Rússia na Organização Mundial do Comércio. E empresários norte-americanos estão pressionando o Congresso para que este acabe com as restrições comerciais à Rússia que remontam ao período da Guerra Fria, de forma que eles possam se beneficiar do mercado russo mais aberto.

E vejamos o caso do Egito. Eu critiquei o novo presidente daquele país, Mohammed Morsi, integrante da Irmandade Muçulmana, por ter participado da reunião de cúpula do Movimento dos Países Não Alinhados no Irã. Eu argumentei que ele estava dando legitimidade a um regime iraniano que esmagou exatamente aquele tipo de movimento democrático que alçou Morsi ao poder. Mas Morsi me surpreendeu, para melhor, ao utilizar a sua visita a Teerã para denunciar a liderança iraniana pelo seu apoio ao regime “opressor” da Síria. Os iranianos ficaram mortificados. Podemos ter certeza de que, em outras ocasiões, Morsi dirá e fará coisas que nos provocarão indigestão. Nós ainda necessitamos do apoio estratégico do Egito na região. E o Egito ainda necessita da nossa ajuda econômica. Mas um Egito mais democrático, liderado pela Irmandade Muçulmana, não irá se comportar automaticamente como o aliado que era antes. Nós precisaremos de um novo tipo de relacionamento. E isso será complicado.

Mas este é o mundo de hoje, e os desafios em termos de liderança representados por ele são fáceis de descrever, mas difíceis de solucionar. Se o mundo está mais interdependente, como criaremos interdependências saudáveis, de forma a crescermos juntos, e não interdependências nefastas, que façam com que nós desmoronemos em conjunto? A crise econômica global de 2008 foi um exemplo de uma interdependência nefasta, da mesma forma que o fracasso em chegarmos a qualquer tipo de acordo relativo ao clima global. Quando nós trouxemos a Rússia para a Organização Mundial do Comércio, criamos uma interdependência saudável. Quando a Rússia protege o ditador sírio, apesar de este estar esmagando o seu próprio povo, isso cria uma interdependência nefasta.

A melhor maneira de um presidente norte-americano criar interdependências saudáveis é, primeiramente, colocando a nossa própria casa em ordem e obtendo aquele tipo de autoridade – em termos de recursos e comportamento moral – derivada da liderança baseada em exemplos próprios. Por exemplo, Romney tem razão: existem aspectos nefastos na interdependência entre os Estados Unidos e a China que precisam ser revistos, mas isso não é culpa da China. Nós teríamos conquistado uma maior autoridade para construir um relacionamento mais saudável se tivéssemos poupado mais, consumido menos, estudado com mais afinco e feito com que os nossos bancos se comportassem de maneira mais responsável.

Os republicanos adoram criticar Obama por “liderar da retaguarda”. Mas se um país não liderar em um mundo interdependente com base nos seus próprios exemplos, não importa se ele procurará liderar da vanguarda ou da retaguarda. Ninguém o seguirá por muito tempo.

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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