Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Falta confiança para a China de se tornar em uma sociedade inovadora

Thomas L. Friedman
Em Hangzhou (China)

  • Shutterstock

Uma das afirmações mais comuns sobre a economia da China é que os chineses são bons em copiar, mas nunca seriam capazes de inventar um bambolê. Não está em seu DNA, dizem, e seu sistema educacional mecânico reforça essa tendência. Estou me questionando sobre isso: como um povo que inventou o papel, a pólvora, fogos de artifício e a bússola magnética de repente só é capaz de montar iPods? Estou pensando que talvez o que falte na China de hoje não é uma cultura de inovação, mas algo mais básico: confiança.

Quando há confiança na sociedade, a inovação sustentável acontece porque as pessoas se sentem seguras e capazes de assumir riscos e fazer os compromissos de longo prazo necessários para inovar. Quando há confiança, as pessoas ficam dispostas a compartilhar suas ideias e colaborar com as invenções umas das outras sem medo de ter suas criações roubadas. A coisa que mais impede a China moderna de se tornar uma sociedade inovadora, o que é imperativo se ela espera continuar aumentando os salários, é que ela permanece uma sociedade com um nível de confiança muito baixo.

Fiquei surpreso com quantos empresários e investidores chineses levantaram este ponto para mim esta semana. A China está presa num hiato entre sua antiga estrutura social de vilarejos e famílias, que criou sua própria forma de confiança, e um novo sistema baseado no Estado de direito e no poder judiciário. O Partido Comunista destruiu o primeiro, mas ainda tem que construir o segundo, porque isso significaria abrir mão de seus poderes arbitrários. Então a China tem um imenso déficit de confiança.

Para ver o que acontece quando você introduz apenas um pouco mais de confiança nesta sociedade, passe um dia, como eu fiz, participando do "AliFest" - o encontro anual de milhares de empreendedores chineses ligado ao gigante site de comércio eletrônico chinês Alibaba.com. Fundado em 1999, o Alibaba diz que suas vendas este ano poderão ultrapassar o eBay e a Amazon.com juntos. Isso aconteceu, em parte, porque ele construiu mercados confiáveis de compradores e vendedores dentro da China, conectando consumidores, inventores e manufatureiros que antes teriam dificuldades de fazer as transações.

O Alibaba tem três empresas principais: o Taobao.com e Tmall.com, que juntos constitui um mercado online gigante onde qualquer um no mundo pode comprar ou vender qualquer coisa - desde a Procter & Gamble vendendo pasta de dente até companhias chinesas oferecendo sua experiência em engenharia. As companhias Tao este ano devem movimentar cerca de US$ 150 bilhões em mercadorias entre compradores e vendedores, sobretudo na China.

O segundo é o Alibaba.com, onde, se você quiser produzir sandálias de borracha que tocam o hino norte-americano, basta clicar no Alibaba e ele o conectará com dezenas de fabricantes de sapatos chinesas que competirão pelo seu negócio.

E, por fim, existe o Alipay, uma versão chinesa do PayPal que permite, por exemplo, que uma pequena fábrica chinesa no interior venda seus bens para um consumidor chinês em Xangai. O comprador coloca seu dinheiro em custódia do Alibaba e ele só é liberado para o vendedor quando o comprador disser que recebeu o produto que encomendou. Aí está: confiança. Qual foi o impacto? Há mais de 500 milhões de usuários chineses do Taobao e 600 milhões de contas do Alipay.

Enquanto estive em Hangzhou, visitei o escritório de Robert Luo, presidente da Classic-Maxim, uma firma que ele abriu para fazer arte kitsch para hotéis, usando designs estrangeiros. Luo costumava angariar vendas viajando para feiras, mas, em 2006, ele recebeu um pedido imenso dos EUA através do Alibaba, o que permitiu que ele expandisse bastante seu negócio. Desde então ele deixou de comprar trabalhos artísticos de outros e passou a contratar artistas chineses e estrangeiros para produzir seus próprios designs exclusivos. "Nós fazemos muito design agora - outdoor, arte solar - e estamos pedindo muitas patentes nos EUA", disse ele.

Há duas tendências para observar nisso tudo: uma, argumentou Ming Zeng, estrategista-chefe do Alibaba, é que o Alibaba - que agora serve mais de 100 milhões de consumidores por dia, através de 6,5 milhões de lojas conectadas a 20 milhões de fábricas - está, de fato, criando "uma combinação virtual entre parque industrial e mercado online", onde qualquer um na China ou no exterior pode chegar para inventar, colaborar ou comprar e vender bens ou serviços.

Zeng prevê que o Alibaba eventualmente se conectará com o Facebook, Amazon, eBay, Apple, Baidu, LinkedIn e outros para criar uma "rede comercial global" virtual gigante e confiável, onde os indivíduos e companhias oferecerão seus talentos e comprarão e venderão seus produtos, designs e invenções.

Eventualmente, Zen argumentou, "cada indivíduo terá que encontrar uma forma de ser bem sucedido" nesta rede global. "As barreiras nacionais não oferecerão nenhuma proteção".

A outra tendência é que os chineses serão grandes atores nessa rede. A criação de estruturas globais confiáveis de negócios como o Alibaba está começando a permitir que uma nova geração de inovadores chineses - que tem muita habilidade e custos baixos - estenda seu alcance. Já vimos a mão de obra barata da China; agora vamos ver mais gênios baratos.

É por isso que Phillip Brown e Hugh Lauder, num ensaio recente na Eurozine.com, argumentaram que está acontecendo uma grande mudança no mercado de trabalho global, no qual "muitas das coisas que pensamos que só podiam ser feitas no Ocidente podem ser feitas em qualquer lugar do mundo, não só mais barato, mas às vezes até melhor."

Tradutor: Eloise De Vylder

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

Últimas Colunas de Thomas L. Friedman



Shopping UOL