Vai-Vai com a apologia da reciclagem e a morena Scheila Carvalho abençoando a bateria; Águia de Ouro exaltando o poder criador e criativo, seja de Deus ou de um artesão; e Rosas de Ouro impondo luxo e brilho no culto à "Mãe Terra" e ostentando Ellen Roche à frente dos ritmistas. Com esses destaques, acabou, pouco depois de 6h da manhã, o segundo dia de apresentação do Grupo Especial no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, que registrou movimento de 38 mil pessoas -contra 23 mil na madrugada de sábado, 17.
Pode um show de Carnaval refletir as preocupações de uma época, um certo "esprit du temps"? Foi o que pareceu, em cada um dos dois dias em que as escolas de samba paulistanas desfilaram. Temas mais ou menos afins se esbarraram. Se
no primeiro dia havia uma certa preocupação ecológica, no segundo e último pôde-se perceber que as atenções se voltaram para o misticismo e a espiritualidade.
A Vai-Vai ainda pegou o "refluxo" da ecologia do dia anterior. Criticando a exploração desenfreada do "ouro negro" e o consumo excessivo que gera poluição, teve a ex-morena do É o Tchan Scheila, a apresentadora (loira) de TV Ana Maria Braga e a sambista Beth Carvalho entre seus integrantes.
Quem inaugurou o lado místico foi a Mancha Verde, com o enredo "Decifra-me ou Devoro-te. Apocalipse: 4 cavaleiros, 3 profecias e 4 segredos!". O carnavalesco Cláudio Cavalcanti, o Cebola, encerrou neste ano sua "trilogia bíblica" iniciada em 2004. Uma batalha do bem contra o mal se instalou no Sambódromo, com querubins e a Virgem, mares de fogo, alas que representavam a Segunda Guerra, aparições divinas, catástrofes, astrologia, Satanás e cavaleiros do Apocalipse encarnados em destaques de carros alegóricos, tudo com muita cor e chuva-de-prata. Referências à esfinge grega, aos cavaleiros do Apocalipse e à Virgem de Fátima perpassavam as 22 alas, e Viviane Araújo reinava na bateria.
A Águia de Ouro conseguiu mobilizar bastante o público no acompanhamento de seu samba "Deus Fez o Homem de Barro e a Águia de Ouro... o Brasil Feito a Mão", referência ao conceito de Deus como o primeiro artesão. A escola, que no ano passado ficou em 7º lugar, trouxe uma equipe de 24 artistas de Parintins para ajudar na construção dos carros alegóricos e abriu alas com o interessante carro "Homem de Barro e a Águia de Ouro". O intérprete Serginho do Porto provocava a participação da torcida, sobretudo no trecho "Amor, hoje a festa é pra você". Houve um acidente com três homens, atingidos na cabeça por um dos carros, sem gravidade.
Rosas de Ouro, em desfile mais técnico, levou luxo, grandes carros e Ellen Roche para celebrar a "Mãe Terra". "Tellus Mater - O Cio da Terra" chamou a atenção já na comissão de frente com uma representação do quadro "Os Retirantes", de Cândido Portinari. Os carros grandes e chamativos, muito coloridos e iluminados, ilustravam: a Criação do mundo, inclusive pelos olhos da ciência; as chuvas que formaram os oceanos primitivos; o desenvolvimento sustentável; e apresentavam a terra vista pelos astronautas -o brasileiro Marcos Pontes era destaque desta última alegoria, e despertou atenção do público.
A história do desenhista Maurício de Sousa foi usada pela Unidos do Peruche para ressaltar a importância da leitura e cultura no país. Em 1958, ele deixou o jornalismo para se dedicar aos quadrinhos, até que, em 1970, lançou a primeira revista da Mônica, personagem inspirada em sua filha. Cada carro tinha um destaque da obra de Maurício, mas foi a presença dele e de membros de sua família no último carro que arrancou fortes aplausos do público.
Problemas com o carro abre-alas "A Grande Riqueza do Samba", que bateu nas laterais das paredes da concentração, devem acarretar perda de pontos para a Pérola Negra. Outro problema no segundo carro alegórico provocou uma troca de ordem de entrada; destaques que não entraram na passarela não desfilaram, e alguns integrantes das alas entraram chorando. E mesmo com todos os problemas, o público cantou o enredo com a escola da Vila Madalena e aplaudiu sua passagem.
A Mocidade Alegre fechou o segundo e último dia da folia paulistana, apoiando-se em ícones do humor nacional para sustentar seu samba-enredo "Posso ser Inocente, Debochado e Irreverente... Afinal, Sou o Riso Dessa Gente!". Mais uma vez, a rainha da bateria foi Nani Moreira, que no ano passado sofreu queimaduras no rosto, mão e cabelos, provocadas por fogos de artifício que faziam parte de sua fantasia. Pontos altos foram a ala da velha guarda das baianas, em branco, vermelho e dourado; o carro "As Chanchadas e o Jeitinho Brasileiro", referência aos cine-teatros e às vedetes do teatro de revista; e "Sátira Brasil, Uma Zorra Total", com atores do programa "Zorra Total" (Rede Globo) como Fabiana Karla, do bordão "Isso não te pertence mais!".