Uma noite de fortes concorrentes acirra a disputa pelo título do Carnaval 2007. Se é incontestável que na primeira noite a Viradouro empolgou com soluções criativas e alegorias originais, a Mocidade com seu samba-enredo e a Mangueira com sua tradicional combinação de talento e carisma, também é inegável que de maneira geral diversas escolas apresentaram técnica afinadíssima, sambas-enredos contagiantes e um inesperado luxo na Marquês de Sapucaí. Na segunda, 19, sobressaíram-se Salgueiro, Portela, Beija-Flor e Grande Rio.
O Salgueiro, terceira escola a entrar nesta noite, usou a África como inspiração. Boa aposta já que, com ou sem patuá, quatro dos oito títulos conquistados pela escola tiveram inspiração na cultura afro. A agremiação apresentou a história das Candaces, dinastia de rainhas da África Oriental que comandou, antes da era cristã, um próspero império do continente. A escola colocou na avenida a força da mulher africana, mostrando rituais, tradições, lendas e histórias. Entidades mitológicas, mães feiticeiras, sacerdotisas baianas e figuras como a rainha de Sabá também foram lembradas. Sabrina Sato, do "Pânico na TV", foi um dos destaques, depois de desfilar no Grupo de Acesso paulistano pela Gaviões da Fiel.
Portela, única a participar de todos os desfiles desde o princípio da festa carioca, em 1932, e dona da maior quantidade de títulos (21), saiu da Sapucaí sob forte torcida do público
e de vips. O fértil samba-enredo "Os Deuses do Olimpo na Terra do Carnaval: Uma Festa do Esporte, Saúde eBeleza" gerou belas fantasias e imponentes carros alegóricos. O tema prepara a Cidade Maravilhosa para os Jogos Pan-Americanos, que acontecem em julho. O desfile contou com celebridades do esporte como os irmãos Hipólito e Daiane dos Santos, da ginástica, e Giovane Gávio, do vôlei. A rainha de bateria Adriana Bombom, que em São Paulo, havia defendido a bateria da Tom Maior, repetiu uma deslumbrante aparição na Portela, surgindo como uma borboleta.
Como o Salgueiro, a Beija-Flor cantou a África, saudando as dinastias guerreiras e espirituais, as mães negras, orixás femininos e mães-de-santo com o enredo "Áfricas: do berço real à corte brasiliana". Sempre uma das favoritas, a escola de Nilópolis mostrou um gigantesco beija-flor de 10 metros de comprimento sobre o carro abre-alas, que já prenunciava que a avenida se acarpetaria de fantasias luxuosas, com muitas plumas, e carros com detalhes rebuscados. A bateria, por exemplo, veio fantasiada em alusão ao soberano do reino africano de Daomé.
O quesito "presença de famosos" foi, definitivamente, preenchido com louvor e glória pela Grande Rio, que conseguiu levar, além da rainha de bateria Grazi Massafera, as atrizes Betty Lago, Fernanda Lima, Nívea Stelmann, a apresentadora Ana Maria Braga -que desfilou na ala da diretoria- e os atores Raul Gazolla e Marcos Paulo, dentre outros. O samba-enredo "Caxias - O Caminho do Progresso, um Retrato do Brasil" reverenciou ainda ícones locais do esporte, da música e da política. Alguns deles foram Zeca Pagodinho, que desfilou em carro alegórico, e o deputado dos anos 60 Tenório Cavalcanti, o controverso "Homem da Capa Preta", revivido pelo ator José Wilker na avenida como já havia feito em filme de 1986.
Carros com efeitos especiais e alegorias perfeitas foram elementos que fizeram o desfile da Unidos da Tijuca impecável. A escola vice-campeã em 2004 e 2005 busca o título com o enredo "De Lambida em Lambida e Tijuca dá um "Click". Com fantasias muito bem elaboradas, as alas traziam as várias modalidades de fotografia: de casamento, de aniversário, de infância, de turismo, entre outras. A fantasia iluminada da apresentadora Adriane Galisteu se destacou durante sua passagem pela passarela do samba como rainha de bateria.
Imperatriz Leopoldinense propôs-se a ir da Escandinávia a Pernambuco em 80 minutos de Sapucaí. O ponto em comum, propõe a escola, era o bacalhau, em torno do qual girou o samba-enredo "Teresinhaaa, uhuhuuuu! Vocês querem bacalhau?". Assim, de Chacrinha a escola pulou para a mitologia nórdica e encerrou com o "Bacalhau do Batata", homenagem a um bloco pernambucano que, de quebra, comemorou os 100 anos do frevo.
A primeira escola da noite fez um desfile politizado, mas sem brilho. A Porto da Pedra, de São Gonçalo, levou à avenida as riquezas da África do Sul e a luta de Nelson Mandela contra o apartheid. Os atores Milton Gonçalves e Zezé Motta foram destaques e reinvindicaram mais negros como representantes em todos os setores da sociedade. A escola não empolgou os espectadores da Marquês da Sapucaí, os carros não apresentaram estruturas grandes, como na primeira noite, e não eram motorizados.
A apuração das escolas de samba cariocas acontece a partir das 15h desta quarta, 21.
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