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15/09/2007 - 19h33
Discurso 'ecológico' das fábricas oculta divergências
CLÁUDIO DE SOUZA Enviado especial a Frankfurt, Alemanha
O debate ecológico que -- bem ou mal -- tornou-se totalmente público no Salão de Frankfurt, Alemanha, maior evento da indústria automotiva mundial, tem ainda muitos desdobramentos pela frente.
Na Europa, um acordo entre os governos e os fabricantes de carros fixou uma meta de emissão de CO2 (dióxido de carbono) a ser atingida em 2012: os carros devem soltar uma média de 120 gramas do gás a cada quilômetro rodado. A média atual é de 160 g/km.
O número parece alto, mas é bom lembrar que o CO2 não é um risco imediato à vida humana, a não ser em concentrações muito altas. O problema é que ele colabora para aumentar o chamado efeito-estufa -- e, conseqüentemente, o aquecimento global.
Segundo dados compilados pelas Nações Unidas, em 2004 foram jogadas na atmosfera 27 bilhões de toneladas de CO2 no mundo todo. O valor correspondente, em gramas, é de 27 quatrilhões. Estes dados são considerados desatualizados, porque o boom industrial da China acelerou-se após a época da pesquisa.
Ou seja, as emissões, hoje, são maiores.
O corte solicitado pela União Européia é de 25%, mas o impacto sobre o total global de emissões obviamente seria menor do que esse valor, porque a Europa não é o único foco de poluição por CO2 do planeta.
Há uma divisão na indústria automobilística quanto à factibilidade da meta proposta pela UE -- que pode, eventualmente, virar legislação.
Praticamente todas as fábricas importantes e de linha de produção massiva apresentaram em Frankfurt carros e/ou tecnologias para motores "verdes" (ou "azuis", como o Bluetech da Mercedes-Benz e o BlueMotion da Volkswagen).
Mas a imprensa européia já vê um potencial atrito entre as construtoras francesas e italianas -- na verdade, a referência é ao grupo PSA (Peugeot-Citroën), à Renault e à Fiat --, que produzem principalmente veículos pequenos e médios e de cilindrada menor, e os fabricantes alemães, que oferecem veículos grandes e de luxo, mais gastadores e poluentes.
Seria esse o caso da Mercedes, BMW e Audi, além da Porsche -- que, no entanto, têm uma produção muito mais limitada quantitativamente.
Grosso modo, é muito mais fácil obter resultados ambientais melhores com carros menores e menos potentes do que com o oposto -- não importando qual o meio utilizado: combustível de biomassa, diesel limpo, hibridismo com eletricidade etc.
Visões diferentes A Associação dos Construtores da Europa (Acea) já disse, em Frankfurt, que a meta de 120 g/km "não é realista". Quase todos os carros exibidos no salão que tinham um desempenho próximo a isso, ou melhor que isso, simplesmente não existem -- eles são equipados com motores ainda em desenvolvimento.
Citado pelo jornal francês Le Monde, um representante da Volks afirma que em 2010 já existirá um carro capaz de rodar 100 km com um litro de combustível. Já a PSA acredita que será possível chegar-se a um carro ecológico competitivo em termos de mercado, obtido com um conjunto de tecnologias novas.
É uma visão diferente da sustentada pela General Motors da Europa, a qual espera que, da competição entre os diferentes projetos dos fabricantes, surja um que se defina como padrão.
Como se vê, a conversa ecológica passada pelas construtoras em Frankfurt ainda tem um longo caminho pela frente até deixar de ser só isso: conversa.
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