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16/01/2008 - 23h25Salão de Detroit teme concorrência interna
CLÁUDIO DE SOUZA Um clima sombrio se abate sobre Detroit, sede do North American Auto Show, ou simplesmente Salão de Detroit, por enquanto o maior evento da indústria automotiva dos Estados Unidos. E é bom sublinhar o "por enquanto". A crise econômica e de identidade das três grandes fábricas de automóveis dos EUA -- General Motors, Ford e Chrysler, em ordem de grandeza -- se faz sentir na cidade e em seu evento mais importante. Basta sair um pouco do centro de Detroit para se deparar com uma enorme quantidade de prédios, casas e galpões abandonados, além de vastos terrenos baldios. E mesmo no centro é preciso caminhar por longos minutos pelas ruas até cruzar com alguém. Ao longo dos anos, milhares de pessoas deixaram a cidade em busca de oportunidades melhores que as oferecidas pela economia local, que sempre girou em torno das três fábricas. A população atual, de cerca de 915 mil habitantes, é nada menos que metade da aferida em 1950, de 1,8 milhão de pessoas, quando a indústria automotiva vivia seu auge. Entre 1970 (década da crise do petróleo, ocorrida em 1973) e 2000, mais de 500 mil pessoas deixaram Detroit. O êxodo diminuiu o ritmo desde então: o decréscimo populacional foi de 3,4% desde a virada do século.
Não bastasse a crise, há também a esquizofrenia de uma indústria obrigada a mostrar projetos que não agridam o meio ambiente e poupem energia, mas que continua apostando fichas em veículos monstruosos e beberrões -- com a justificativa de que existe demanda para eles. Mas o golpe mais duro pode vir dos outros salões de carros norte-americanos que começam a ganhar força no vácuo de Detroit. É o caso do de Los Angeles, que foi antecipado para novembro; e os de Chicago (fevereiro) e Nova York (abril). Esse movimento pode fraturar o trio anual de grandes eventos mundiais do carro: Detroit, Tóquio e um salão na Europa (em termos de repercussão, Frankfurt nos anos ímpares, Paris e/ou Genebra nos anos pares). Para as fábricas européias e asiáticas, priorizar os novos endereços nos EUA (Los Angeles, Nova York, Chicago) é mais interessante do que mobilizar-se para vir a Detroit, porque é neles que vive a maior parte de seus consumidores no país. Foi o que fez a Porsche, que não está em Detroit este ano; é o que estuda fazer a BMW, que está aqui, mas diz que acompanha com atenção os passos das concorrentes. Marcas tradicionais, como Peugeot-Citroën, Renault e Fiat também não participam. Pulando a cidade Mesmo quem veio a Detroit o fez com menos ímpeto. A Nissan, que tem boa penetração no mercado dos EUA (seu sedã Altima é um dos dez veículos mais vendidos no país), optou por lançar seu supercarro GT-R em casa, no Salão de Tóquio, em dezembro; mostrou o novo SUV Murano em Los Angeles; e agora simplesmente pulou Detroit e vai exibir o reestilizado sedã Maxima em Nova York. A explicação é óbvia: de acordo com o jornal The Detroit News, a fábrica japonesa detém 7% do mercado na Califórnia, 6% em Nova York e apenas 1% no Estado de Michigan. Outra explicação é o destaque que têm aqui a GM, Ford e Chrysler em termos de espaço e de agenda para a mídia -- até porque fazem seus grandes lançamentos em Detroit. Verdade que em Frankfurt 2007 a Audi e a BMW tiveram pavilhões específicos para elas, donas da casa -- só que o evento alemão é tão grande e tão eclético que isso não chega a parecer deselegante. Mas Detroit, para algumas fábricas de fora dos EUA que não se contentem com o segundo plano, pode mesmo ser desanimador. A questão final é a mídia estrangeira, cujo comparecimento é importante para definir a magnitude de eventos como um salão internacional de carros. Jornalistas dos EUA e do Canadá podem achar Detroit (razoavelmente) conveniente. Mas para os de qualquer outro país os demais salões dos EUA são mais interessantes, até porque se chega a eles em vôos diretos e há muito mais opções de hospedagem e atividades pós-trabalho. Em Detroit há apenas o frio e uma paisagem melancólica.
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