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18/01/2008 - 08h53Automóveis chineses são recebidos com desconfiança
CLÁUDIO DE SOUZA "Made in China". Pode procurar: um crescente número dos bens de consumo que você adquire têm essa frase estampada em algum lugar. Principamente no vestuário e em produtos eletrônicos. E vai chegar o dia em que ela estará também no manual do proprietário do seu carro. Vai mesmo? Essa é uma pergunta de resposta ainda aberta. As fábricas de carros da China estão crescendo e aparecendo, fazendo movimentos ousados (desprezando parcerias com fábricas européias, promovendo fusões entre si), mas não lhes será fácil convencer os mercados europeu e norte-americano (e outros que exijam um certo padrão de qualidade) de que seus carros são confiáveis.
No Salão de Detroit, maior evento automotivo dos Estados Unidos, algumas marcas chinesas que mostraram seus produtos receberam pouco mais que sorrisos amarelos e olhares condescendentes dos entendidos de carro locais.
A BYD (que aproveita o nome para usar o slogan "Build your dreams", construa seu sonhos, em inglês) é uma das maiores fabricantes mundiais de baterias recarregáveis -- usadas, por exemplo, em celulares. Em 2003, entrou no mercado automotivo ao comprar a Shaanxi Qinchuan Auto Company. Devido a sua experiência com energia, produz carros movidos pelos sistemas DM (Dual Mode) e BHS (BYD Hybrid System), ambos unindo eletricidade e combustível fóssil. O carro que mais chamava atenção em seu estande era o F8, um cupê conversível 2 + 2 cuja dianteira é copiada, sem a menor chance de ser mera coincidência, do Mercedes-Benz CLK. Com duas portas e intenções esportivas, possui um motor de 2 litros cujo desempenho é, segundo os dados da própria BYD, apenas medíocre: chega a meros 180 km/h, e vai da imobilidade a 100 km/h em longos 14 segundos. O carro é razoavelmente equipado (tem sensor de chuva, ABS e EBD, quatro airbags) e no mercado dos EUA custa cerca de US$ 25 mil. Outros modelos em destaque eram os compactos F3 sedã e a versão hatch, F3R (a tal "porcaria" citada acima). Em termos de design, parecem carros japoneses atrasados em duas ou três gerações. São dotados de propulsores Mitsubishi de 1.6 e 1.5 litro (sedã e hatch, respectivamente), o que garante confiabilidade sob o capô. Também são bem equipadinhos, e prometem um consumo de combustível extremamente baixo, de cerca de 20 km/litro. Estava exposto ainda o sedã médio-grande F6, o carro de luxo da BYD, que possui motor 2.0 e que deve ser produzido com o sistema DM. Um detalhe: todos os carros pareciam ter defeitos na pintura e irregularidades na lataria.
A origem da empresa é estatal e militar: fabricava veículos para o Exército de Libertação Popular. Monta uma versão antiga do Mitsubishi Pajero na China (a empresa japonesa é sua acionista minoritária). Agora, começou a guerra pelos consumidores de fora do seu país. Seus planos incluem vender carros nos EUA até o fim da década. Para quem sabe inglês, visitar o site da empresa serve para se deliciar com as construções absurdas que abundam a cada linha de texto. No estande da Chang Feng o destaque era o SUV Liebao, que aproveita a plataforma do Pajero. Ele possui três versões: CS6, Feiteng e Black Giant (isso mesmo, gigante negro), e deve ganhar mais uma, a CS7, também exposta em Detroit, mas aparentemente ainda um protótipo. O Liebao CS6 lembra os SUVs da Hyundai, mede cinco metros, possui estepe no lado externo e acabamento e conforto interno razoáveis. O câmbio é manual de cinco marchas, com um curso longuíssimo para fazer os engates. Há dois motores, um 2.5 litros a diesel e um 2.35 litros a gasolina, e opção de tração nas quatro rodas. O já citado monovolume Kylin possui, segundo o material de divulgação, um design com a filosofia "humanidade e ciência" e adota "as últimas idéias do design europeu". Por isso que parece o Scénic... Pela pechincha de US$ 10 mil, o comprador leva um acabamento interno péssimo, com plásticos de baixa qualidade cheios de rebarbas, mas também um motor Mitsubishi de 1.6 litro e bom espaço (são 4,24 metros de comprimento, tamanho de um VW Golf, com entreeixos de 2,58 metros).
Pioneira na produção privada de carros na China, a Geely tem história semelhante às demais: começou fazendo outra coisa (no caso, geladeiras e, depois, motocicletas) até chegar aos automóveis. Veterana de eventos automotivos internacionais (estreou em Frankfurt, em 2005), busca parceiros para desaguar no exterior mais de metade de sua produção -- mas por ora só tem penetração em mercados terceiro-mundistas (como Venezuela e Paquistão). O estande da Geely em Detroit mostrava quatro veículos: o esportivo Geely Coupé (não confundir com o conceito copiado do Alfa Romeo Brera), o hatch MK e os sedãs CK e Hifun. O Coupé tem um visual invocadinho, marcado pelas duas entradas de ar em forma de gota no capô. A Geely não divulgou dados técnicos do carro. Já o MK em versão hatch, que por alguma razão estava exposto com vários bichos de pelúcia no interior, parece uma mistura de modelos da Renault, Nissan, Volkswagen e General Motors. A versão sedã do MK possui motores 1.5 e 1.6 litro; a versão hatch também usa um 1.5 litro. A Geely diz que o carro faz 20 km/l. Por fim, há os sedãs CK e Hifun. O primeiro é um compacto (4,1 metros) de linhas bem convencionais, com motorização 1.3 e 1.5 litro; o segundo, por sua vez, é um monstrengo com motor híbrido 1.5, que chega a 170 km/h. Ele mistura linhas arredondadas na dianteira, que lembra o nosso VW Santana, com uma traseira quadrada emoldurada por lanternas copiadas de modelos da Cadillac. Vale notar que o design da Geely é motivo de piada na própria China. Moral da história: a entrada das marcas chinesas nos mercados ocidentais mais ricos, a ser feita nas atuais condições -- e o processo está atrasado porque vários desses carros ainda não atingiram os padrões norte-americanos e europeus de emissões poluentes e de segurança --, pode assemelhar-se à chegada da russa Lada ao mercado brasileiro, especificamente no que se refere aos modelos Laika e Samara, no começo dos anos 1990. Quem viveu, lembrará.
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