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Debate ético em pesquisa sobre cérebro humano está atrasado, dizem especialistas

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Imagem: iStock

Em Paris

25/04/2018 18h29

E se o tecido cerebral humano implantado em um porco transferisse parte da autoconsciência e das memórias do doador?

Tal cenário, fora de alcance por enquanto, está se tornando cada vez mais concebível, de acordo com um grupo de cientistas, especialistas em ética e filósofos que convocaram, nesta quarta-feira, um debate sobre a ética de armazenar e usar a matéria do cérebro humano.

Os "substitutos" cerebrais compostos de células humanas reais - sejam pequenos organoides cultivados em laboratório, matéria cinzenta removida de um paciente humano ou tecido cerebral implantado em animais - são cruciais para o estudo do órgão que nos permite pensar.

Mas há riscos, alertaram 17 especialistas em um comentário publicado na revista científica Nature.

À medida que os substitutos do cérebro se tornam maiores e mais sofisticados, a possibilidade de que eles tenham capacidades semelhantes à senciência [capacidade de sentir] humana pode se tornar menos remota."

"Tais capacidades podem incluir ser capaz de sentir (até certo ponto) prazer, dor ou angústia; ser capaz de armazenar e recuperar memórias; ou talvez até mesmo ter alguma percepção de livre arbítrio ou consciência de si mesmo".

Há uma necessidade, argumentou o grupo, de "diretrizes claras para pesquisa" e de comitês especiais de supervisão.

Eles apontaram para um estudo no qual os cientistas notaram "atividade neural" após lançarem luz sobre uma região de um "organoide" humano com células do olho e do cérebro.

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Os organoides são estruturas rudimentares em 3-D criadas a partir de células-tronco humanas e usadas para imitar características de um órgão em desenvolvimento para estudar doenças e incapacidades.

Os autores citaram outro estudo no qual pequenos organoides cerebrais humanos - implantados no cérebro de camundongos - sobreviveram e se comunicaram com o cérebro hospedeiro.

"Sem saber mais sobre o que é a consciência e quais elementos constitutivos ela requer, pode ser difícil saber quais sinais procurar" em experimentos, diz o texto.

Os pesquisadores propõem que uma solução poderia ser o uso de anestesia para manter os animais com tecido cerebral humano em estado comatoso.

"Talvez certas funções cerebrais ou um nível pré-especificado de atividade cerebral, sinalizando uma falta de capacidade, possam ser usados para delinear pesquisas eticamente justificáveis".

Essas perguntas difíceis não devem interromper a pesquisa crítica, destacou a equipe.

Substitutos do cérebro podem ajudar a desvendar os mistérios de doenças psiquiátricas e neurológicas.

"Mas para garantir o sucesso e a aceitação social dessa pesquisa no longo prazo, uma estrutura ética deve ser forjada agora, enquanto os substitutos do cérebro estão nos primeiros estágios de desenvolvimento".