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Tomografia revela 'sapo que engoliu sapo'

Imagens obtidas em pesquisa na Alemanha revelam corpo intacto de sapo dentro de outro  - Thomas Kleinteich – Universität zu Kiel
Imagens obtidas em pesquisa na Alemanha revelam corpo intacto de sapo dentro de outro Imagem: Thomas Kleinteich – Universität zu Kiel

Ben Aviss

Da BBC Earth

17/06/2015 06h51

Elas parecem ser as imagens de uma maleta em formato de sapo passando pelo raio-X da segurança de um aeroporto. Mas esses modelos em 3D revelam os detalhes de uma vida e uma morte extraordinárias.

Indicado pela cor vermelha está um sapo inteiro, completamente enrolado dentro do estômago de seu predador - outro sapo.

A pata traseira esquerda da presa se projeta para fora do esôfago do sapo comilão, um sapo-boi (Ceratophyrs ornata), enquanto seu pé pousa sobre a língua do predador.

As imagens revelam, literalmente, um sapo que engoliu um sapo.

'Ossos onde não deve haver ossos'

Elas também marcam uma intrigante história de descoberta sobre a vida e a morte de um exemplar de sapo-boi que provavelmente tinha o olho maior que a barriga.

Essa descoberta acidental foi feita por Thomas Kleinteich, do Instituto de Zoologia da Universidade de Kiel, na Alemanha. Ele gerou modelos 3D de animais por computador usando um microaparelho de tomografia computadorizada, que funciona de maneira semelhante aos equipamentos médicos, mas é projetado para investigar objetos pequenos.

"Antes de ter uma visão em 3D do espécime, percebi em uma imagem 2D que havia algo estranho com esse animal. Ele tinha ossos onde não deveria haver ossos", conta o cientista. "Não demorei a entender que ele tinha engolido outra espécie de sapo."

Os sapos-boi ou sapos-de-chifre, encontrados na América do Sul, são parte da atual pesquisa de Kleinteich, que se concentra na adesão da língua dos anfíbios - ou como a língua de sapos e lagartixas consegue colar em suas presas.

A pesquisa cobre dois aspectos principais: a anatomia da língua e as forças com que ela consegue "puxar" os objetos para a boca antes de o contato se perder.

"Para a questão anatômica, eu uso exemplares que pertencem a coleções de museus porque essas instituições têm recursos para conseguir espécies diferentes de todas as partes do mundo", explica Kleinteich.

O animal aqui retratado é um sapo-boi que faz parte do acervo do Museu de Zoologia de Hamburgo.

Mas, fora a última ceia desse espécime, pouco se sabe sobre ele. O vidro de formol que o continha, e que normalmente deveria trazer os detalhes sobre a data de coleta e as circunstâncias de sua morte, não apresentava um rótulo.

'Pac-Man' de mordida forte

Sapos dessa família são famosos por duas coisas: por seus hábitos alimentares e por não terem medo de nada. Quando se sentem ameaçados, esses animais não hesitam em se defender, saltando sobre seu potencial agressor e dando-lhe uma dolorosa mordida, independentemente de seu tamanho.

Suas bocas enormes, que respondem por praticamente metade do tamanho de seus corpos, possuem várias pequenas projeções ósseas que se parecem com dentes.

Eles também têm um apetite voraz: tentam comer qualquer coisa que eles julguem caber em suas bocas e, ao que parece, outras que não cabem.

Todas as oito espécies de sapos-de-chifre do gênero Ceratophyrs são predadores de emboscada e passam a maior parte do tempo esperando para que a refeição cruze seu caminho. Mas alguns são capazes de apressar o processo.

"Às vezes, eles fingem que seus dedos são minhocas para atrair presas para perto de sua boca", afirma o zoólogo, que já filmou outras espécies do gênero fazendo isso em cativeiro.

Popular entre criadores de animais de estimação exóticos, o sapo-boi ganhou o apelido de "sapo Pac-Man" entre seus donos por causa de sua fama de glutão - uma homenagem ao personagem de videogame dos anos 80 que saía comendo tudo o que via pela frente.

Por isso também, a dieta desse anfíbio é bem variada, incluindo aranhas, insetos, caranguejos, minhocas e até animais maiores, como cobras, lagartos, roedores e outros sapos.

Estudos anteriores realizados por Kleintech demonstraram que a língua de um sapo-boi pode suportar uma enorme força contrária, o que o ajuda a vencer essas grandes presas.

"Em tese, você pode pendurar um sapo desses no teto suspenso apenas por sua língua", afirma o cientista.

'192 hambúrgueres de uma só vez'

Na realidade, descobrir que este sapo-boi engoliu outro sapo menor não é muito raro, mas há algo estranho em relação a esta dupla em particular.

Depois da descoberta revelada pela tomografia, Kleinteich dissecou o corpo do sapo e observou detalhes ainda mais interessantes, que ele relatou em um artigo na revista científica Salamandra.

A presa está praticamente intacta, o que indica que a digestão nem começou. Isso sugere que o predador morreu logo depois de ter engolido o sapo menor.

Kleinteich identificou a presa como sendo um filhote de rã da espécie Lithobates pipiens. O problema é que essa espécie é típica da América do Norte e não convive na natureza com o sapo-boi, o que sugere que ambos os animais viveriam em cativeiro.

A presa ocupava 21% do volume total do sapo-boi e tinha um peso equivalente a 25% do de seu predador - quase a mesma coisa que um homem médio comer 192 hambúrgueres de uma só vez.

Será, então, que foi esse apetite voraz que acabou com a vida do sapo-boi?

Kleinteich acredita "ser possível", mas ressalta que ele não é um especialista em "veterinária forense" e que não sabe de onde o espécime veio.

"Imagino que, como o pé (da presa) ainda estava dentro da cavidade oral do sapo-boi, isso pode ter dificultado a respiração do predador de maneira a matá-lo", explica o zoólogo.

"No entanto, os sapos têm um metabolismo bem baixo e conseguem fazer boa parte da troca de oxigênio pela pele. Eles conseguem sobreviver por várias horas com uma presa na boca. Então, outra coisa pode ter provocado sua morte", conclui.

Infelizmente, nunca saberemos ao certo se este sapo-boi tinha o olho maior que a barriga e acabou se empanturrando além da conta. Mas a história serve para mostrar como os cientistas ainda estão revelando os segredos contidos nos animais guardados em museus de todo o mundo.