Cólica menstrual forte não é natural, alerta especialista em endometriose

Tatiana Pronin
Do UOL Ciência e Saúde

Quase toda mulher tem, ou já teve, cólica menstrual. Em muitos casos, um simples analgésico resolve o problema. Para algumas mulheres, porém, toda menstruação é um verdadeiro martírio, que chega a prejudicar o trabalho ou os estudos. Se esse é o seu caso, atenção: a cólica forte é o principal sintoma da endometriose, doença ainda pouco conhecida que, segundo especialistas, afeta cerca 6 milhões de mulheres no Brasil e é uma das principais causas de infertilidade feminina.

A doença é caracterizada pela presença de endométrio (mucosa que reveste o útero) em local indevido, ou seja, fora da cavidade uterina. O tecido pode ir para ovário, intestino, bexiga, e até para os pulmões. Os fatores que dão origem ao problema ainda são discutidos pelos médicos. Mas sabe-se que ele é cada vez mais frequente à medida que as mulheres adiam a gravidez. "Quanto mais a mulher menstrua, mais ela fica exposta à doença", explica o médico Eduardo Schor, chefe do setor de endometriose da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Em entrevista ao UOL Ciência e Saúde, Schor também conta que a dioxina, substância tóxica presente na produção de plástico e outros derivados de petróleo, também pode ter relação com o aumento da endometriose. Mas isso ainda é alvo de investigações científicas. O fundamental, segundo ele, é que médicos e mulheres conheçam a doença para que ela seja diagnosticada o quanto antes, evitando complicações como a perda do útero e ovários.

UOL Ciência e Saúde: O que é endometriose?
Eduardo Schor: Quando a mulher menstrua, é o endométrio (mucosa que reveste o interior da cavidade uterina) que descama. Em 80% das mulheres, uma parte desse endométrio volta e cai dentro da pelve. É o que chamamos de menstruação retrógrada, que não é necessariamente sinal de doença. Nas mulheres com endometriose, porém, essas células formam o que chamamos de implantes. Toda vez que a mulher menstrua, aquele pedacinho de endométrio no lugar errado "menstrua" também, e a doença progride. Esses implantes podem ir para ovário, intestino, bexiga, e até para os pulmões. Recentemente recebi o vídeo de uma menina de 14 anos que tem foco de endometriose no olho: quando ela menstrua, ela chora sangue. Mas isso é raríssimo.

UOL Ciência e Saúde: Qual o perfil de mulher com mais chance de ter a doença?
Schor: Normalmente a doença é diagnosticada em mulheres entre 25 e 35 anos. No entretanto, sabemos que a endometriose começa mais cedo. Hoje acreditamos que começa na adolescência. Jovens que têm parentes com a doença na família também devem ficar atentas. As mulheres que começam a menstruar mais cedo também têm mais chance de ter endometriose.

UOL Ciência e Saúde: Quais os sintomas da endometriose?
Schor: O sintoma principal é a cólica, mas também pode haver dor durante a as relações sexuais e infertilidade. Metade das mulheres que busca clínicas de Reprodução Assistida hoje têm como causa da dificuldade para engravidar a endometriose. Já nos estágios mais avançados, também pode haver outros sintomas, dependendo do local onde a doença se instala. Se estiver no intestino, por exemplo, pode aparecer sangue nas fezes.

UOL Ciência e Saúde: Por que é tão difícil diagnosticar a doença?
Schor: Em geral, a mulher acha que é normal sentir cólica e a doença passa despercebida. Ela toma anti-inflamatório, vai trabalhar, mas passa mal o dia todo. O problema é que a paciente nem sempre volta ao médico para reclamar que a dor continua. Ela vai tentando outros anti-inflamatórios, troca de pílula, de médico, e a doença continua evoluindo, até causar um comprometimento maior. Um levantamento mostrou que, do início dos sintomas até o diagnóstico da doença, o tempo médio é de oito anos. Muitas passam por quatro, cinco ginecologistas até descobrir o problema, o que é um absurdo.

UOL Ciência e Saúde: Toda mulher que tem cólica menstrual pode ter endometriose?
Schor: Não. A cólica da mulher que tem endometriose é progressiva, ou seja, com o passar do tempo ela vai piorando. As medicações usualmente utilizadas deixam de surtir efeito e, em alguns anos, a mulher já não consegue mais realizar suas atividades diárias. A cólica "normal" é aquela que passa com um simples analgésico ou anti-inflamatório.

UOL Ciência e Saúde: O ultrassom pélvico, que se faz nos exames de rotina, não mostra essa presença anormal de endométrio?
Schor: Não. Nos estágios iniciais, quando os implantes são pequenos, o exame não detecta nada. Mesmo o ultrassom transvaginal só mostra a doença quando o estágio já está avançado. Existe um marcador sanguíneo, o CA-125, descoberto para diagnóstico de tumor de ovário, que está aumentado em 40 a 50% das mulheres com endometriose. Mas, como ele não aparece em todos os casos, especialmente nos iniciais, não deve ser usado como exame preventivo. Em resumo, o diagnóstico da doença é clínico. Ou seja, o diagnóstico da doença é clínico.

UOL Ciência e Saúde: O que origina a endometriose?
Schor: Há duas linhas de pesquisa. Uma defende que a doença está no útero, ou seja, a mulher com endometriose teria uma série de alterações e, por isso, as células que caem na pelve causam problema. Outra parcela defende que a doença está ligada a questões imunológicas - o organismo não conseguiria combater essas células que voltam pela menstruação retrógrada. E há a propensão genética, também. Quem tem caso de endometriose na família tem sete vezes mais chances de ter a doença. Mas é difícil que as mulheres, hoje, tenham essa informação, porque suas mães e avós engravidavam mais cedo e, assim, não desenvolviam a doença.

UOL Ciência e Saúde: A gravidez protege a mulher da endometriose?
Schor: Quanto mais a mulher menstrua, mais ela fica exposta à doença. A gravidez, no início da doença, também pode funcionar como tratamento, por causa do hormônio progesterona. É por isso que existe aquele mito de que cólica passa depois que a mulher engravida - isso acontecia antigamente, quando as mulheres se casavam e tinham filhos cedo. Hoje, com a mudança dos hábitos de vida da mulher moderna, a incidência da doença vem aumentando.

UOL Ciência e Saúde: Como é o tratamento?
Schor: Se a endometriose estiver no começo, o tratamento é suspender a menstruação, com uso contínuo da pílula, DIU com hormônios ou injeções. Mas isso só resolve quando a doença é diagnosticada cedo. Nos estágios mais avançados, o tratamento pode ser a menopausa induzida por medicamentos e a cirurgia. Tira-se um pedaço do intestino, os ovários ou a trompa, dependendo de onde estiver o foco. Há mulheres que, mesmo sem filhos, pedem para tirar tudo, tamanha é a dor que a doença provoca. Em alguns casos, pode-se até indicar fisioterapia porque a dor provoca alterações posturais que continuam mesmo depois do tratamento. Por isso, nossa briga é chamar a atenção para o diagnóstico precoce: esclarecer as jovens, e também os médicos, que ter cólica forte não é normal.

UOL Ciência e Saúde: A doença está mais frequente, ou é o diagnóstico que melhorou?
Schor: Temos diagnosticado cada vez mais a doença, e presenciado casos cada vez mais avançados. Isso ocorre porque a mulher está adiando a gravidez, em função do papel que assumiu no mercado de trabalho. Mas também há estudos que indicam a possibilidade de que haja algum fator ambiental envolvido. Uma das substâncias que pode ter relação com o aumento da endometriose é a dioxina, um poluente usado na produção de plástico e outros derivados de petróleo, mas isso ainda está sendo investigado.

UOL Ciência e Saúde: Se a mulher pretende continuar adiando a gravidez, então a saída é não menstruar?
Schor: Isso é controverso. Nos casos iniciais de endometriose, a pílula e outros métodos para suspender a menstruação são o tratamento indicado. Já nas mulheres saudáveis, é preciso analisar o custo-benefício, porque os hormônios têm seus efeitos colaterais. A proteção ideal seria engravidar mais cedo.

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