Baterias de lítio representam perigo para crianças pequenas

Por Tara Parker Pope
The New York Times

  • Getty Images

    Cerca de 3.500 casos de ingestão de baterias pequenas são reportados anualmente a centros de controle de envenenamento nos EUA

    Cerca de 3.500 casos de ingestão de baterias pequenas são reportados anualmente a centros de controle de envenenamento nos EUA

No último outono, Aidan Truett, de 13 meses, de Hamilton, em Ohio, desenvolveu o que pareceu ser uma infecção das vias respiratórias. Ele perdeu o interesse em comida e vomitou algumas vezes, mas os médicos atribuíram a condição a um vírus. Depois de nove dias de sintomas graves e mais consultas médicas, o hospital solicitou um raio-X para verificar se poderia se tratar de pneumonia.

O que os médicos encontraram foi algo totalmente inesperado. A criança tinha ingerido uma bateria “botão”, um daqueles discos achatados usados em controles remotos, brinquedos, cartões musicais, balanças de banheiro e outros eletrônicos usados em casa.

A bateria foi cirurgicamente removida no dia seguinte, e Aidan foi mandado para casa. Mas nem os médicos, nem os pais perceberam que os danos já tinham sido feitos. A corrente da bateria tinha deflagrado uma reação química no esôfago da criança, queimando sua parede e atacando a aorta. Dois dias depois da remoção da bateria, Aidan começou a tossir sangue, e logo morreu por essas lesões.

Até hoje, os pais de Aidan não sabem de onde veio a bateria.

“Não queremos nunca que outros pais vivam isso”, disse Michelle Truett, mãe de Aidan. “Não sabia o quanto essas baterias eram perigosas, e quero que mais pessoas saibam desses perigos”.

Essas mortes são extremamente raras. Houve menos de dez casos documentados nos últimos seis anos. Mas a ingestão de baterias de lítio, que as crianças podem confundir com doces e idosos, com medicação, é um problema surpreendentemente comum, documentado esta semana em dois relatórios do jornal médico “Pediatrics”.

Cerca de 3.500 casos de ingestão de baterias pequenas são reportados anualmente a centros de controle de envenenamento nos EUA. Porém, apenar disso ocorrer há anos, o desenvolvimento de baterias de lítio maiores e mais fortes aumentou o risco de complicações graves.

Dados do National Capital Poison Center, em Washington, descobriram um aumento substancial em complicações graves decorrentes da ingestão de baterias nos últimos anos, de menos de 0,5% (cerca de 12 casos por ano) para cerca de 3% (quase 100 casos por ano), com base em uma revisão de 56 mil casos desde 1985.

Entre as complicações mais graves, a reação química deflagrada pelas baterias pode prejudicar suas cordas vocais, deixando as crianças com sussurrando eternamente. Danos ao trato gastrointestinal significam que algumas crianças precisam de tubos de alimentação e várias cirurgias.

“As lesões são muito mais sérias”, disse o Dr. Toby Litovitz, diretor e principal autor de ambos os artigos da publicação “Pediatrics”. “Você certamente não quer isso dentro do esôfago do seu filho”.

Maior risco

As baterias que representam maiores riscos são aquelas que começam com o número 20, que significa 20mm. Elas são mais novas e mais fortes que os modelos mais antigos. Baterias com numeração 2032, 2025 e 2016 são responsáveis por mais de 90% das lesões graves.

“A indústria mudou para essa bateria, e tem um apelo bastante popular”, disse Litovitz. “Há várias razões para usar esta bateria, mas o problema é que devemos usá-la de uma forma segura”.

Regras federais de segurança exigem que os brinquedos que usam baterias tenham compartimentos trancados com parafuso. Mas os dispositivos direcionados a adultos – como balanças de banheiro ou controles remotos – muitas vezes armazenam suas baterias com uma simples cobertura de plástico que podem cair ou ser facilmente removida.

Foi isso que aconteceu quando Kaiden Vasquez, de Bristow, Virgínia, de apenas 13 meses, pegou o controle remoto da estação para iPod do pai. De alguma forma ele desalojou a bateria e a engoliu. Mas seus pais não perceberam que a bateria estava faltando quando ele começou a gritar histericamente e não se acalmava.

Médicos da emergência diagnosticaram gastrenterite, mas uma semana depois o pediatra da criança solicitou um raio-X e viu o que ele achava ser uma moeda. Quando a peça foi removida, os médicos descobriram a bateria e mantiveram Kaiden sob observação. A bateria tinha queimado um buraco em seu esôfago e traqueia, e ele precisou de um tubo de alimentação e dois meses de cuidados domiciliares.

Keiden, que completa 3 anos em julho, se recuperou, embora o grave refluxo depois do incidente tenha prejudicado seus dentes.

“Não deixo nenhuma dessas baterias de disco entrar em casa”, disse a mãe de Kaiden, Amy Vasquez, que tem outras três crianças pequenas. “Nunca pensei que um controle remoto causaria tanto mal a um filho”.

A ingestão de baterias também é um problema entre os idosos, que muitas vezes confundem baterias de dispositivos de audição com remédios. Mas, nesses casos, a bateria normalmente não fica presa, pois o trato digestivo é maior e a bateria usada em dispositivos auditivos é menor.

Compartimento

Quando crianças engolem baterias, geralmente não é porque a encontram soltas pela casa. Em 60% dos casos envolvendo crianças com menos de 6 anos, o pequeno removeu a bateria do dispositivo eletrônico. O problema é que a maioria dos pais nem percebe quando isso acontece, embora estudos mostrem que a bateria começa a causar danos graves apenas duas horas depois da ingestão.

“É um prazo difícil, pois muitos casos não são testemunhados”, disse Litovitz. “As crianças apresentam sintomas que não são específicos, os pais não sabem que a bateria foi engolida – isso torna difícil o diagnóstico por parte dos médicos”.

Litovitz disse que o problema precisava ser combatido por produtores de dispositivos eletrônicos, que deveriam tornar mais seguros os compartimentos de baterias em todos os itens, não apenas brinquedos.

“As crianças têm fácil acesso a controles remotos, relógios, controles de abertura de garagem”, ela disse.

“Nossa grande tarefa é fazer com que a indústria faça algo em relação ao compartimento da bateria, mas os pais também precisam saber que devem lidar com essas baterias com muito mais vigilância e mantê-las fora do alcance dos pequenos”.

Cara George, de Littleton, no Colorado, trabalha para aumentar a conscientização acerca das baterias de lítio desde que sua filha Brenna, com 18 meses, morreu depois de ingerir uma, há dois anos.

“Acho que deveria haver alertas em todos os itens contendo baterias”, disse George. “Elas estão presentes em cartões musicais e livros musicais infantis. Elas estão em toda parte”.

© 2010 New York Times News Service
 



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