Complicações associadas ao diabetes

Ceres Prado
Do UOL Ciência e Saúde
Em São Paulo

As complicações do diabetes são doenças que podem ocorrer ao diabético por causa do mau controle da glicemia, especialmente se as altas taxas de glicose (açúcar) sanguíneas permanecerem durante anos. A glicose em excesso no sangue causa danos em diversos tecidos do corpo - grande parte das complicações está relacionada a problemas nos vasos sanguíneos que, além de conterem a glicose, levam nutrientes e recolhem toxinas dos tecidos corporais. Esses vasos podem ser bloqueados ou danificados pela glicose em excesso, o que causa danos nos órgãos que irrigam. A glicemia de jejum considerada normal é 100 mg/dl, até 126 mg/dl ela está alterada e acima de 126mg/dl há o diagnóstico de diabetes.

Entenda as metas de glicemia para diabéticos

Veja algumas das complicações mais comuns do diabetes:

Sistema Nervoso

A neuropatia diabética (ND) é a complicação que afeta as células nervosas, inclusive os nervos periféricos. Ela é diagnosticada quando há sinais ou sintomas do mau funcionamento e são excluídas outras causas, como indicam as Diretrizes para o Diagnóstico e Abordagem Ambulatorial da Neuropatia Diabética Periférica.

Segundo Denise Reis Franco, diretora da Associação de Diabetes Juvenil (ADJ), cerca de 50% dos pacientes com mais de 20 anos de diabetes vai apresentar algum grau de neuropatia, como perda do tato e da sensibilidade à temperatura e à dor.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em alguns casos, a ND está também associada à lesão de fibras nervosas grossas, com alterações na sensação vibratória e perda da sensibilidade protetora dos pés. É comum também que, com a presença de neuropatia, existam alterações biomecânicas dos pés, que evoluem com deformidades e alterações nos pontos de pressão na planta do pé, aumentando a chance de feridas e ulcerações nos pés. Por isso a neuropatia é um fator de risco para o desenvolvimento do pé diabético.

A doença afeta ainda células do sistema nervoso central, que controlam o funcionamento do sistema nervoso autônomo, que controla os órgãos que não são controlados conscientemente. A neuropatia autonômica diabética é classificada em subclínica (sem sintomas) ou clínica (com sintomas), e o tratamento em geral é difícil. O mau controle do metabolismo e a ocorrência de fatores de risco cardiovascular (como obesidade e colesterol alto, por exemplo) parecem estar associados com seu desenvolvimento.

Os danos podem atingir o sistema digestivo (funcionamento mais lento, falta de apetite, náuseas, constipação), urinário (perda de sensação da bexiga cheia e dificuldade para esvaziá-la completamente), reprodutor (impotência em homens e falta de lubrificação em mulheres), além disso, pode haver alterações no controle da pressão arterial, do coração (dificuldade para acelerar e desacelerar os batimentos), e do suor (excesso ou falta de sudorese).

Olhos

Segundo a SBD, esta complicação ocorre porque minúsculos vasos sanguíneos na parte traseira dos olhos são bloqueados, então, a retina sofre com a falta de oxigênio e é danificada. Os vasos podem ainda se enfraquecer e romper, liberando sangue, fluídos e gordura no olho, causando a vista embaçada. Este quadro é o da retinopatia não proliferativa, que dificilmente leva à cegueira, a não ser que ocorra na mácula, parte da retina mais próxima do nervo ótico, que é responsável pela maior parte da nossa visão. A retinopatia pode evoluir, na minoria dos casos, para a forma proliferativa.

A retinopatia proliferativa é mais grave e pode causar perda da visão. Neste caso, novos vasos se formam na retina e ramificam-se para outras regiões do olho, o que pode causar vazamento de sangue dentro do olho, o que atrapalha a visão. Com o rompimento dos vasos são formadas pequenas cicatrizes na retina que mudam de tamanho causando pequenos descolamentos da retina que podem levar à cegueira, informa o Guia Completo sobre Diabetes da Associação Americana de Diabetes (Ada, sigla em Inglês).

Segundo Franco, a retinopatia diabética tem origem multifatorial, mas a presença de hiperglicemia crônica, ou seja, a glicemia alta por muito tempo, é um fator essencial. Não há relato de casos de retinopatia diabética em indivíduos sem histórico de hiperglicemia crônica. Ela explica que para a prevenção da doença, além do controle da glicemia, recomenda-se o exame de fundo de olho pelo menos uma vez ao ano como rastreamento dessa complicação.

É importante lembrar que a vista embaçada é um dos sintomas de hiperglicemia (excesso de glicose no sangue), mas isso não está necessariamente relacionado à retinopatia, ou seja, se a glicemia está alta você pode ter a vista embaçada pelo excesso de glicose no olho, mas isso não está relacionado a danos permanentes na visão.

Para ter certeza de como está a retina é necessário fazer o exame de fundo de olho periódico, lembrando que o diagnóstico precoce possibilita melhores chances de recuperação da visão.

Sistema cardiovascular

A maior parte dos problemas cardiovasculares ligados a diabetes tem relação com a obstrução parcial ou total das artérias. As altas glicemias aceleram a aterosclerose (endurecimento das artérias) e a deposição de gorduras nas paredes dos vasos sanguíneos.

O diabetes aumenta o risco de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e doença vascular periférica. A doença tem sido vista como um equivalente de doença coronariana, e por outro lado, muitos portadores de doença cardiovascular, se investigados, apresentam diabetes ou seus estágios pré-clínicos (antes de apresentar sintomas), especialmente intolerância à glicose, segundo Franco.

A endocrinologista completa que pacientes com diabetes tipo 2 têm um risco de mortalidade por doença cardiovascular de 2 a 4 vezes maior do que nos não diabéticos. Além disso, a doença ocorre mais precocemente e é mais grave nos diabéticos. Sua prevalência chega a  55% entre adultos diabéticos em comparação com 2 a 4% na população geral.

Os problemas cardiovasculares associados ao diabetes podem aumentar também problemas na circulação periférica, que dificultam a cicatrização de feridas e fornecimento de nutrientes para as extremidades do corpo e podem chegar a causar amputação de membros por necrose.

Pés

O pé diabético é uma das complicações mais temidas entre os pacientes, conta Denise Franco, da ADJ. Ela é decorrente da associação de neuropatia periférica sensitivo-motora (falta de sensibilidade e problemas no movimento das extremidades), doença vascular periférica (problemas na circulação sanguínea), úlceras nos pés, artropatia de Charcot (problemas nas articulações e ossos causados pela perda de sensibilidade) e infecções.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o "pé diabético" como situação de infecção, ulceração ou também destruição dos tecidos profundos dos pés, associada a anormalidades neurológicas e vários graus de doença vascular periférica, nos membros inferiores de pacientes com diabetes mellitus. O exame clínico regular é fundamental para a prevenção do pé diabético, que pode ser causa de amputações caso não seja tratado em tempo.

Rins

As glicemias descontroladas por longos períodos podem causar danos nas veias e capilares dos rins que responsáveis por filtrar o sangue, eliminando as toxinas e a glicose, quando ela se encontra em excesso no sangue. O diabético deve fazer exames de urina periodicamente para verificar se há presença de proteínas (microalbuminúria), que não deveriam ser eliminadas pela urina, e, quando são, indicam que os rins já não estão realizando seu trabalho adequadamente.

Além dos exames periódicos, a prevenção é feita pelo controle glicêmico, controle da pressão arterial e, no início da doença, o médico pode indicar a redução da ingestão de proteínas.

Em casos mais graves é necessária a diálise para auxiliar na filtragem do sangue e o transplante de rins, que no caso dos diabéticos costuma ser feito em conjunto com o transplante de pâncreas para controlar o diabetes e evitar que a glicemia elevada continue a trazer danos ao novo rim. Segundo João Eduardo Nunes Salles, médico endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, de 10 a 20% dos diabéticos morrem de falência renal.

Dentes

As altas taxas de glicose no sangue também causam a doença periodontal, que é uma inflamação da gengiva que, se não tratada, pode levar à perda dentária. Segundo Franco, o Centro de Pesquisa Periodontal da Escola de Medicina da Universidade de Nova York demonstrou que o tratamento das doenças gengivais (doença periodontal) reduz em até 10% a hemoglobina glicosilada (melhor controle do diabetes), pois as inflamações nas gengivas aumentam a taxa de glicose no sangue.

Pessoas com diabetes têm um risco 2,5 vezes maior do que pacientes não diabéticos de apresentar doença periodontal. O tratamento preventivo (consultas periódicas ao dentista e boa higiene bucal) também é essencial para a saúde bucal do diabético além do controle glicêmico.

Fontes: International Diabetes Federation (IDF), Denise Reis Franco (endocrinologista diretora da Associação de Diabetes Juvenil - ADJ), Maristela Bassi (nutricionista da ADJ), Saulo Cavalcanti (endocrinologista presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes - SBD), João Eduardo Nunes Salles (endocrinologista e professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo), American Diabetes Association, Associação Nacional de Assistência ao Diabético (Anad)



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