Deixar chorar até dormir é prejudicial à criança? Veja o que dizem os especialistas

Tatiana Pronin
Do UOL, em São Paulo

Faça uma pesquisa na livraria ou na internet e você vai encontrar uma lista imensa de títulos sobre o sono dos bebês. Muitos deles defendem que é preciso deixá-los chorar até dormir. O que para alguns especialistas é um mal necessário para que as crianças aprendam a pegar no sono sozinhas, para outros beira a crueldade.

Um dos livros mais famosos, indicado por muitos pediatras, é o do médico Richard Ferber, professor de neurologia na Harvard Medical School e diretor do Centro Pediátrico de Transtornos do Sono do Children’s Hospital, de Boston. Ele é um dos pioneiros na chamada técnica de choro controlado (também conhecida como espera progressiva ou extinção gradual).

Traduzido no Brasil como “Bom Sono” (Ed. Celebris), o livro de Ferber propõe que o bebê seja deixado acordado no berço. Depois que o choro começa, é preciso esperar alguns minutos antes de entrar no quarto para tranquilizá-lo por um ou dois minutos (sem pegar no colo) e sair novamente. A espera deve ser progressiva: na primeira noite, deve variar de três a dez minutos. Depois de uma semana, de 20 a 30 minutos.

Outro best-seller que segue a mesma linha é o “Nana Nenê” (Ed. Martins Fontes), do médico espanhol Eduard Estivill, diretor da Unidade de Alterações do Sono do Institut Dexeus, de Barcelona (há outro livro com o mesmo nome no Brasil, mas o do “Dr. Estivill” é o mais conhecido). Na primeira noite, ele recomenda que as esperas variem de um a cinco minutos. Na sétima, de 13 a 17 minutos.

Estivill avisa que muitos bebês chegam a vomitar durante o processo, e que isso não deve ser motivo de preocupação para os pais. Mas quem já passou mal de nervoso sabe que a sensação não é das melhores. Por isso, fica a dúvida: até que ponto o método não pode causar traumas para a criança?

O que dizem os estudos

Algumas pesquisas mostram que a espera progressiva tem eficácia e não causa prejuízos às crianças. Um deles, divulgado no periódico científico “Sleep”, em 2006, envolve a análise de 52 outros estudos. Críticos comentam que nenhum deles avalia os efeitos do método no comportamento a longo prazo.

Um trabalho publicado no “Early Human Development” pela pesquisadora Wendy Middlemiss, da Universidade de Norte do Texas, analisou as reações de estresse de bebês submetidos ao método na Nova Zelândia. Ela descobriu que o hormônio cortisol (secretado em situações de perigo) continua alto mesmo depois que eles param de chorar.

Diversos estudos já comprovaram que o excesso de cortisol pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro, em especial o de crianças pequenas. Você pode achar que uma ou duas noites de choro não causam mal a ninguém – e, se fizer uma pesquisa na internet, vai encontrar depoimentos de pais que tiveram sucesso com o método em pouco tempo. Mas também vai achar relatos de gente que não resolveu o problema mesmo depois de noites e mais noites de sofrimento.

Pesquisa feita com 1.000 mães no Canadá e coordenada pela professora de psicologia Lynn Loutzenhiser, da Universidade de Regina, mostrou que 53% delas já tentaram adotar a técnica de choro controlado para fazer o bebê abandonar os despertares noturnos. Dessas, apenas uma em seis teve sucesso.

Segundo a psicóloga, pais com acesso a orientação profissional foram mais bem-sucedidos na empreitada do que aqueles que seguiram livros ou conselhos de amigos. O problema é que são poucas as mães com acesso a médicos especializados em sono.

Limites (do bebê e dos pais)

Para o pediatra e homeopata José Armando Macedo, do grupo de estudos Espaço-Potencial  Winnicott, do Instituto Sedes Sapientiae, os livros são “corretos no conceito, mas não na forma de fazer”, já que não levam em consideração que cada bebê tem um limite de angústia. Além disso, certas mães são sensíveis demais para a tarefa e, uma vez fragilizadas, deixam o bebê mais inseguros ainda. “O método dá certo quando a relação está saudável, mas é um desastre quando a relação está ruim”, conclui.

O pediatra Sylvio Renan, autor do Blog do Pediatra, também acredita que deixar chorar pode ser fonte de trauma psicológico para a criança, dependendo da maneira como ela ou os pais reagem à situação. “De nada adianta instituir um método drástico, se os pais não têm estrutura para praticá-lo. Assim, oriento que os pais enfrentem [o choro] com naturalidade, imprimindo disciplina ao bebê, mas sem rigores exagerados, que podem mesmo aumentar a ansiedade e a insegurança”, diz.

Macedo pondera, no entanto, que os pais também têm seus limites. Às vezes eles chegam em um estado de esgotamento tão grande, que a única saída é deixar chorar.

Respeite as fases

Quem decide pelo método deve levar em consideração algumas peculiaridades de cada fase do bebê. A neurocientista Andréia Mortensen, professora assistente da Universidade Drexel, na Filadélfia (EUA) e colunista do Guia do Bebê avisa que nos 3 ou 4 primeiros meses qualquer tipo de “treinamento” de sono pode ser muito estressante para a criança, que necessita de um ambiente o mais próximo possível do útero materno.

Para o pediatra especializado em sono Gustavo Moreira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), deixar chorar também pode ser mais complicado entre 8 e 10 meses, fase em que a criança sofre a chamada “ansiedade de separação”.

Alternativas "gentis"

Quem é contra as técnicas que envolvem choro pode tentar sugestões alternativas, como as do pediatra William Sears, autor de “Crianças Bem Resolvidas” (Ed. Campus) e “The Baby Sleep Book” (sem tradução em português). O médico, que é professor associado da Universidade da Califórnia e trabalhou no Hospital for Sick Children, no Canadá, também mantém um site que inclui dicas para melhorar o sono dos bebês. Seus conselhos diferem bastante do que prega boa parte dos pediatras: ele é favorável a dormir com o bebê, por exemplo.

Outra opção é o livro “Soluções Para Noites Sem Choro” (Ed. M. Books), de Elizabeth Pantley, que não é médica, mas tem quatro filhos e decidiu estudar o assunto depois de testar o choro controlado e ver que o método não era para ela. “Cortava-me o coração ver meu bebezinho estendendo os braços, desesperado e inutilmente gritando ‘Mamã!’, o rostinho revelando terror e confusão”, conta a escritora, que é fã de  Sears e bastante elogiada por ele.

O título de Pantley acabou virando tema de uma comunidade brasileira no Orkut e no Facebook, que reúne dicas, notícias e trocas de experiências entre mães. “Gosto da posição da Pantley de buscar um meio termo entre uma posição de abnegação e a posição extrema dos ‘adestradores de bebês’, que afirmam que eles têm de dormir e se adequar às normas e horários dos adultos, o que é absurdo”, declara Mortensen, uma das moderadoras.

União e separação

A psicóloga brasileira Renata Kraiser, que chegou a ser acordada de 20 em 20 minutos pela filha durante a madrugada, também escolheu um caminho próprio, baseado nos preceitos jungianos. “Como psicóloga, sabia que deixá-la chorando poderia fazer com que ela experimentasse uma sensação de abandono que poderia contribuir para a formação de uma psique frágil e mal estruturada. Mas ao mesmo tempo, eu sabia que a frustração faz parte da vida e que eu não poderia suprir todos os desejos dela sempre”, relata.

Um método testado em sua tese de mestrado é apresentado no livro “O Sono do Meu Bebê – Volte a dormir, aplicando este método seguro, prático e carinhoso" (CMS Editora). A sugestão da psicóloga é trabalhar, em primeiro lugar, o conceito da união primária, ou seja, a sensação que o bebê deve ter de que a mãe é capaz de prover suas necessidades básicas. Para isso, ela propõe ações como massagens e o estabelecimento de rotinas.

A separação é o outro pilar da técnica, que envolve alguns minutos de choro para que o bebê desenvolva autonomia.  “É fundamental que os pais entendam a diferença entre o choro de frustração e o de abandono”, ressalta. O segundo tipo a psicóloga não recomenda.



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