Animal geneticamente modificado como o de "Jogos Vorazes" por enquanto é só ficção

James Gorman
The New York Times

  • Divulgação

    Pôster internacional do filme "Jogos Vorazes"

    Pôster internacional do filme "Jogos Vorazes"

Os organismos geneticamente modificados não são muito populares hoje em dia, com a exceção de um: o pássaro fictício que é personagem central do famoso filme e trilogia de livros "Jogos Vorazes". Trata-se do tordo, um cruzamento entre um rouxinol e um pássaro espião geneticamente modificado chamado gaio tagarela.

A história de "Jogos Vorazes" se passa em um futuro fictício no qual os adolescentes são obrigados a caçar e matar uns aos outros em competições anuais criadas para entreter e reprimir uma população altamente controlada. O tordo aparece pela primeira vez como um símbolo, quando Katniss Everdeen, a heroína, recebe um broche que retrata o pássaro. Os broches de tordo se espalharam pelo mundo real, mesmo que os pássaros continuem sendo ficção.

"Eles são pássaros engraçados, uma espécie de tapa na cara do Capitólio", explica Katniss no primeiro livro.

Esse tapa na cara corresponde a uma nova forma de medo perante a engenharia genética, quanto à possibilidade de organismos geneticamente modificados ou seus genes escaparem dos laboratórios e causarem estragos. O tordo é apenas uma dessas consequências não intencionais que resultam de uma criação fracassada do governo, ao qual Katniss se refere quando fala no "Capitólio". Mas ao invés de ser um desastre, o pássaro é um lembrete bastante apreciado das limitações do controle totalitário.

O pássaro se originou, explica Katniss, quando os governantes modificaram uma espécie não especificada de gralha para produzir uma nova criatura, um animal chamado gaio tagarela, pertencente ao Estado. A intenção era de que os gaios tagarelas funcionassem como gravadores biológicos dos quais ninguém suspeitaria. Eles escutavam conversas e depois retornavam aos seus mestres, reproduzindo-as.

Os gaios tagarelas, todos do sexo masculino, foram abandonados à morte quando as pessoas perceberam o que eles estavam fazendo. Como acontece com os organismos geneticamente modificados de hoje, não se esperava que os gaios tagarelas sobrevivessem na selva, mas eles cruzaram com rouxinóis e produziram um híbrido resistente capaz de imitar sons e cantos humanos, e sobreviveram, para a irritação do governo e o prazer da pessoas.

Deixando de lado a dúvida quanto a se as gralhas realmente poderiam ter cruzado com os rouxinóis – essa é uma espécie de conto de fadas, afinal de contas – a escolha das espécies parece plausível. As gralhas, juntamente com os corvos, pertencem a um grupo altamente inteligente de pássaros chamado de corvídeos. E as gralhas são ladras e espiãs por natureza, pois prestam atenção em onde as outras gralhas escondem a comida, por exemplo, para roubá-la mais tarde.

Os rouxinóis, é claro, têm uma capacidade excepcional de imitar o canto de outros pássaros. Coincidentemente ou não, Thomas Jefferson, um amante dos pássaros e da liberdade, tinha um rouxinol como animal de estimação na Casa Branca.

Ferramentas disponíveis

Perguntei a Joan Slonczewski, microbiologista e escritora de livros de ficção científica que trabalha no Kenyon College, em Ohio, sobre o que ela acha do tordo. Slonczewski, cujos livros mais recentes incluem um texto e um romance chamado "The Highest Frontier" ("A Mais Alta Fronteira", em tradução livre), ministra um curso chamado "A Biologia na Ficção Científica". As ferramentas necessárias para modificar organismos já se dissiparam amplamente na indústria e além dela.

"Hoje qualquer um pode criar uma startup", disse ela.

Isso não é um exagero. Cada vez mais se faz biologia por conta própria. É possível adquirir a tecnologia para copiar pedaços de DNA por algumas centenas de dólares no eBay, como disse Carl Zimmer em matéria publicada no The New York Times em março.

Quanto a onde a biologia feita por conta própria pode chegar, Freeman Dyson, um estudioso do Instituto de Estudos Avançados conhecido por suas ideias provocativas, apresentou uma opinião no New York Review of Books em 2007. Ele imaginou as ferramentas da biotecnologia sendo acessíveis a todos, inclusive às pessoas que criam animais de estimação e às crianças, levando a "uma explosão na diversidade de novos seres vivos".

Mais cedo ou mais tarde, escreveu ele, a mistura de genes feita por seres humanos dará início a uma nova etapa da evolução. Ao longo desse processo, se Zimmer estiver certo, o mundo pode ter de lidar com mais tordos feitos por conta própria do que consegue suportar.

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