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Ameaça de extermínio de salamandra por fungo mobiliza pesquisadores dos EUA

Biólogo recolhe amostra de salamandra para fazer teste para presença de fungo - Christopher Capozziello/The New York Times
Biólogo recolhe amostra de salamandra para fazer teste para presença de fungo Imagem: Christopher Capozziello/The New York Times

James Gorman

07/06/2016 09h53

O Lago Warren no sul de Connecticut, delimitado por carvalhos e bordos que fazem sombra, é um belo lugar para pescar robalos ou percas. Ou, caso prefira, caçar tritões, um tipo de salamandra com pintas vermelhas.

Por que alguém iria querer caçar salamandras é uma questão válida. Mas, para Evan Grant, que este mês fiscalizou as margens do Lago Warren e vasculhou as águas com óculos de sol polarizados, a resposta é que muitas espécies de salamandras nos Estados Unidos, incluindo os tritões que ele perseguia, podem estar à beira de um assalto fúngico, como o que devastou algumas populações de sapos e rãs no mundo todo.

Em 2013, cientistas descobriram que um fungo chamado Batrachochytrium salamandrivorans, conhecido como Bsal, estava atacando as salamandras na Europa. Depois, determinaram que as espécies dos Estados Unidos também estavam vulneráveis à infecção. E, no começo deste ano, o Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos baniu temporariamente a importação de 201 espécies de salamandras que poderiam transportar o fungo para o país.

O serviço de vida selvagem propôs uma proibição permanente, e acabou de fechar um período de comentários públicos sobre essa proposta. Uma decisão final sairá nos próximos meses.

Enquanto isso, a Pesquisa Geológica dos Estados Unidos está monitorando populações de salamandras vulneráveis para descobrir qualquer sinal inicial de infecção. Até agora os pesquisadores não encontraram evidências do Bsal.

Grant, biólogo que pesquisa a vida selvagem para a Iniciativa de Pesquisa e Monitoramento de Anfíbios da agência, já esteve para cima e para baixo na costa leste caçando tritões, raspando sua pele para verificar se há infecção e mandando amostras para o Centro Nacional de Saúde da Vida Selvagem em Madison, em Wisconsin.

Em meados de maio, Grant calçou botas de borracha e carregou uma rede para explorar o lago, em Newton, Connecticut, com Adrianne Brand, bióloga de vida selvagem que também está trabalhando para a Iniciativa.

Não que alguém realmente precise de uma razão. Os tritões, e as salamandras em geral, são simplesmente legais.

Elas não se desenvolvem de ovos até ficarem adultas da maneira que mamíferos e répteis fazem. Possuem vários estágios, de ovo para larva para adulto e, em qualquer espécie, podem pular um estágio, trocar de habitat, água ou terra, ter pulmões ou ficar com as guelras. Algumas absorvem oxigênio pela pele e não têm nem pulmões nem guelras. Os tritões, em particular, são como aparelhos de defesa ecológicos, mudando de habitat e de fisiologia dependendo do que é necessário para se manter vivos.

Os dois pesquisadores não encontraram tritões no lago, então se dirigiram para um caminho pantanoso nos bosques da floresta estadual Paugussett, além de uma montanha que fica em um subúrbio. A água, na altura dos joelhos, estava preta com detritos, rodeada de mata.

Depois de alguns minutos balançando a rede na água, que corria por cima de suas botas, Grant avisou: "Ei, tritão!".

O animal tinha cerca de oito centímetros e foi identificado como macho por causa do formato de sua cauda e das manchas ásperas no interior de suas pernas traseiras, com uma cor marrom esverdeada escura e manchas vermelhas que avisam os predadores sobre as toxinas em sua pele.

Ele raspou a pele e cortou as extremidades das espátulas para um teste.

Os Estados Unidos são considerados um tesouro global de diversidade de salamandras, e o estudo da Pesquisa Geológica está concentrado em tirar amostras de poucas áreas que possuem espécies como o tritão, conhecido por ser vulnerável ao Bsal, e que estão perto de portos aonde chegam os animais domésticos importados, como Nova York e Nova Orleans.

De 2004 a 2014, de acordo com o Serviço de Peixes e Vida Selvagem, cerca de 2,5 milhões de salamandras foram importadas como animais domésticos para os Estados Unidos, muitas da Ásia, onde o fungo parece ter se originado.

Os cientistas acreditam que foi a importação de salamandras para a Europa que levou ao aparecimento do fungo na Holanda, Bélgica e Inglaterra.

As salamandras podem servir como um tipo de sistema precoce de alerta para problemas ambientais e estão profundamente enraizadas nos ecossistemas florestais, de modo que sua redução ou desaparecimento poderia ter consequências imprevisíveis. Mas os cientistas sempre foram fascinados pelo tipo de flexibilidade em suas histórias de vida que não é visto na maioria dos vertebrados.

O tritão é um bom exemplo. Sean Sterrett, ecologista de vida selvagem da Universidade Estadual da Pensilvânia e da Pesquisa Geológica, que trabalha com Grant, diz que o tritão emerge de um ovo colocado na água como uma larva parecida com um girino, metamorfoseando-se em uma pequena salamandra com guelras.

Aí começa a diversão. Ele vive por um ano ou dois dessa maneira e depois se desenvolve para a forma terrestre. Ou não.

Algumas vezes, vai diretamente para uma forma de adulto aquático. E apesar de um adulto normalmente ter pulmões, pode manter as guelras.

A forma terrestre juvenil é conhecida de qualquer pessoa que ande nas florestas do nordeste americano, principalmente depois da chuva, quando estão mais ativas. Algumas vezes são mais laranjas do que vermelhas, mas, de qualquer maneira, é impossível ignorá-las.

Esses filhotes normalmente passam de três a seis anos na terra, comendo insetos, minhocas e qualquer coisa viva que seja pequena o suficiente. Mas pode ser que fiquem apenas um ano na terra.

Eventualmente, os jovens voltam para a água, onde se tornam mais escuros e esverdeados com manchas vermelhas, cruzam e vivem suas vidas. Mas pode ser que não.

Se o lago secar, a comida acabar ou o tritão sofrer por causa de muitas sanguessugas, pode voltar para a terra. E se um adulto ficar muito tempo ali, a pele muda para áspera e seca. Ele não precisa se ater a sua decisão, porém, porque pode voltar para a água quando quiser.

Em qualquer lugar, as salamandras comem o que podem. Os cientistas se referem a elas como "predadoras limitadas pela abertura da boca". Ou seja, se cabe na boa, significa comida.

E as salamandras parecem ter uma interpretação bem liberal do que "caber" significa. "Encontrei uma salamandra que comeu uma minhoca duas vezes o tamanho de seu corpo", conta Sterrett.

Muitas salamandras têm trajetos de desenvolvimento flexíveis. Algumas, determinadas, mantêm suas guelras e nunca saem da água. E possuem outras esquisitices -- as gigantes da China podem crescer até 1,80 metro e têm cheiro de urina envelhecida. Outras são capazes de esticar a ponta de suas costelas para fora da pele como instrumento de defesa. E algumas se envolvem em uma espécie de canibalismo que faz com que o pior moleque do parquinho pareça o Dalai Lama.

São as larvas da salamandra tigre. Em qualquer ninhada de ovos, algumas possuem cabeças particularmente grandes. "As com cabeças grandes são adaptadas para comer as outras larvas", explica Sterrett. As canibais prosperam com a dieta nutritiva de irmãos e não ficam em nada diferentes das outras quando adultas.

Claro, as próprias salamandras se tornam presas, mesmo com sua pele tóxica. "Os guaxinins tiram a pele delas", explica Grant. "Algumas vezes em um lago encontramos uma pilha de peles de salamandras." Mas não as cabeças. Os guaxinins aparentemente gostam dos cérebros.

Grant e Adrianne pegaram apenas cinco tritões no pântano do subúrbio e estão planejando voltar para colher mais amostras.

A pesquisa sobre as populações de tritões está na metade, diz Grant, e até agora eles não detectaram o Bsal. Caso apareça, o pesquisador espera que até lá eles saibam mais sobre quais áreas possuem populações que estão prosperando e como protegê-las.