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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Avanço do Taleban no Afeganistão é maior derrota externa de Biden até agora

Um combatente do Taleban - Getty Images
Um combatente do Taleban Imagem: Getty Images

Colunista do UOL

14/08/2021 04h05

Não foi Joe Biden quem enviou tropas para invadir e ocupar o Afeganistão, há quase 20 anos, atolando os Estados Unidos em sua mais longa guerra. Mas é Biden quem colherá os resultados da empreitada — na forma de derrota. A primeira derrota, aliás, da incipiente presidência de Biden, que como senador e como vice-presidente de Barack Obama sempre foi a favor de retirar as tropas americanas do país.

Recapitulando: os Estados Unidos entraram no Afeganistão no final de 2001 com o intuito de caçar os responsáveis pelos atentados de 11 de setembro, que mataram 2.996 pessoas em solo americano naquele ano, e expulsar do poder a milícia fundamentalista Taleban, cujo regime fundamentalista dava guarida à Al Qaeda do terrorista Osama Bin Laden — que por sua vez só foi morto por forças especiais americanas quase dez anos depois, em maio de 2011.

Em que pesem as consequências, a Guerra no Afeganistão teve uma justificativa plausível do ponto de vista da segurança nacional dos Estados Unidos. Ao contrário, por exemplo, da ocupação do Iraque, em 2003, cuja motivação foi flagrantemente fabricada pelo governo americano. O presidente que iniciou essas duas guerras foi o republicano George W. Bush.

No Afeganistão, o regime Taleban de práticas medievais, que punia adultério com apedrejamento e impedia as mulheres de estudar, foi substituído por um governo pró-Ocidente, mas gradativamente percebido como ilegítimo e corrupto pela população.

O Taleban nunca desapareceu completamente. Continuou forte em muitas regiões do país, ditando as regras sociais, organizando ataques para aterrorizar a própria população e formando a nova geração de combatentes.

Nesses 20 anos, 100.000 civis afegãos morreram ou ficaram gravemente feridos — por obra de todos os lados do conflito, inclusive dos americanos.

A invasão do Afeganistão marcou o início da Guerra ao Terror, que tinha por objetivo livrar os Estados Unidos — e o mundo — da ameaça do terrorismo islâmico. O perigo, hoje, é tido como muito menor do que anos atrás, mas não foi afastado por completo.

Biden herdou de seu antecessor, o ex-presidente Donald Trump, um processo de negociação envolvendo o Taleban e o governo afegão, com a promessa de retirar as tropas americanas do país em maio deste ano.

O novo presidente americano alterou o prazo, estabelecendo que as tropas remanescentes (cerca de 3.500 naquele momento) estariam fora do Afeganistão até 11 de setembro. Na prática, a retirada será completada antes, até o final deste mês.

Enquanto planejava a retirada, Biden prometeu às autoridades afegãs que a ajuda americana ao país continuaria. Isso já não tem importância alguma com o atual avanço do Taleban.

Biden foi criticado pela decisão de chamar de volta as últimas unidades de combate do país. O Taleban aproveitaria o vácuo deixado pelos Estados Unidos e, eventualmente, voltariam ao poder, diziam os adversários da medida.

No início de julho, o presidente americano disse que o avanço do Taleban não era "inevitável", pois seus combatentes não seriam páreo para o exército afegão, mais numeroso e treinado pelos próprios americanos.

Biden estava errado, como se vê pela situação atual no país. Na quinta-feira (12), o Taleban já havia tomado dez capitais provinciais. No dia seguinte, sexta-feira (13), foram mais cinco. Os integrantes da milícia Taleban agora estão a menos de 70 quilômetros da capital, Cabul.

As forças afegãs estão à beira do colapso. Nas cidades tomadas, a rotina de repressão de 20 anos atrás — com mulheres sendo punidas por não usarem burca, por exemplo — voltou. Funcionários públicos tidos como "leais ao Ocidente" são assassinados.

Prevendo o pior, embaixadas europeias fecharam as portas em Cabul. Os Estados Unidos enviaram 3.000 soldados à cidade para evacuar os cidadãos em funções não essenciais.

Está perdoado quem fizer o paralelo com o clima de pânico vivido durante a queda de Saigon, em 1975, que marcou a derrota americana na Guerra do Vietnã. Naquele episódio, os americanos faziam uma evacuação desesperada enquanto as tropas do Vietnã do Norte entravam na cidade.

Se entrar em Cabul, o Taleban poderá comemorar os 20 anos dos atentados terroristas de 2001 retomando o controle do país e impondo, novamente, as atrocidades de décadas atrás cometidas em nome da religião.

Os Estados Unidos entraram no Afeganistão para combater o terrorismo global e, no processo, livrar um povo, e especialmente as mulheres, de um regime fundamentalista cruel e tirânico. Duas décadas depois, Biden devolve o país ao mesmo regime fundamentalista, para a alegria também de jihadistas da Síria, da Líbia e do Paquistão que já estão a caminho para quem sabe refundar suas bases terroristas no Afeganistão.

O Afeganistão de fato era um atoleiro sem fim para os Estados Unidos, possivelmente sem solução, no sentido de se conseguir construir ali uma nação democrática, próspera e segura.

Mas o abandono dos afegãos à própria sorte envia a aliados dos Estados Unidos um péssimo recado. Enquanto isso, a China, que Biden aponta como um dos principais desafios em política externa de seu governo, prepara-se para reconhecer o novo regime do Taleban, caso ele venha a se instalar.

A primeira derrota externa de Joe Biden vem em dose dupla.