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Jamil Chade

Antes sem restrições, Suécia tem 100 mortes diárias por covid e muda tática

Pessoas esperam para embarcar em Stranvagen, em Estocolmo (Suécia), em julho - AFP
Pessoas esperam para embarcar em Stranvagen, em Estocolmo (Suécia), em julho Imagem: AFP

Colunista do UOL

16/11/2020 14h33

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Email inválido

Diante de uma segunda onda da covid-19 ainda mais intensa que a primeira, a Suécia abandona sua estratégia de permitir a abertura quase plena de sua sociedade e anuncia novas medidas de controle. Enquanto isso, a OMS (Organização Mundial da Saúde) soa alarme diante de recorde de casos do coronavírus e diz que governos que estão deixando o vírus da covid-19 circular estão "brincando com fogo".

Nesta segunda-feira, em sua coletiva de imprensa, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, foi cauteloso ao comemorar os resultados de testes de vacinas como da Moderna e Pfizer, indicando que está "extremamente preocupado" diante da proliferação recorde de novos casos da covid-19.

A OMS tem registrado mais de 600 mil novos casos por dia desde o fim de semana, um novo recorde. "Trata-se de um vírus perigoso. Aqueles que deixam o vírus circular livremente estão brincando com fogo", declarou Tedros. "Vamos ter mais sofrimento e impacto de longo prazo. Não há desculpa para inação", insistiu.

Para ele, deixar o vírus circular "vai levar a mais mortes, a mais sofrimento e um impacto na renda". "Não existe uma opção entre salvar vidas ou rendas. A forma mais rápida de abrir economia é lidar com vírus", insistiu.

Diante da explosão do número de casos pela Europa e nos EUA, Tedros não mede palavras para descrever o cenário internacional. "Estamos extremamente preocupados", disse. "Os sistemas de saúde estão próximos de um ponto de colapso e os trabalhadores do setor de saúde estão exaustos", disse.

Suécia abandona postura de abertura

A dimensão da nova onda levou até mesmo a Suécia a abandonar sua estratégia existente até agora de permitir que sua sociedade operasse praticamente sem restrições. O governo escandinavo foi usado de uma forma ampla por membros no Palácio do Planalto e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro como exemplo de um país que não fechou sua economia.

Nesta segunda-feira, porém, Estocolmo optou por mudar sua resposta e anunciar maiores controles. "A situação está piorando", disse o primeiro-ministro Stefan Lofven. Ao sair da primeira onda, no começo do ano, o governo chegou a dizer que uma segunda onda era "improvável".

Não haverá um lockdown total. Mas as reuniões que estavam permitidas até 50 pessoas em março foram cortadas de forma drástica. A partir de agora, os encontros devem se limitar a oito pessoas. Durante o verão, o número autorizado chegou a 300.

Número de mortes por dia chegou a superar 100

Hoje, a taxa de casos por cada 100 mil habitantes na Suécia é dez vezes superior aos números existentes na Finlândia e quatro vezes mais intensa que na Noruega. Os suecos também registram a maior aceleração em toda a Europa em casos de internações. Em pelo menos três dias da semana passada, o número de mortes superou a marca de cem.

O governo ainda pediu que as pessoas não circulem por academias de ginástica e que evitem bibliotecas. "Não saiam para jantar, não façam festas. Cancelem", apelou o chefe do governo. Para ele, apenas a proibição agora conseguirá segurar a explosão de casos. Teatros e cinemas também serão afetados, enquanto bares serão proibidos de servir álcool depois das 22h.

A população ainda está sendo instruída a evitar pegar transporte público, um desafio para o período de frio intenso.

Para Michael Ryan, diretor de operações da OMS, a mudança não deve ser vista como fracasso. "Não é o momento para recriminar. Todos os países tiveram de se adaptar à segunda onda", afirmou. Para ele, fica claro que máscaras funcionam.

A transmissão, de fato, atingiu até mesmo a OMS. Segundo a agência, apesar de seus protocolos, 65 pessoas já foram diagnosticadas com os vírus desde o começo da pandemia. 36 deles estiveram no prédio da organização. A entidade avalia ainda se existe um surto dentro do próprio prédio ou se as contaminações ocorrem por conta de a cidade de Genebra ter se transformado num dos epicentros da crise na Europa.

Imunidade de rebanho e emails polêmicos

Em meados do ano, a autoridade sueca responsável pela estratégia para lidar com a covid-19 foi alvo de uma polêmica depois que seus emails internos foram publicados por jornalistas locais. Neles, existem indícios de que os responsáveis avaliaram a possibilidade de criar uma "imunidade de rebanho" na população como forma de lidar com o vírus.

Nos emails, o chefe dos epidemiologistas do país, Anders Tegnell, aparece fazendo uma espécie de consideração sobre a validade de uma imunidade de rebanho. Na OMS, tal estratégia é considerada como inviável e moralmente questionável diante do número de mortes que poderia gerar.

A imunidade de rebanho é o termo usado para designar uma situação em que uma população acaba imunizada em 70%, seja por uma vacina ou pela proliferação do vírus. O resultado poderia ser a queda no ritmo do contágio pela doença. Mas, sem uma vacina, tal tática significaria eventualmente que uma parte da população não sobreviveria.

Os emails foram obtidos por meio da lei de liberdade de informação do país e publicadas pelo jornalista Emanuel Karlsten.

Num desses emails de março, Tegnell troca mensagens com o especialista Johan Giesecke, seu antecessor no cargo de epidemiologista chefe.

"Acredito que o vírus vai varrer como uma tempestade sobre a Suécia e infectar basicamente todos em um ou dois meses", escreveu Giesecke. "Acredito que milhares já estão infectados na Suécia. Tudo chegará ao fim quando tantos tiverem sido infectados e ficarem, portanto, imunes que o vírus não tem para onde ir (a chamada imunidade do rebanho)", completa.

Alguns dias depois, era Tegnell quem tocava no assunto: "certamente tem que ser o caso que à medida que a imunidade aumenta na população, a taxa de propagação da doença diminui", escreveu. "Portanto, obviamente não é o caso de que quando se chega à imunidade do rebanho, tudo pára de repente". Existe uma maneira de modelar como a propagação para"? questionou.

Em junho, Tegnell fez um mea culpa. "Se voltássemos a encontrar a mesma doença, acho que nos contentaríamos em fazer algo entre o que a Suécia fez e o que o resto do mundo fez", disse. Os dados oficiais do país indicaram que, na primeira metade de 2020, a Suécia registrou o maior número de mortes em 150 anos. Foram 51,4 mil óbitos no país, com todas as causas incluídas. Só o ano de 1869 foi pior, quando a fome abateu sobre o país que, naquele momento, tinha menos da metade da população atual.