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Plínio Fraga

Do desemprego em massa à fuga, Ghosn mostrou-se o rei do eufemismo

Carlos Ghosn deixou priisão em Tóquio após pagar fiança de R$ 17,8 milhões - Behrouz MEHRI/AFP
Carlos Ghosn deixou priisão em Tóquio após pagar fiança de R$ 17,8 milhões Imagem: Behrouz MEHRI/AFP

Colunista do UOL

02/01/2020 11h08Atualizada em 02/01/2020 15h21

A fuga espetacular do executivo Carlos Ghosn provou que o líder empresarial é também o rei do eufemismo. As notícias iniciais de sua escapada da prisão domiciliar no Japão relataram que Ghosn _ nascido no Brasil, com nacionalidade franco-libanesa _ "aparecera" no Líbano. Sob prisão domiciliar e com recursos judiciais negados, o verbo aparecer, em vez de fugir, só se explicava ali por eufemismo _ um benigno efeito da sentença de que cabe ao acusador o ônus da prova. A fuga de Ghosn só passou a ser tratada como tal depois de o empresário emitir nota confirmando que estava em Beirute, na qual justificava que escapara de um sistema judicial parcial que prima pela presunção da culpa.

Na carreira de executivo de sucesso, Ghosn sempre contou com o beneplácito da inocência em gestões desumanizadas, cujo tripé eram cortes, maximização dos lucros e minimização dos custos do trabalho. Ganhou o epíteto de "o assassino de despesas", "o senhor controlador de gastos", o "mestre do custo baixo". Num caso de marketing de sucesso, fechou cinco fábricas da Nissan, cortou 21 mil empregos e foi chamado de "gestor revolucionário", vencedor de diversos prêmios empresariais internacionais.

Ao ser preso no Japão por fraudes, Ghosn viu seu mundo ruir. Nunca deixou de lado, entretanto, o papel de showman que exercia com prazer. Saiu de uma audiência no Japão fantasiado de operário para tentar driblar os repórteres. Agora em sua fuga, uma emissora libanesa conjecturou, sem apresentar evidências, que Ghosn teria escapado da casa onde era mantido sob vigilância por 24 horas por autoridades japoneses de modo cinematográfico: dentro da mala do contrabaixo de um músico de banda que tocara em sua casa na noite da fuga, antevéspera do réveillon.

Carlos Ghosn viveu em Rondônia do nascimento aos seis anos. Sua família tinha empresas de borracha ali. Passou a adolescência em Beirute e cursou a faculdade em Paris. Após a graduação, Carlos Ghosn trabalhou na companhia de pneus francesa Michelin por 18 anos. Em 1996, foi contratado pela montadora francesa Renault como vice-presidente executivo, supervisionando fabricação, compras, pesquisa e desenvolvimento.

Depois que a Renault adquiriu uma grande participação na Nissan em 1999, Ghosn foi enviado para ajudar a transformar a empresa japonesa. Esteve por trás da constituição da aliança da Nissan com a Renault e a Mitsubishi. O executivo defendia que o mercado global de veículos de passeio era muito pulverizado. A parceria permitiu que as montadoras dividissem os custos de desenvolvimento de novos modelos, além de comprar componentes em conjunto. Investiu pesado também na produção de carros elétricos.

Com julgamento marcado para 2020 por fraude e ocultação de renda, Carlos Ghosn estava sob prisão domiciliar em um bairro nobre de Tóquio desde sua libertação sob fiança milionária em 24 de abril.

A história de Ghosn mostra como o mundo dos negócios pode criar heróis a partir da venda da narrativa adequada. Aos 65 anos, Ghosn já, já reaparecerá como fênix renascida das cinzas em alguma empreitada desde o Líbano.