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Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Quando vier a hora, direi pro médico: manda aí a real. Não quero sofrer"

Cena do filme a "A partida" (2008), em que um violoncelista desempregado desafia o tabu da morte no Japão por meio de ritos funerais - Divulgação/Divulgação
Cena do filme a "A partida" (2008), em que um violoncelista desempregado desafia o tabu da morte no Japão por meio de ritos funerais Imagem: Divulgação/Divulgação

Colunista do UOL

14/06/2022 04h00

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Esta é parte da versão online da edição desta segunda-feira (13) da newsletter da Thaís Oyama. Na newsletter completa, apenas para assinantes, a colunista traz a terceira parte do depoimento da jornalista Ana Michelle Soares, que recebeu diagnóstico de câncer metastático aos 32 anos e desde então se encontra sob cuidados paliativos. Aqui, ela conta o que gostaria de fazer antes de morrer e como imagina que sejam os momentos que antecederão a sua morte. Inscreva-se para receber a newsletter.

"Ainda tenho vontade de viver uma história de amor"

Tenho muita vontade de me apaixonar. Isso era uma coisa que eu queria viver ainda. Depois que me separei, voltei a periguetar.

A primeira balada que eu fui, estava careca, de peruca. Aí apareceu um boy gato, lindo, maravilhoso.

No dia seguinte, ele mandou mensagem. Marcamos de nos ver na quarta-feira e ele pediu pra ver o meu Instagram. Tinha todas as minhas fotos oncológicas lá, eu contando do meu tratamento. Óbvio que ele viu. Ficou aquele silêncio uma tarde inteira.

Na terça-feira, ele mandou mensagem dizendo que o dia seguinte estava começando a ficar muito corrido. Na quarta, escreveu: "Tive um problema aqui, talvez seja melhor deixar pro fim de semana". Ainda cheguei a falar pra ele: "Olha, eu estou careca mesmo, mas isso não me faz menos mulher". Ele: "Imagina, não é por isso, eu realmente tenho um compromisso". E nunca mais apareceu, claro.

(...)

"Já avisei: quando eu estiver ficando tantã, pode me sedar"

Com a minha doença, é difícil eu ter um siricutico do nada. O câncer segue um roteiro. Eu vou saber quando estiver morrendo. Quando as medicações começarem a falhar, vou saber que tem mais doença em progressão.

Não tenho medo de sentir dor. Acho que vai acontecer comigo como foi com a Renata, minha amiga irmã. Vou chegar para o médico paliativista e falar: "Manda aí a real". Aí, dependendo do que ele responder, vou ter de fazer a minha escolha.

E eu não me imagino fazendo outra escolha que não seja a de morrer com dignidade. Não quero chegar num ponto de sofrimento. No caso da Renata, o que falhou foi o fígado e ela teve encefalopatia. Começou a ficar muito confusa e agitada. Foi sedada na minha frente.

No meu caso, o processo deve ser parecido, porque a minha metástase é hepática. Então, já avisei que quando eu estiver ficando tantã, pode me sedar. Eu não quero que as pessoas tenham uma lembrança minha de sofrimento, de uma coisa pesada.

Se eu morrer agora, não vou ficar infeliz porque deixei de fazer alguma coisa, porque queria ter vivido um grande amor. Mesmo que eu tenha tido um amor sem retorno, eu me casei, tive uma história que pra mim foi amor, independente de não ter tido amor de volta.

Quando eu penso que posso morrer logo, o que me vem à cabeça é uma coisa bem mais boba. Eu adoro cantar enquanto estou guiando. Entro no carro e ponho música bem alta. Só bagaceira: Anitta, funk, essas coisas. Canto junto na maior altura e danço guiando. Eu gosto tanto de fazer isso que nessas horas é que me dá dó de morrer.

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A série "Vidas Íntimas", de depoimentos de pessoas desconhecidas com vidas extraordinárias, retorna em janeiro de 2023. A partir da semana que vem, a newsletter de Thaís Oyama tratará das eleições de 2022.