Narcotráfico faz pressão indireta para Exército deixar morro, diz especialista
Da Redação Em São Paulo
O coronel da reserva do Exército, Geraldo Cavagnari, pesquisador do NEE (Núcleo de Estudos Estratégicos), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), condena a atitude dos militares no caso que resultou na morte de três jovens, no morro da Providência, região central do Rio de Janeiro, classificando a ação de "criminosa e indecorosa". Entretanto, ele defende a atuação do Exército no episódio e afirma que o trabalho social no morro deve continuar.
"A revolta [dos moradores] é justificada por causa do assassinato. Mas nós não podemos esquecer que quem comanda a cabeça do pessoal da área é o narcotráfico. Eles mandaram o pessoal realizar esta ação [pressionar para a saída do Exército] e eles [moradores] estão realizando. Até por provocação. O Exército não vai sair porque o narcotráfico manda sair de forma indireta", disse.
Para o integrante do NEE, a imagem do Exército não fica abalada. "O que prejudica a imagem é quando você foge de uma decisão correta. E a decisão, neste caso, foi entregá-los [os soldados suspeitos] para a Justiça para serem julgados. É um pouco diferente do que acontece no Congresso, onde há parlamentares criminosos que não são entregues à Justiça. No caso [do Rio], eles serão julgados e, se condenados, serão expulsos das Forças Armadas. Isso mostra para a opinião pública que o Exército, em situações cruciais, age com força e determinação e nunca atropelando a lei", afirmou.
O especialista afirma que não há nada de mais na participação do Exército em obras sociais em morros do Rio, pois está previsto que o Exército deve trabalhar em ações do tipo, como acontece no Haiti.
Segundo ele, no caso da Providência, o Exército foi convidado, levou sua equipe de engenheiro e também sua própria segurança. "O Exército tem que ter sua segurança própria. Não pode confiar em qualquer tipo de seguranças que não seja a dele", disse.
Onze militares foram presos na manhã de segunda-feira pela Polícia Civil, depois de terem mandados de prisão expedidos pela Justiça. Os três jovens estavam desaparecidos desde sábado. Eles teriam sido entregues pelos militares a traficantes do morro da Mineira, comandado pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival do Comando Vermelho, que domina a Providência. Os corpos foram achados no domingo num aterro sanitário em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17, voltavam de um baile funk no morro da Mangueira, na manhã de sábado, quando foram detidos pelos militares, acusados de desacato, e levados ao comandante para que prestassem depoimento. Depois disso, os três não haviam mais sido vistos.