UOL Notícias Cotidiano
 

17/06/2008 - 23h05

Segundo advogados de militares, depoimentos responsabilizam tenente

Juliana Castro
no Rio de Janeiro
(texto atualizado às 8h29 do dia 18 de junho)

Dois advogados que representam 7 dos 11 militares presos acusados de envolvimento no caso em que 3 jovens do morro da Providência foram mortos, no Rio de Janeiro, afirmaram que os depoimentos de seus clientes à Polícia Civil responsabilizam o superior da tropa pela atitude de levar as vítimas até o morro da Mineira, onde supostamente eles foram entregues a traficantes de uma facção rival à que domina a favela da Providência.

O advogado Walmar Flávio de Jesus, que representa o sargento Leandro Maia e mais três soldados, afirmou que "o depoimento (de seus clientes) foi muito tranqüilo". "Eles alegam que só estavam fazendo escolta por determinação do superior. Todos os depoimentos de todos os praças são no sentido de que há um único culpado do crime ocorrido. Eu vou me reservar ao direito de não falar o nome. Mas com certeza foi o superior deles", disse Jesus, referindo-se ao tenente que chefiava a tropa. A tropa, segundo a Polícia Civil, era chefiada pelo tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade. O advogado do tenente afirmou que o seu cliente não sabia que eles seriam mortos pelos traficantes. "Ele não imaginava o desdobramento que isso teria", disse João Carlos Figueiredo Rocha (leia mais na Folha de S.Paulo -somente para assinantes). Segundo ele, os militares contaram que o tenente Andrade e o sargento Leandro Maia iniciaram uma conversa com os traficantes, para quem entregaram os detidos para lhes "dar um corretivo". O Exército, que abriu um inquérito policial militar, não se pronunciou sobre o fato nesta terça. Em nota divulgada na segunda-feira, o Exército informou que repudia qualquer "desvio de conduta". O ministro da Defesa, Nelson Jobim, esteve nesta terça no morro da Providência e pediu desculpas às mães das vítimas.

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"Essa situação foi inesperada. Muitos deles não conheciam a localidade e foram pegos de surpresa pela atitude do oficial", afirmou o advogado, sobre o fato de as vítimas terem sido levadas pelos militares em um veículo para o morro da Mineira. Segundo Jesus, ao chegarem ao local, houve uma conversa de um tenente com traficantes do morro.

O advogado Jesus afirmou que a defesa não pretende pedir habeas corpus "porque o delegado do caso está fazendo um bom trabalho e a verdade vai aparecer". Os depoimentos foram colhidos pelo delegado Ricardo Domingues, da 4ª Delegacia Policial.

Seus clientes, segundo Walmar Flávio de Jesus, "negam veementemente saber que estavam se dirigindo àquela localidade, o morro da Mineira". "A informação que eles tinham é que estavam se dirigindo para a altura do Sambódromo, para deixar os três jovens ali."

Segundo os depoimentos, nas palavras do advogado, na frente do grupo que foi ao morro da Mineira estavam o tenente e dois soldados. Os relatos à polícia iriam no sentido de que o tenente não "achou justo" que os três fossem soltos depois do que considerou desacato (um capitão que estava no comando do quartel teria mandado liberar os três jovens) e descumpriu a orientação de soltura deles.

O advogado Marcio Frazão, que defende os sargentos Bruno Eduardo de Fátima e Renato de Oliveira Alves e o soldado Sidney de Oliveiro Barros, disse que seus clientes "não sabiam que estavam levando os três jovens do morro da Providência para o morro da Mineira".

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Os 11 militares foram presos na manhã de segunda-feira (16) pela Polícia Civil, depois de terem mandados de prisão expedidos pela Justiça. Os três jovens estavam desaparecidos desde sábado. Eles teriam sido entregues pelos militares a traficantes do morro da Mineira, comandado pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival do Comando Vermelho, que domina a Providência. Os corpos foram encontrados no domingo em um aterro sanitário em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa Ferreira, 19, e Marcos Paulo Campos, 17, voltavam de um baile funk no morro da Mangueira, na manhã de sábado, quando foram detidos pelos militares, acusados de desacato, e levados ao comandante da tropa para que prestassem depoimento. Depois disso, os três não haviam mais sido vistos.

"Para eles, foi uma saída de rotina. Eles não saíram para uma missão. Estavam aguardando a viatura. Meus clientes não tiveram envolvimento com a prisão dos jovens", declarou o advogado.

Segundo Frazão, os clientes disseram que o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade e um sargento identificado como "Maia" foram os militares que conversaram com os traficantes. "De repente, eles se viram cercados de criminosos mais bem armados e em maior número. Logo o tenente começou a falar com eles", disse o advogado.

Frazão disse ainda que os clientes relataram que três ou quatro militares permaneceram na base do morro, enquanto os outros subiram com o carro.

Na opinião de Frazão, os 11 militares podem ser indiciados por seqüestro e aqueles que teriam entregue os jovens aos traficantes poderão ser indiciados por homicídio triplamente qualificado.

Militares ocupam o morro da Providência desde dezembro de 2007, onde atuam em obras sociais, segundo o Exército.

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