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24/06/2008 - 12h49

Quadrilha da periferia de Campina Grande tem roupa emprestada e noivo 'postiço'

Ana Luisa Bartholomeu
Enviada especial do UOL
Em Campina Grande (PB)
O rosto suado e emburrado de Nyele Santos Lopes, 12, denunciava o contratempo. Enquanto, ofegante, subia e descia a rua Judivan Cabral, no bairro Velame, na periferia de Campina Grande, a menina que vestia branco da cabeça aos pés aproveitava para avisar os moradores que esperavam ansiosos pela apresentação da quadrilha do bairro: "O noivo sumiu!"
  • Flávio Florido/UOL

    Enquanto esperam pelo chamado dentro do único boteco da rua, os 24 integrantes da quadrilha dividem espaço com uma mesa de bilhar


Entre uma discussão e outra, ouvia-se alguém gritando que Hélder havia desistido de dançar. "Chama lá seu primo, então. Vai rápido", repetia a noiva a uma outra 'caipirinha', já com a maquiagem borrada em meio à correria. Foi só o tempo de colocar um chapéu e uma gravata no noivo 'postiço' para que a substituição fosse feita.

Dentro do único boteco da rua, os 24 integrantes da quadrilha dividiam espaço com uma mesa de bilhar e uma geladeira com poucas cervejas. A ordem era esperar o chamado do marcador Ronaldo Ribeiro, atualmente desempregado, para iniciar a apresentação, que vinha sendo ensaiada desde o fim de abril.

Era noite de São João, e pelo segundo ano consecutivo, os moradores de Velame homenageavam o santo famoso de forma tradicional. Com o patrocínio do pintor e mecânico Antonio da Silva Gomes, foi possível comprar alguns fogos e barbante para pendurar as bandeirinhas.

A decoração ficou mais completa com bambus e folhagens que os moradores pegaram de um terreno aparentemente baldio. "Fazemos isso para animar um pouco o povo. Cada um traz uma coisinha e ficamos por aqui na noite de São João", dizia o organizador.

À luz da fogueira, o marcador anunciava no microfone do carro de som cedido pela prefeitura a entrada dos casais, que saíam em fila de dentro do estabelecimento. Nyele puxava seu novo par e arrumava o vestido, emprestado da mãe da vizinha Jakeline, que não quis dançar porque já se achava 'grande demais' aos 13 anos.

Alternando passos em roda ou em fila, todos os integrantes imitavam os gestos do marcador, que parecia satisfeito com o resultado de quatro ensaios por semana durante dois meses. "Vamo lá que tá bonito", repetia.

O 'balancê' e o 'caminho da roça' era acompanhado pelas palmas dos moradores, que ajudavam a marcar o ritmo das crianças. Meninas balançavam as saias com vontade, enquanto os meninos ensaiavam uma ginga mais tímida.

De fora do cordão de isolamento que separava o 'público' dos 'artistas', Fabrícia Laurentino, 21, segurava pelas mãos os dois filhos e dava ordens para que os casais alinhassem a fila na hora dos cumprimentos. "A rua toda ajuda a arrumar as crianças e a fazer a decoração. É divertido. Prefiro ficar por aqui do que sair. A gente chega na hora que quer e vai embora quando bem entende.".

Mas nem todos ali pensavam assim. Passados o 'túnel', o 'caracol', a 'cobra', a 'ponte' e a 'chuva', além de diversos 'é mentira', a quadrilha se despedia, e Jussara Ferreira, 20, também. "Vou pegar o ônibus para o centro. Hoje tem show do Fogo de Menina."

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