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17/07/2008 - 06h01

Tragédia da TAM, 1 ano depois: acidente foi "divisor de águas" para a aviação civil

Pedro Marques
Da Redação
Em São Paulo
Filas intermináveis no check-in, atrasos de horas nos vôos e pessoas dormindo em aeroportos. Esse era o retrato dos aeroportos brasileiros em julho de 2007, mês do acidente com o Airbus A320 da TAM em Congonhas, no qual 199 pessoas morreram. Um ano depois, a situação está melhor nos aeroportos brasileiros - e um dos motivos é que a tragédia com o vôo 3504 exigiu das autoridades soluções para as várias deficiências da aviação civil brasileira.

"Acho que o preço pago para a aviação brasileira entrar nos eixos foi altíssimo", afirma Gianfranco Beting, diretor de Marketing da Azul, nova companhia que ainda não iniciou suas operações com vôos no Brasil. "Infelizmente, essa história foi um divisor de águas: a sociedade chocada, enfurecida com o apagão aéreo, mostrou que as coisas não podiam continuar do jeito que estavam."

Cláudio Jorge Pinto, professor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e especialista em aviação civil, concorda: "O acidente não ocorreu por causa da crise aérea, mas foi um fato que deu visibilidade a toda questão." Segundo ele, a tragédia foi "mais ligada à própria aeronave ou à sua condução". A principal contribuição positiva (do acidente) "foi desnudar o problema".

Governo reage
A crise aérea, aliás, parecia que não daria trégua aos viajantes. De acordo com dados da Anac, em julho do ano passado, mês em que o apagão aéreo atingiu seu ápice, 42,7% dos vôos registravam atrasos acima de 30 minutos.

Para controlar a crise, várias medidas foram tomadas rapidamente pelo governo após o acidente. Waldir Pires, então ministro da Defesa (órgão responsável pela gestão da Infraero e Anac), foi substituído por Nelson Jobim. Já Sérgio Gaudenzi assumiu à presidência da Infraero, no lugar do brigadeiro José Carlos Pereira. Em dezembro, boa parte da diretoria da Anac foi demitida - entre elas, Denise Abreu, diretora da instituição, e voz de oposição ao governo.

"A principal medida para atacar a crise aérea foi o aprimoramento da coordenação entre a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Portuária) e o Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), da Aeronáutica, resultado do trabalho da Secretaria de Aviação Civil e do Ministro da Defesa Nelson Jobim", informou a Anac ao UOL, por meio de comunicado.

Em dezembro de 2007, a nova diretoria da Anac anunciou um pacote de medidas para o setor aéreo que incluía a diminuição do número de vôos em Congonhas e a implantação de uma nova malha aérea, organizando as rotas e horários de vôos.

Crise controlada, mas longe do fim
As decisões tomadas pelo governo foram consideradas positivas para os especialistas ouvidos pelo UOL. "(A partir da tragédia) se sucederam uma série de ações positivas e uma relação mais íntima entre a Anac, o Decea e a Infraero, que passaram a trabalhar mais em conjunto", disse Cláudio Jorge Pinto, do ITA. "O alívio de tráfego de Congonhas foi uma medida obrigatória", disse.

Embora as cenas marcantes de pessoas dormindo em aeroportos já não sejam mais freqüentes, números da própria Anac mostram que a crise aérea não foi totalmente solucionada. Em junho deste ano, a agência registrou, em média, atrasos acima de 30 minutos em 19,6% dos vôos do país.

"O problema não foi resolvido. Foi equacionado", diz Gianfranco Beting, da Azul. "Acontece o que aconteceu com o trânsito: em vez de aumentar a capacidade, você proíbe os carros de andarem." A Anac, em seu comunicado, reconhece: "A situação de caos nos aeroportos foi controlada ( ... ) , porém o setor ainda inspira muitos cuidados e atenção, para evitar que situações críticas se repitam."

A solução para o problema, afirmam os especialistas, passa obrigatoriamente pela ampliação da capacidade dos aeroportos e pela construção de um terceiro aeroporto em São Paulo. "Está mais do que na hora", diz Beting. "A capacidade do transporte aéreo não está sendo aumentada, principalmente na região de São Paulo que é a que mais precisa. Pra mim, isso é urgente urgentíssimo e vai ajudar o Brasil inteiro", disse Pinto, professor do ITA.

Infelizmente, aeroportos não são construídos do dia para a noite. "Mesmo depois de tomadas, as decisões leva um tempo para se tornarem efetivas. Demora para a obra de um aeroporto ficar pronta", afirmou.

Enquanto isso, a demanda vai crescendo e os passageiros se acostumam "a um certo nível de serviço mais baixo", segundo Pinto. "Peguei um vôo recentemente e fiquei feliz porque meu vôo atrasou só 2 horas. Na ida, o atraso foi muito maior."

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