As políticas de transferência de renda colocadas em prática nos últimos anos foram fundamentais para a diminuição da desigualdade identificada no país, é a opinião da diretora da OIT (Organização Internacional do Trabalho no Brasil), Laís Abramo. A socióloga comentou relatório produzido pela sede da OIT em Genebra sobre desigualdade de renda no mundo.
"Vejo que o Brasil, nos últimos anos, tem tido políticas redistributivas muito claras. Não é mais aquela idéia de deixar o bolo crescer para depois dividir", diz.
Em tempos de crise
O relatório da OIT analisa 85 países de todos os continentes e conclui que, apesar do emprego em todo o mundo ter crescido 30% entre 1990 e 2007, a desigualdade de renda aumentou e pode piorar com a atual crise financeira
A diretora da OIT no Brasil acredita que a distribuição de renda para as famílias mais pobres é um motor para o crescimento, porque promove a capacidade de consumo destas pessoas e, conseqüentemente, dinamiza a economia, fortalece o mercado interno e aumenta a capacidade do país de captar investimentos.
"O Brasil não cresce a taxas espetaculares como a China, a Índia e, aqui na América Latina, a Argentina, mas, ao mesmo tempo, houve uma redução grande de pobreza", explica.
O relatório da OIT mostra que a desigualdade de renda no país sofreu uma queda entre 1990 e 2005, e os salários médios caíram no mesmo período. Laís explica, no entanto, que o processo não foi linear e que o índice de desigualdade varia de acordo com as oscilações dos salários.
O que é dispersão salarial?
A dispersão salarial representa a diferença entre os salários mais baixos e os salários mais altos pagos dentro de um território. Ou seja, quanto maior a lacuna entre os rendimentos dos mais pobres e os dois mais ricos em um país, maior é a dispersão.
Assim, os momentos de redução da desigualdade vistos no Brasil nas últimas duas décadas têm a ver com os efeitos da estabilização do sistema financeiro entre 1997 e 1999, e depois com a redução da dispersão salarial em 2001, três anos após o pico de crescimento em 1998.
Entre as políticas de distribuição de renda, a organização lista como mais importantes o Bolsa Família, a aposentadoria universal e a inclusão dos trabalhadores rurais na Previdência Social. Nem todas elas são recentes: a entrada dos trabalhadores do campo na previdência data de 1963, por exemplo. Mas continuam sendo importantes para o combate às desigualdades.
Abramo lembra outros dois importantes fatores: o aumento dos empregos formais e da taxa de sindicalização dos trabalhadores assalariados. "Segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional de Domicílios), a taxa de ocupação as população brasileira aumentou 1,6%, enquanto o emprego formal aumentou 6,1%. Ou seja, o emprego formal está crescendo a uma taxa muito maior do que o emprego em geral", diz a socióloga. Já os sindicatos seriam importantes pelo impacto nas negociações salariais.
"O Brasil continua sendo um país com alta concentração de renda. Mas acho que o que o relatório diz é que temos avançado em um caminho que nos deixa em condições de inclusive enfrentar a
crise atual com menos dificuldades do que os outros", conclui Laís Abramo.