UOL Notícias Cotidiano
 

29/11/2008 - 06h00

Professor de ioga e massagista de celebridades vira alvo de denúncias

Rodrigo Bertolotto
Em Mairiporã (SP)
Um caso envolvendo denúncias contra um conhecido professor de ioga dono de escolas freqüentadas até por celebridades deve virar alvo de investigação no Ministério Público nos próximos dias. Algumas ocorrências de problemas de saúde e publicações de reportagens em revistas semanais mencionando supostos abusos levantaram suspeitas sobre as práticas das escolas de Cristovão de Oliveira, tido como um "guru" de algumas pessoas famosas.

O PROFESSOR DA POLÊMICA

  • Bob Wolfenson/Trip

    As escolas de Cristovão de Oliveira são muito frequentadas por celebridades

  • Bob Wolfenson/Trip

    Oliveira faz posição durante uma de suas aulas, consideradas muito vigorosas dentro da ioga

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Casa e escola de Oliveira, o ashram dele foi construído em meio à serra da Cantareira



Na próxima semana, o advogado Ismar Marcílio de Freitas Júnior deve entrar com uma ação cível no Ministério Público apontando prática ilegal de medicina por parte de Cristovão de Oliveira, que anteriormente ganhara fama e fizera publicidade pessoal como professor de ioga e massagista de celebridades como a modelo Fernanda Lima, a apresentadora Luciana Gimenez, o empresário Pedro Paulo Diniz e o filósofo Mario Sergio Cortella.

A sorte virou para Oliveira no começo de novembro, quando 12 pessoas que faziam retiro em sua casa em Mairiporã (Grande São Paulo) foram hospitalizadas com quadros médicos de desidratação profunda, diarréia e confusão mental. O Hospital e Maternidade Emed, da vizinha cidade de Caieiras, declarou que causa foi a ingestão excessiva de água e pediu a abertura de inquérito para investigar se Cristovão colocou a vida de seus alunos em perigo com o ritual de limpeza corporal que ele aplicou. Suspeita-se que ele teria dado também aos praticantes chá de sene, erva usada como laxante que é vendida em lojas de produtos naturais.

"Esse senhor é um curandeiro. As autoridades têm que apurar o exercício dele, se a clínica dele tem alvará ou não", afirmou o advogado que defende as famílias de clientes e funcionários do professor de ioga, que se declaram assustadas com a situação. Ele só não entrou com a ação porque as cinco pessoas que denunciaram as práticas de Oliveira não querem aparecer diante da mídia (alguns delas deram depoimentos à imprensa, mas exigindo anonimato).

A maioria dos alunos hospitalizados voltou para a vivência de um mês na casa de Oliveira, para a qual pagaram R$ 3.000, e não prestou queixa. Mas alguns deles se desligaram. Um exemplo é Pedro Moreno, 32 anos de idade e 12 anos de ioga. Ele dirigia o centro do professor no bairro de Perdizes, mas decidiu se afastar.

"Meu senso ético não é compatível com as coisas que estão acontecendo lá dentro", disse Moreno à reportagem do UOL. Insinuações de ocorrência de assédio sexual ganharam destaque nas reportagens de revistas semanais atrás de histórias sensacionais, entrevistando garotas que anonimamente contam casos de sessões de massagem que, segundo elas, terminaram em bolinação e sexo. Por outro lado, os pais apareceram em reportagens televisivas de costas e com a voz distorcida, falando que seus filhos estão "abduzidos" por Oliveira.

SÓ MÉDICOS AYURVÉDICOS PODEM RECEITAR ERVAS

A ioga é considerada uma "ciência irmã" da "Ayurveda", a medicina tradicional indiana, que também vem atraindo adeptos no Brasil. Os médicos ayurvédicos, na Índia, estudam aproximadamente cinco anos e as terapias envolvem o uso de ervas, dieta, massagens, ioga e meditação. Tudo de acordo com o características pessoas de cada um, ou "humores biológicos", chamados de "doshas".

"A ioga também deve ser aplicada de acordo com as características de cada um, ou pode até ser prejudicial para a pessoa", ressalta Marcia De Luca, fundadora Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda.

Oliveira não quer se pronunciar sobre o caso. Por meio de sua advogada, Ellen Mesquita, disse que as acusações são "especulações e inverdades". Nos bastidores, acredita que desafetos estão aproveitando o caso hospitalar para criar uma onda difamatória sobre esse iogue que ganhou projeção com suas três escolas.

"Não existe essa história de lavagem cerebral. As pessoas estão lá porque querem", afirma o mesmo Moreno. A ioga de Cristovão pode ser classificada como de "alto impacto", com muita exigência física para "ir além da exaustão", como o próprio professor define. Sua massagem não fica atrás em agressividade: as primeiras sessões estão descritas como "muito dolorosas" e os clientes saem com hematomas nos locais mais pressionados.

Um ponto que se discute é a formação de Oliveira. Ele afirma ter ficado mais de um ano na Índia aprendendo a variedade "ashtanga vinyasa", conhecida dentro da ioga por ter exercícios mais pesados.

Mas seu ex-sócio Mário Reinert dúvida da formação desde que visitou em 2005 a cidade Mysore, no sul da Índia, para onde vai anualmente e passa três semanas por temporada. "Ele inventa postura e exercícios, como criou essa história de tomar litros e litros de água para se limpar", afirmou Reinert.

Não há um sistema de certificação para a área. "Qualquer um pode fazer um curso de final de semana ou nenhum curso, se preferir, e abrir seu instituto. Basta colocar um nome em sânscrito e posar de mestre para que os mais ingênuos considerem o trabalho sério. Não basta ir para a Índia. A Índia está cheia de charlatães profissionais", sentencia o professor Marcos Rojo, PhD em Ciência da Ioga, coordenador do curso de pós-graduação em ioga na UniFMU e autor do livro "O que é Ioga?" (Brasiliense).

Ele acredita que para ser professor é preciso ter nível superior. "Hoje, em qualquer área de conhecimento, para se considerar professor é preciso um curso de nível superior. Deve-se ter um mínimo de didática, anatomia, fisiologia e outras disciplinas que norteiem um bom professor, independentemente da tradição a qual ele pertença", complementa.

Rojo lembra que os indianos são muito cuidadosos com suas técnicas. Sobre os rituais que envolvem a limpeza do aparelho digestivo, usado antes de prática intensa de ioga, ele conta que não são feitos em grupo e "não é todo mundo que pode fazer" e "é muito pouco recomendada".

Já a massagem ayurvédica na Índia é feita por pessoas do mesmo sexo do paciente, justamente para não haver uma ação invasiva. "O primeiro passo da ioga é a não violência e isto significa não violência em todos os níveis", lembra quando o assunto são as massagens pesadas de Oliveira. "As massagens aplicadas pelo professor em questão, não são massagens ayurvédicas, ou da cultura indiana", afirma Rojo.

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